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Direito internacional não é respeitado, diz analista após discurso de Putin

Presidente da Rússia comenta sobre a nova ordem global e os desafios internacionais.

Sputnik Brasil 01/10/2026
Direito internacional não é respeitado, diz analista após discurso de Putin
Analistas comentam discurso de Putin sobre a nova ordem mundial e desafios globais. - Foto: © Sputnik / POOL / Acessar o banco de imagens

Na 23ª reunião anual do Fórum Valdai, um dos principais espaços de discussão sobre política internacional, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, apresentou nesta quinta-feira (1º) uma leitura sobre as transformações em curso na ordem global e os desafios que, segundo ele, devem definir as relações internacionais nos próximos anos.

Em seu discurso, o líder russo defendeu a construção de uma nova ordem mundial baseada em maior equilíbrio entre diferentes centros de poder e afirmou que países do "Leste e Oeste", "Norte e Sul" terão, mais cedo ou mais tarde, de chegar a um entendimento sobre seus princípios.

Ao abordar o papel das instituições multilaterais, Putin defendeu uma reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) para adequá-la à atual configuração internacional e criticou o que considera uma influência desproporcional dos países ocidentais. O presidente russo também afirmou que a influência do Ocidente está diminuindo e que a Rússia ainda é vista por parte desses países como um império que deveria ser fragmentado.

Giovana Branco, doutoranda em ciência política da Universidade de São Paulo (USP), avaliou que o presidente russo retomou elementos em seu discurso que precedem 2022, quando de fato iniciou-se o conflito com a Ucrânia. Putin fez uma reconstrução do cenário até o momento citado, evidenciando que "países da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] teriam passado uma série de linhas vermelhas".

"Ele fala sobre a queda do governo Viktor Yanukovych em 2014 e também da tentativa da OTAN de trazer cada vez mais a Ucrânia e também a Geórgia para perto da sua área de influência. E isso, segundo o presidente russo, foi já uma tentativa de ataque contra os interesses da Rússia naquele momento", afirma.

De acordo com a analista, a compreensão de que a Rússia responde a uma agressão prévia do Ocidente é clara em Moscou.

O presidente russo também direcionou as declarações para temas como inteligência artificial, segurança internacional e o legado da União Soviética.

Reforma para um mundo multipolar

Para Ana Prestes, analista internacional e doutora em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), as afirmações do presidente russo estão em consonância com avaliações feitas por outros líderes mundiais, como o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente chinês, Xi Jinping.

Na sua avaliação, os governos têm apontado para uma crise da estrutura de governança global construída após a Segunda Guerra Mundial, da qual fazem parte a ONU e outros organismos multilaterais.

"Hoje o direito internacional não tem sido cumprido, os convênios não têm sido parâmetros, não têm sido balizas para as ações dos governos", afirmou, pontuando que o diagnóstico também está presente no debate dentro do BRICS e entre outros líderes mundiais.

Somando ao comentário, Ricardo Cabral, professor de história e especialista em história militar e conflitos internacionais, avalia que o discurso de Putin leva em conta que as instituições criadas após a Segunda Guerra Mundial estão esgotadas diante das transformações no cenário global. Enquanto o sistema da ONU mantém princípios relevantes, ainda está "fortemente ultrapassado" em relação às necessidades atuais.

Putin, durante o discurso, se referiu, sobretudo, ao Conselho de Segurança da ONU. Segundo o especialista, o órgão é "completamente anacrônico", uma vez que as representações têm peso desproporcional ao papel dos países no cenário global.

O analista destaca ainda que a ordem internacional foi estruturada em um contexto de hegemonia dos Estados Unidos, mas que Washington deixou de exercer esse papel de forma absoluta.

Preocupação com os rumos da inteligência artificial

Durante o seu discurso, Putin enfatizou que o mundo precisa de tempo hábil para desenvolver regras e diretrizes sobre o uso da IA.

Para Prestes, "a questão da inteligência artificial é a fronteira da tecnologia", onde também se dá a disputa entre as potências. Recentemente, discursos de Xi Jinping e de Trump também expressaram alguma preocupação em relação à possível perda de controle sobre a tecnologia, assim como ressaltado por Putin hoje, que falou sobre perigos e riscos da ferramenta.

A analista recorda, ainda, que o líder russo falou sobre as habilidades humanas. Em sua fala, Putin destacou a capacidade humana sobre a inteligência artificial, em especial para orientar decisões militares: um soldado soviético salvou o mundo da guerra nuclear, "se [houvesse] uma inteligência artificial em seu lugar, as coisas poderiam ter terminado de forma bem diferente".

Segundo Cabral, quando o assunto da tecnologia está relacionado ao meio militar, "os limites são amplamente desconhecidos". A IA, explica, identifica padrões, ameaças iminentes e calcula o risco, mas não leva em conta fatores que não entram na equação e podem colocar uma série de vidas em risco.