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Bolsa de grãos do BRICS pode dar ao Brasil mais poder sobre o mercado de commodities?

Influência brasileira no comércio global de grãos em discussão.

Sputnik Brasil 25/09/2026
Bolsa de grãos do BRICS pode dar ao Brasil mais poder sobre o mercado de commodities?
Discussões sobre a Bolsa de Grãos do BRICS e o poder no comércio global de commodities. - Foto: © AP Photo / Andre Penner

Brasil pode ampliar influência no comércio de commodities com uma Bolsa de Grãos do BRICS. O país já participa da formação de preços de produtos como soja, café e açúcar, mas as principais referências internacionais continuam concentradas em grandes bolsas estrangeiras.

O Brasil é o principal produtor global de várias commodities como soja, café, açúcar e suco de laranja, além de estar entre os líderes de diversos outros produtos como milho, cacau e algodão. Apesar disso, a maior parte da negociação de compra e venda desses produtos é feita fora do país, em locais como Estados Unidos e Reino Unido, com os contratos negociados em dólar.

À Sputnik Brasil, o diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Alexis Toríbio Dantas, explica que isso representa uma vulnerabilidade para a economia brasileira, uma vez que a Casa Branca vem utilizando, desde a década de 60 com Cuba, o dólar como arma geopolítica.

Os exemplos mais recentes estão na Rússia e no Irã, que além de sanções comerciais enfrentam sanções financeiras que devem ser seguidas por todo o planeta, sob o risco de serem excluídos do sistema bancário mundial, que dá prioridade à manutenção de ativos no mercado norte-americano.

A questão então se coloca: como sanar esse problema?

Liderar produção é diferente de controlar o mercado

Uma ideia poderia ser contornar os pregões do Norte Global, como a Bolsa de Chicago, o maior ponto de encontro de compradores e vendedores de soja, e realizar as transações dentro do Brasil. Um dos benefícios seria que esses contratos poderiam ser estabelecidos em reais, em vez de dólares.

No entanto, em entrevista à reportagem, Felippe Serigati, coordenador do Mestrado Profissional em Agronegócio do FGVAgro, explica que isso não é tão simples. O Brasil já participa na formação de preço de todas essas commodities — exceto as carnes, que dependem mais de fatores como cortes e peças.

"O que acontece na safra brasileira se reflete no preço na sua praça de referência [...]. O preço da soja em Rondonópolis é igual ao preço da soja lá em Chicago, acrescido de custos logísticos."

Tampouco ser o maior exportador confere ao Brasil primazia na definição de preços. A lei da oferta e demanda é a principal força por trás desse valor. "Se a China decidir que não vai comprar soja, o preço da soja cairá," explica Serigati.

O especialista da FGVAgro afirma que Chicago se tornou a referência de preço dos grãos porque a cidade era o principal ponto de escoamento dos grãos estadunidenses, que se tornaram os maiores produtores à época. Com isso, lá se concentraram compradores, empresas de logística, seguradoras e bancos que financiavam a produção e comercialização.

Em uma menor escala, há São Paulo, centro financeiro do Brasil. Os contratos negociados na capital paulista oferecem certas vantagens ao produtor, pois refletem melhor os padrões de sazonalidade e as necessidades do agricultor, como a possibilidade de precificar diretamente em reais, eliminando o risco cambial, isto é, a eventual desvalorização do dólar ao longo do período de negociação do contrato.

Entretanto, para o produtor brasileiro, isso não representa necessariamente uma vantagem absoluta, dado o imenso volume de Chicago, uma diferença que Serigati considera "brutal". E nisso há um impasse: "Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?"

"Para atrair compradores e vendedores, é preciso ter liquidez; porém, para ter liquidez, primeiro é preciso atrair compradores e vendedores."

Outro aspecto a ser considerado é a liquidez do dólar frente às outras moedas globais. Para os agentes, faz sentido utilizar a moeda norte-americana, que pode ser convertida facilmente em qualquer país.

Uma nova bolsa de grãos é possível?

De acordo com Dantas, da UFRJ, é viável utilizar o poder de barganha do Brasil, como maior produtor, para se tornar menos dependente das regras do sistema financeiro internacional. Contudo, isso demanda uma articulação de Estado, e não de produtores locais descentralizados.

"Isso poderia resultar em uma maior capacidade de controle dos efeitos da exportação desses produtos na economia brasileira."

Uma iniciativa desse tipo já foi proposta e encontra-se em fase inicial de execução: a Bolsa de Grãos do BRICS, projeto que visa dar maior representatividade aos países do Sul Global e conta com Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Indonésia como membros plenos.

A 17ª Cúpula de Líderes do BRICS, realizada no Rio de Janeiro, marcou oficialmente o início das discussões para a criação dessa plataforma. Estimativas do grupo indicam que os membros representam cerca de 26% do comércio global e 40,7% do PIB em paridade de poder de compra (PPC), além de dominar o setor de commodities.

Segundo o economista, essas iniciativas possuem o potencial de reduzir a dependência do dólar como moeda global de troca.

"Isso já ocorre de forma muito rápida entre China e Rússia, e o Brasil pode acelerar esse processo, garantindo um papel mais significativo na geopolítica e no campo geoeconômico."


Por Sputnik Brasil