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Papa condena e classifica eutanásia como 'falsa compaixão' imoral

Discurso em Lourdes reforça ensinamentos católicos sobre dignidade da vida

Estadao Conteudo 27/09/2026
Papa condena e classifica eutanásia como 'falsa compaixão' imoral
Papa Leão XIV durante visita à Argélia - Foto: © ANSA/AFP

O Papa Leão XIV condenou veementemente a legalização da morte assistida por meios médicos, classificando-a como uma 'falsa compaixão' imoral. Durante uma visita ao santuário de Lourdes, neste domingo, 27, ele reafirmou os ensinamentos católicos sobre a vida.

Em seu terceiro dia na França, Leão voltou a abordar o debate sobre o fim da vida, tema que tem ganhado força em diversos países ao redor do mundo.

A questão tem agitado a política francesa há anos, culminando em uma legislação que permite a adultos com doenças incuráveis receberem medicação letal.

A visita de Leão à França, que já foi um país profundamente católico e hoje é oficialmente laico, atraiu multidões imensas, como as 800 mil pessoas presentes na missa celebrada por ele na icônica Place de la Concorde, em Paris, e foi marcada por suas mensagens contra o aborto e a morte assistida.

Neste domingo, o Papa norte-americano celebrou uma missa para cerca de 150 mil pessoas, muitas delas em cadeiras de rodas, no gramado ao lado da basílica principal de Lourdes.

Após a missa, ele visitou um centro de assistência a enfermos no santuário. Leão buscou encorajar aqueles que vivem com 'dores terríveis', lembrando-lhes que possuem uma dignidade inerente que nenhuma lei ou algoritmo pode 'eliminar'.

"Pelo contrário, é precisamente em nome da dignidade inalienável da pessoa humana que devemos rejeitar a tentação de provocar a morte sob o pretexto de uma falsa compaixão", declarou. "O que é legal não é necessariamente moral", concluiu o Papa, recebendo aplausos da multidão.

Lourdes se tornou um importante destino de peregrinação após a Igreja Católica reconhecer oficialmente as visões da Virgem Maria, relatadas por uma jovem em 1858.

Hoje, o santuário, situado perto da fronteira com a Espanha, atrai milhões de peregrinos todos os anos, especialmente fiéis doentes e pessoas com deficiência que buscam cura nas famosas águas da fonte da Gruta de Lourdes.

Chegando a Lourdes na noite de sábado, 26, Leão rezou na Gruta das Aparições e bebeu da água da fonte. "Ele trouxe uma mensagem de esperança para a França - uma mensagem de esperança e grandeza e de renovação para a França", contou Pierre Caziljc, um peregrino vindo de Paris.

Durante sua visita, o Papa tem apelado repetidamente por um respeito renovado à vida, em linha com o ensinamento católico de proteção da vida humana desde a concepção até a morte natural, se opondo firmemente ao aborto, à eutanásia e à morte assistida.

Em Lourdes, onde a Igreja reconheceu 72 curas 'milagrosas' como autênticas, a questão do respeito aos mais frágeis, doentes e vulneráveis se torna particularmente premente.

"Suas muletas, suas cadeiras de rodas e suas lágrimas ocultas não são obstáculos; pelo contrário, são o próprio lugar onde vocês são plenamente respeitados e acolhidos", afirmou em sua homilia. "Lourdes é abençoada como um lugar para professar a beleza e a santidade da vida, pois aqui a vida é acolhida como um dom precioso de Deus."

Mais recentemente, Lourdes também se tornou um local de cura para sobreviventes de abuso sexual cometido por membros do clero. Leão se reuniria com sete sobreviventes mais tarde neste domingo, reconhecendo a nova frente da crise de abusos que a Igreja enfrenta.

A Igreja na França tem passado por um doloroso acerto de contas com seu legado de abusos. Um relatório independente de 2021 estimou que 330 mil crianças foram vítimas de abuso ao longo de 70 anos, perpetrado por cerca de 3 mil padres e funcionários da Igreja.

Embora tenha havido críticas à metodologia e às conclusões do relatório, os bispos franceses implementaram um sistema independente de indenização para as vítimas, que, até o momento, recomendou que a Igreja pagasse mais de € 20 milhões (R$ 118,5 milhões).

Durante uma reunião com bispos franceses, Leão elogiou a resposta deles às vítimas e os incentivou a continuar. Porém, também reconheceu que a acentuada queda nas vocações sacerdotais na Igreja francesa está relacionada ao escândalo, visto que o sacerdócio passou a ser, por vezes, visto com desconfiança. "Para que as vocações sacerdotais floresçam, o padre deve ser acolhido, aceito e amado", afirmou.

No dia em que o Papa chegou a Paris, um grupo de vítimas escreveu uma carta aberta pedindo que ele reconhecesse a responsabilidade da Igreja no escândalo, destacando o que críticos consideram um conflito de interesses: bispos atuando tanto como pais espirituais de seus padres quanto como juízes quando estes cometem abusos.

"A Igreja deve abrir mão de sua posição de atuar simultaneamente como juíza e parte nos processos", escreveram as vítimas na carta publicada pelo jornal francês Libération. Elas também criticaram o fato de que apenas sete delas, escolhidas pela Igreja, se reuniriam com Leão.

O monsenhor Pierre-Antoine Bozo, porta-voz da conferência episcopal, declarou que o Papa quis, deliberadamente, manter o grupo reduzido para permitir um encontro mais íntimo. "Quando se trata de ouvi-las, não dá para ter 50 pessoas à sua frente", afirmou. "Então, acho que foi exatamente isso que o Papa escolheu: ouvir para que possamos agir e responder de forma mais eficaz."

Em Lourdes, Leão também foi confrontado com um delicado caso de abuso herdado do Papa Francisco. A fachada de uma das basílicas de Lourdes foi projetada pelo reverendo Marko Rupnik, acusado por mais de duas dezenas de mulheres de abusos psicológicos, espirituais e sexuais desde a década de 1990.

Rupnik é julgado atualmente em um tribunal do Vaticano, e seu caso foi encoberto por três décadas por seus superiores jesuítas. O Papa Francisco chegou a ser suspeito de ter protegido seu colega de ordem. Em resposta à repercussão na mídia, Francisco ordenou um processo canônico em 2024, que está em andamento.

O caso de Rupnik levantou questões sobre o que fazer com seus mosaicos, que adornam basílicas ao redor do mundo. Em 2025, o bispo de Lourdes, Jean-Marc Micas, decidiu cobrir a fachada da Basílica Notre Dame du Rosaire, argumentando que as vítimas que visitam Lourdes em busca de cura não deveriam ser obrigadas a vê-los. No domingo, o Papa passou de papamóvel diante da basílica, circulando pela área e passando pelos painéis de mosaico, agora cobertos por cortinas cor de mostarda fixadas com abraçadeiras de plástico.

Em uma carta enviada ao Papa antes de sua viagem, cinco mulheres que afirmam ter sido abusadas por Rupnik elogiaram a decisão de Micas de cobrir os mosaicos, mas criticaram a forma como o Vaticano conduziu o caso e o tempo que levou para serem ouvidas. "Esse silêncio prolongado e ruidoso foi vivenciado por nós, as vítimas, como uma violência adicional e contínua", escreveram elas.