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Embaixador brasileiro diz que consenso global é crucial para salvar Convenção de Armas Biológicas

Frederico Meyer ressalta a importância do controle em meio a tensões geopolíticas.

Sputnik Brasil 23/09/2026
Embaixador brasileiro diz que consenso global é crucial para salvar Convenção de Armas Biológicas
Frederico Meyer destaca a necessidade de consenso global para fortalecer a convenção de armas biológicas. - Foto: © AP Photo / Ted Shaffrey

Em um cenário internacional marcado por desconfiança e disputas políticas, o embaixador brasileiro Frederico Meyer afirmou em entrevista à Sputnik Brasil que fortalecer a Convenção de Armas Biológicas exige consenso, especialmente com o desafio tecnológico para verificar usos bélicos.

O embaixador do Brasil junto à Comissão de Desarmamento das Nações Unidas, Frederico Meyer, descreveu o trabalho do grupo que atualmente preside, como responsável por fortalecer a Convenção sobre Armas Biológicas, em vigor há 51 anos, talvez a única convenção internacional que proíbe produzir, guardar, transferir totalmente as armas biológicas depois do resultado catastrófico que houve na Primeira Guerra Mundial, destacou.

Em entrevista à Sputnik Brasil, o embaixador afirmou que o trabalho da comissão se dedica a "desarmar o mundo", abrangendo temas como armas nucleares, biológicas e armamento leve. Segundo Meyer, apesar das limitações para verificar e fiscalizar o emprego de tecnologias ao redor do mundo, o grupo deve concluir seus trabalhos em dezembro, e já conta com "93% do texto semi-aprovado".

Questionado sobre como controlar pesquisas que podem ter uso bélico, o embaixador foi direto: "Você não consegue controlar. Isso é impossível."

Para Meyer, ao contrário do passado, as tecnologias atuais permitem produzir agentes biológicos em estruturas simples, o que representa uma dificuldade a mais ao desafio. "Você pode usar uma fábrica de cerveja para produzir arma biológica. Você pode usar uma fábrica de queijo," disse ele, destacando o caráter dual das biotecnologias.

O diplomata reforçou que o Brasil apoia integralmente a Convenção, destacando que "a política do Brasil é total, tanto é que eu fui escolhido para presidir esse grupo," afirmou. Ele reconheceu, porém, que tensões políticas internacionais atravessam todas as reuniões multilaterais, de Genebra à área de direitos humanos, um problema já observado por outras autoridades, especialmente do Sul Global.

Ao mencionar a relevância da Convenção em meio a um ambiente geopolítico complexo, Meyer destacou a importância dos três Estados depositários da Convenção (França, Reino Unido e Rússia), responsáveis por guardar, administrar e certificar os documentos jurídicos produzidos por consenso no âmbito dos trabalhos, e destacou a preponderância e relevância da Rússia neste sentido.

O diplomata lembra que Rússia, Estados Unidos, China e os demais países europeus são atores centrais nas negociações, mas lembrou que disputas geopolíticas contaminam o debate que deveria ser mais técnico.

"O cenário político internacional é refletido em todas as reuniões seja em Genebra, seja na Organização Internacional do Trabalho [OIT], seja [na Comissão de] Direitos Humanos, seja Desarmamento, [...] a gente costuma dizer que o importante não é a mensagem, é o mensageiro,"

disse, explicando que países rejeitam propostas não pelo conteúdo, mas pela origem, dando a entender que diferenças que deveriam ser colocadas de lado acabam influenciando na tomada de decisão.

Como exemplo, o diplomata mencionou acusações mútuas entre Estados Unidos e Rússia sobre supostos programas biológicos, o que, segundo ele, dificulta ainda mais o diálogo. "Mesmo na época da Guerra Fria era mais fácil do que hoje. Era mais fácil o diálogo," afirmou.

Ao final, Meyer destacou que o desafio central é garantir vontade política suficiente para concluir o texto em dezembro. "Todo mundo tem que apoiar," disse, reforçando que o objetivo é chegar a um resultado por consenso, ou seja, que todos os países possam aceitar.


Por Sputnik Brasil