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Retorno da Venezuela ao Mercosul pode indicar intervenção dos EUA, afirmam analistas

Mudanças políticas e econômicas afetam o futuro da integração sul-americana

Sputnik Brasil 29/09/2026
Retorno da Venezuela ao Mercosul pode indicar intervenção dos EUA, afirmam analistas
Analistas discutem retorno da Venezuela ao Mercosul e possível influência dos EUA na região. - Foto: © AP Photo / Pedro Mattey

Caracas foi suspensa do grupo sul-americano em 2016, por descumprimento de normas comerciais e prazos do termo de adesão, e, em 2017, por questões democráticas.

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, declarou na última quarta-feira (23) que defende o fim da suspensão da Venezuela no Mercosul. A fala do líder de Assunção foi feita na Assembleia Geral da ONU, diante de diplomatas de todo o mundo.

"Queremos uma transição [democrática] com instituições fortes, segurança, uma economia próspera e uma nação novamente integrada à comunidade internacional e, especificamente, integrada ao Mercosul."

A Venezuela foi suspensa do Mercosul em dezembro de 2016 por não respeitar as normas comerciais impostas pelo grupo, além de falhar em cumprir os prazos designados no protocolo de adesão. Em agosto de 2017, uma nova suspensão foi determinada pelos países da instituição, baseada no Protocolo de Ushuaia, em uma suposta ruptura da ordem democrática.

Entre 2017 e hoje, muita coisa aconteceu dentro do Mercosul: líderes como Mauricio Macri e Michel Temer deram lugar a Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva; o prometido acordo com a União Europeia saiu do papel após décadas; e a Bolívia, por sua vez, teve a entrada aprovada no grupo sul-americano.

Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas avaliam que uma reintegração da Venezuela ao Mercosul poderia ser lida como uma chancela das nações do continente à intervenção realizada por Washington em Caracas, uma normalização regional do país, quase dez meses após o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores.

Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), conta que esteve no final de agosto no parlamento do Mercosul, onde os membros paraguaios já suscitavam a volta da Venezuela ao grupo.

Ainda segundo a especialista, os parlamentares, sobretudo brasileiros e uruguaios, eram contra a ideia e defendem que Caracas deve passar por eleições democráticas diretas, sem a intervenção dos Estados Unidos, para que um retorno ao grupo sul-americano possa ser discutido.

"Ou seja, a Venezuela foi suspensa no momento em que se dizia que o governo de Nicolás Maduro não era democrático. Podemos dizer que o país, de fato, retornou à democracia porque foi invadido pelos Estados Unidos? É isso que o Mercosul estaria passando de recado."

Na visão da especialista, o Paraguai propõe o retorno venezuelano por assistir à influência dos Estados Unidos no país caribenho. Além de Assunção, Buenos Aires também mantém um alinhamento quase que automático com Washington, pontos que não favorecem o Mercosul.

"O Mercosul está em um momento de grandes divergências, justamente pelas lideranças do Brasil e da Argentina estarem com poucos entendimentos internos. Aliás, o bloco ganhou uma sobrevida com o acordo Mercosul-União Europeia. No entanto, não há fôlego e clima político para novamente abrigar a Venezuela no momento em que o país tampouco se organizou internamente."

Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec no Distrito Federal, explica que o retorno de Caracas ao Mercosul representaria ter acesso a uma rede maior de integração comercial com os vizinhos sul-americanos e ajudaria a diversificar parcerias em um momento de reconstrução dependente dos Estados Unidos.

"A integração ao Mercosul funcionaria como um sinal de normalização regional do país. Quero dizer, o país está se normalizando. Essa seria a impressão que se passaria na comunidade internacional. E isso facilita tanto para a diplomacia comercial quanto também para as decisões de comércio e de investimento de empresas no próprio país."

Esse retorno ao Mercosul, no entanto, não seria simples ou automático. Galvão conta que os anos de suspensão da Venezuela do Mercosul afastaram Caracas da evolução normativa do grupo, necessitando adequações às novas regras comerciais e institucionais que se acumularam neste período.

"A suspensão que aconteceu em 2017 estava ligada ao restabelecimento da ordem democrática, lembra? Então o teste para a Venezuela não vai ser apenas um teste econômico, vai ser também um teste institucional de adequação das suas instituições e da sua política interna às exigências institucionais e democráticas do bloco."

Reintegração da Venezuela pode ser arma dos EUA?

A fala de Peña, pedindo o retorno da Venezuela ao Mercosul, deve ser lida como uma tentativa de normalizar a conjuntura política local, ao menos é o que acredita Bressan. Para a professora, os Estados Unidos não precisam de um país alinhado no grupo para exercer sua influência no continente sul-americano.

"A intervenção que eles querem fazer, eles já conseguem de maneira bilateral com os países e conseguem ter essa entrada a partir dos próprios ministérios de relações exteriores, consulados, embaixadas dos Estados Unidos na América Latina. Ou seja, eu não vejo uma necessidade de fazer isso via Mercosul."

Galvão concorda com Bressan e não vê evidências que indiquem um dedo dos Estados Unidos nas falas de Peña, apesar da proximidade do presidente paraguaio com a Casa Branca. Na visão do especialista, há uma convergência de interesses entre Assunção e Washington nesse assunto.

"Os Estados Unidos querem uma Venezuela mais estável, uma Venezuela mais aberta para investimentos americanos e também que tenha maior previsibilidade política. E, é claro, o Mercosul pode ajudar nesse processo. Então eu separaria bem essas coisas. Existe convergência entre Assunção e Washington, mas isso é diferente de a gente dizer que Peña está executando uma estratégia americana."

Bressan entende que a maior dificuldade do grupo sul-americano é encontrar uma convergência de ideias, que vai muito além de direita e esquerda. Nesse contexto de falta de sintonia, a influência da Casa Branca na região é apenas mais um ingrediente.

"Hoje vemos uma grande dificuldade de diálogo entre os países da América do Sul. Portanto, trazer a Venezuela para dentro do Mercosul nesse contexto talvez só traria mais polarização, maior divergência do que convergência, já que estamos com dificuldade entre nós de conversarmos, dialogarmos."

Galvão destaca a capacidade do Mercosul de sobrevivência a partir das políticas implementadas por meio de consenso. No entanto, esse formato faz com que o grupo seja lento e tenha dificuldades de aprofundamento.

"É difícil você dar continuidade a determinadas políticas porque, ora, os principais países estão com um alinhamento ideológico e, logo depois, o governo muda e aí trocam-se os espectros ideológicos, descontinuando o que estava sendo feito anteriormente."

A depender do candidato que vença as eleições brasileiras de outubro, Bressan defende que a forma de se construir relações diplomáticas regionais deve mudar drasticamente.

"Se tivermos a continuidade do atual governo, certamente continuaremos em uma tendência a negociar de maneira pragmática com os nossos vizinhos. Já sob um governo à direita, teremos uma influência maior dos Estados Unidos no nosso país, mas não necessariamente uma relação mais próspera com os nossos vizinhos, porque, aliás, os Estados Unidos estão intervindo e se fazem presentes nos países da América Latina não para promover cooperação e maior união, mas, muitas vezes, para tentar resgatar o apoio que já tiveram no passado."


Por Sputnik Brasil