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Do narcotráfico à defesa da soberania: EUA e México se utilizam como isca

Tensões entre os dois países ressaltam hipocrisia e reações de ambos os lados.

Sputnik Brasil 25/09/2026
Do narcotráfico à defesa da soberania: EUA e México se utilizam como isca
Tensões entre EUA e México refletem hipocrisia e interesses políticos em jogo. - Foto: © AP Photo / Chris Carlson

As tensões entre os EUA e o México têm se intensificado nos últimos meses, centrando-se nas questões de segurança e soberania. A Casa Branca ameaça realizar operações especiais unilaterais no país vizinho para combater o narcotráfico, enquanto o governo mexicano acusa Washington de hipocrisia.

O mais recente atrito entre as nações ocorreu durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), quando o presidente dos EUA, Donald Trump, classificou o Estado mexicano como o "epicentro da violência dos cartéis".

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, afirmou que trabalhos bilaterais estão em andamento para o combate ao crime organizado. Ela respondeu ironicamente às declarações de Washington:

"Eu poderia dizer: 'É muito difícil viver ao lado de um país que tem um nível tão alto de consumo de drogas', ou poderia dizer: 'É muito difícil viver ao lado de um país que tem tanta produção de armas', mas não vou dizê-lo, porque temos boa relação com o presidente e também com o governo dos EUA", respondeu.

O segundo governo de Trump tem sido marcado pela polarização, e suas declarações sobre o México ajudam a manter alinhamento político junto à sua base eleitoral, apontou o doutor em ciência política da Universidade Autônoma do Estado do México, Aldo Muñoz, em entrevista à Sputnik.

"Isso lhe rende muito dentro de seu público [...]. O que se pode considerar o núcleo duro dos seguidores de Trump crê fervorosamente nesse discurso e requer que ele o alimente permanentemente", disse.

Assim, segundo o analista, a veracidade das declarações de Trump a respeito do México perde importância:

"Não importa o quão certo, ou falso, seja. Não importa que tenha provas, ou não, contra os políticos mexicanos. Isso é irrelevante. O relevante é que há um grupo importante de pessoas que precisa ouvi-lo e, por sua vez, que lhes dê elementos para poderem replicá-lo, se tornando caixas de ressonância", explicou.

Doutor em ciência política e acadêmico da Universidade Nacional Autônoma do México, Irwing Rico, afirmou à Sputnik que Trump chegou ao poder com a imagem de "homem forte e do tipo que resolve". No entanto, refletiu o especialista, essa imagem se desfocou, e os republicanos enfrentam um cenário complexo em vista das eleições de novembro deste ano, com a popularidade de Trump em apenas 32%, segundo fontes locais.

"É verdade que apontar constantemente o México e a América Latina, mas particularmente o México, como culpado pelos males do narcotráfico e da segurança responde a um discurso eleitoreiro, que visa reconectar-se com a população", indicou.

De acordo com o analista internacional, apesar das ameaças, os EUA "estão longe de executar uma intervenção aberta em território mexicano", embora pratiquem ingerência velada no país latino-americano há décadas.

'Ao Governo do México ajuda em sua legitimidade'

Sobre o México, Muñoz expressou que a Administração local possui atualmente três pontos fortes que são vantajosos politicamente: os programas sociais, a forma de comunicar e o discurso que defende a soberania, a proteção dos recursos naturais, do território e das fronteiras.

Esse último aspecto, analisou, foi fortalecido pelas declarações do presidente estadunidense, que goza de pouca popularidade no México.

"As ingerências de Trump viram algo positivo para a presidente. Cada ataque ao Governo dela se torna um argumento forte para criticar a oposição [local], que apoia posturas de um Governo estrangeiro", concluiu. "Assim, a maneira como Trump se pronuncia e como a presidente responde a essas provocações realça a imagem enérgica dela perante os mexicanos", completou.