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De peixe fora d'água a influenciador literário: Scarpa faz obra de Tolstói virar bestseller no Brasil

Jogador do Atlético-MG surpreende ao divulgar gosto pela literatura e elevar 'A Morte de Ivan Ilitch' ao topo das vendas.

Sputnik Brasil 02/10/2026
De peixe fora d'água a influenciador literário: Scarpa faz obra de Tolstói virar bestseller no Brasil
Gustavo Scarpa, do Atlético-MG, compartilha sua paixão pela leitura e se destaca como influenciador literário. - Foto: © Foto / Pedro Souza / Atlético-MG

O futebol brasileiro está em meio à pausa da Superdata FIFA, mas, mesmo assim, Gustavo Scarpa, meia do Atlético-MG, se tornou pauta em diferentes portais de notícia. O jogador do Galo, habituado a estampar manchetes com assistências e gols, agora foi procurado pela imprensa para falar sobre... livros.

Scarpa, que utiliza suas redes sociais, com mais de 1 milhão de seguidores, para realizar resenhas literárias, viralizou após uma de suas indicações, "A Morte de Ivan Ilitch", do autor russo Lev Tolstói, alcançar o primeiro lugar no ranking de livros mais vendidos no Brasil em um importante marketplace.

Embora para a maioria das pessoas o hábito de leitura de Scarpa seja uma novidade, o meia faz questão de destacar aos seus seguidores desde 2018 quais livros já leu, mesmo que não tenha compreendido algumas obras, como "O Processo", de Franz Kafka.

Em entrevista à Sputnik Brasil, o jogador do Galo afirmou que seus fãs já conheciam parte de sua biblioteca, mas que conseguiu furar a bolha do futebol ao indicar Tolstói.

"Estou feliz porque ser uma referência no mundo literário é algo um pouco aleatório, mas é uma honra. Tem sido um momento bem legal."

Convertido ao cristianismo, Scarpa compartilha que a Bíblia foi seu primeiro livro. A partir da escritura sagrada, uma tia o presenteou em 2018 com a biografia de Steve Jobs, fundador e o mais conhecido dentre os CEOs da Apple. Esse presente coincidiu com o período em que o atleta chegou ao Palmeiras, abrindo de vez as portas do mundo da literatura.

Scarpa relembra que fez amizade com Pedro Janete, estagiário do departamento de futebol do Verdão à época, que, entre desafios de gols e assistências, começou a indicar livros ao meia. Pedro, que possuía formação em direito, mas atuava como preparador físico do clube, presenteou Scarpa com "O Médico e o Monstro", de Robert Louis Stevenson.

Não demorou muito para que o atleta conhecesse a literatura russa e um de seus maiores nomes, Fiódor Dostoiévski.

"Acho que meu quarto ou quinto livro, no comecinho, li 'Crime e Castigo', do Dostoiévski. Eu já era familiarizado com o título, mas não sabia que era considerado um livro acadêmico, uma leitura difícil, sabe? Então não me preparei, simplesmente li 'Crime e Castigo', que foi, acho, o primeiro livro de literatura russa que li. Gostei demais!"

Após "Crime e Castigo", Scarpa leu "O Idiota" e "Os Irmãos Karamazov", também de Dostoiévski. O interesse pelos autores russos não parou por aí: "Uma Confissão", de Tolstói, logo entraria em sua biblioteca, embora Scarpa tenha viralizado recentemente com "A Morte de Ivan Ilitch".

"'A Morte de Ivan Ilitch' não foi meu primeiro livro de literatura russa, inclusive acho que foi o menor [em número de páginas] que li até hoje, mas tem sido uma repercussão muito positiva. Não esperava de forma alguma."

'Peixinho fora d’água'

Scarpa admite que na escola era da turma do fundão, mas sempre tirava boas notas. O meia brinca que tentava finalizar as lições rapidamente para "aproveitar o tempo para bagunçar".

Aos 32 anos e fã de literatura, o jogador do Atlético-MG declara que não vê muitos colegas de profissão lendo, embora cite dois companheiros de Galo como leitores assíduos: o zagueiro Léo Duarte e o volante Victor Hugo.

"Desde que cheguei no Galo, já vi alguns jogadores lendo. No Palmeiras também. Acho que a galera não posta por, não sei, receio, algo assim. Acho que esse movimento de agora talvez seja um pouco encorajador para que outros jogadores se manifestem e publiquem suas leituras."

Com passagens por Nottingham Forest, da Inglaterra, e Olympiacos, da Grécia, Scarpa admite não ter observado companheiros estrangeiros lendo, seja no vestiário, nas viagens ou nas concentrações.

Esse hábito, diferente dos demais colegas, provoca uma sensação de "peixe fora d’água", explica o jogador. Em meio às brincadeiras de seus companheiros, Scarpa alcançou algo difícil em um esporte tão passional quanto o futebol: torcedores de clubes rivais, como o Cruzeiro, criaram grupos de leitura inspirados naqueles idealizados pelos fãs do Atlético-MG.

"Às vezes, por me sentir um pouco um peixinho fora d’água, lendo livros e, às vezes, nas brincadeiras, com os caras zoando, poder ver um movimento tão grande de várias torcidas, principalmente torcidas de times rivais, é um negócio marcante, revolucionário. Para realmente ficar feliz e valorizar."

Aos leitores da Sputnik Brasil, Scarpa finalizou a entrevista indicando pelo menos três obras: "Flores para Algernon", de Daniel Keyes; "O Sol é para todos", de Harper Lee; e o já citado "Os Irmãos Karamazov", de Dostoiévski.


Por Sputnik Brasil