Geral

Brasil tem lobby sionista até mesmo no 'campo progressista', diz Thiago Ávila

Ativista critica influência do lobby no Brasil e defende posicionamento mais ativo do governo.

Sputnik Brasil 24/09/2026
Brasil tem lobby sionista até mesmo no 'campo progressista', diz Thiago Ávila
Thiago Ávila fala sobre a influência do lobby sionista em setores progressistas do Brasil. - Foto: © Guilherme Côrrea/Sputnik Brasil

Ativista e candidato a deputado federal Thiago Ávila (Rede-SP) afirmou à Sputnik Brasil nesta quinta-feira (24) que a atuação do "lobby sionista" no Brasil ultrapassa a extrema-direita e atinge também setores "progressistas".

Questionado sobre o projeto de lei da deputada federal Tábata Amaral (PSB-SP) a respeito da classificação do antissemitismo no Brasil, ele entende que o texto adota premissas formuladas por organizações do próprio lobby para criminalizar e silenciar quem se manifesta contra a atuação de Israel. "Ela faz isso não por vontade pessoal, sinceramente, eu acredito que é muito mais de interesse eleitoral e de financiamento."

"Esse setor que aderiu ao bloco progressista faz parte da frente ampla, se diz de frente ampla, […] mas ainda reproduzem os interesses do seu bloco de classe."

Para ele, o lobby sionista opera através de instituições como a Confederação Israelita do Brasil (CONIB), a StandWithUs e a Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein/Hebraica. Ávila pontua que tais entidades atuam na promoção de lawfare, intimidações judiciais, ameaças a militantes e tentativas sistemáticas de silenciar a imprensa independente.

Por exemplo, a narrativa sobre os hospitais em Gaza, que apresenta a ideia de que há bombas, terroristas e túneis, é um dos vários exemplos de tentativa de construção de uma realidade que visa mascarar crimes cometidos pelas Forças de Defesa de Israel (FDI), segundo ele.

Ávila avalia que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é reconhecido em Gaza como uma liderança que se posiciona pró-Palestina e que isso pressionou líderes mundiais a se posicionarem.

No entanto, ele defende que o governo precisa ir além do discurso diplomático e cortar acordos militares e comerciais, como os de compras de software de espionagem.

O problema se aprofunda nos governos estaduais, diz ele, como na gestão paulista de Tarcísio de Freitas (Republicanos), que busca reeleição este ano. "Tem US$ 37 milhões em acordos com a indústria militar israelense que testa seus equipamentos sobre corpos palestinos e por isso vende mais caro os fuzis, porque vem com selo de testados em campo."

"A Polícia Militar de Tarcísio mata uma pessoa a cada 13 horas utilizando fuzis, treinamento e doutrina militar israelense."

Invasão externa

Para Ávila, o Brasil está em um "contexto de tentativa de tomada imperialista e sionista", devido ao interesse dos Estados Unidos nos minerais críticos brasileiros, petróleo e outros recursos naturais. Ele afirma que o país é "suscetível" a ataques devido à "pouca capacidade militar de dissuasão" e "uma burguesia interna completamente entreguista e submissa".

"A invasão do Líbano, bombardeio da Síria, do Iraque, do Iêmen, do Irã, bombardeio e sequestro do presidente na Venezuela, a intensificação do bloqueio naval contra Cuba, interferências diretas em eleições em Honduras, no Chile, na Colômbia, é um processo que coloca o Brasil, de fato, muito vulnerável."

Mesmo criticando a chamada "eleição liberal burguesa", Ávila entende que, neste momento, é importante aderir à coalizão de Lula para barrar o imperialismo e sionismo "de tomar nosso país". "O militante mais revolucionário do mundo no nosso país neste momento precisa fazer uma análise concreta, que o nosso país está sob tentativa de tomada da maior, mais perigosa, mais destrutiva força imperial do mundo e da história", afirmou.

Ávila foi convidado por vários partidos para as eleições de 2026, mas aceitou a proposta da Rede Sustentabilidade, partido de Marina Silva, por, segundo ele, permitir seus ideais antiimperialistas e viabilizar a candidatura. Ele também elogiou a forma como a legenda o abordou para que se filiasse antes do prazo eleitoral, para não se arrepender de não participar do processo democrático. "Uma campanha estruturada financeiramente como uma prioridade nacional da Rede."

"Lidar com o governo é igual cozinhar feijão, só funciona sob pressão. E nós temos que pressionar qualquer governo a isso. Não ser o parlamentar comportadinho que vai apresentar projeto de lei e ele simplesmente ser recusado por uma maioria de senso comum conservador, mas ajudar a gente no processo de levante", disse, citando o fim da escala 6 por 1 como exemplo.

Adesivo sobre placa de Israel em SP

Ávila foi alvo de notícia-crime apresentada ao Ministério Público pelo deputado estadual Guto Zacarias (PL-SP), após colar um adesivo com slogan pró-Palestina sobre a placa da rua Estado de Israel, na zona sul de São Paulo, nos últimos dias.

Zacarias alegou que a expressão "Do Rio ao Mar" defende a eliminação do Estado de Israel e, por ter sido colada em região com forte presença da comunidade judaica na cidade, e na ocasião do Yom Kippur, configuraria preconceito por procedência nacional ou religião. Juridicamente, o Supremo Tribunal Federal (STF) enquadra o antissemitismo no conceito de racismo.

À Sputnik Brasil, Ávila afirma que a rua carrega "o nome de um Estado que comete genocídio e que viola completamente o direito internacional", mencionando que crianças são assassinadas na Faixa de Gaza, seja por ações militares diretas ou pela fome.

"Gerou muita choradeira por conta de um adesivo. Os sionistas choram por um adesivo, mas não choram pelas mais de 20 mil crianças mortas por Israel em Gaza. Choram por um adesivo, mas não choram pelas mais de 10 mil crianças amputadas sem anestesia em Gaza. Choram por um adesivo, mas não choram por toda a juventude que está morrendo aqui, vítimas dos incêndios do El Niño ou por todas as pessoas que chegam em casa à noite e não têm água pela privatização da água."

O ativista explicou que a ação foi feita "como parte de um processo coletivo da Marcha pelo Clima", uma frente de luta popular que contou com apoio e participação de outros manifestantes. Ele também reforçou que não teve relação com a data judaica, que ocorreu "horas após nossa ação", e que se tratou apenas de um protesto, feito com adesivo.

"Estou disposto a fazer qualquer ação e em qualquer tática, em qualquer nível de risco, se for para avançar na construção de uma sociedade nova. Uma sociedade onde a minha filha, de dois anos e oito meses, a Teresa, não tenha que viver sob bombas, sob apartheids, viver sob genocídio, e não só a minha filha, mas todas as crianças, porque as crianças de Gaza, os pais e as mães deles amam aquelas crianças tanto quanto eu amo a minha", completou.

Ávila disse que, se necessário, participaria novamente de flotilhas como a de outubro de 2025, caso as organizações das quais faz parte entendam que seja preciso. "Não tenho medo de ser assassinado por isso. Eu considero que as flotilhas são um exemplo de ação direta não violenta com um imenso potencial transformador de conscientização."

"O fato de ser parlamentar não muda absolutamente nada a minha disposição de seguir subindo em tratores, impedindo despejos ilegais, indo para marchas, indo para flotilhas e desafiando os impérios destrutivos e odiosos do nosso tempo."


Por Sputnik Brasil