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Interesses difusos: o que querem Milei e Trump ao cooptar as Malvinas a seus discursos políticos?

Análise sobre a retórica de Milei e Trump em relação às Malvinas e suas implicações diplomáticas.

Sputnik Brasil 22/09/2026
Interesses difusos: o que querem Milei e Trump ao cooptar as Malvinas a seus discursos políticos?
Análise sobre as implicações políticas de Milei e Trump em relação às Malvinas. - Foto: © AP Photo / Evan Vucci

Com a popularidade pressionada e as eleições se aproximando, Javier Milei endurece o discurso sobre as Malvinas, uma das poucas causas capazes de produzir consenso na Argentina. Para isso, conta com acenos do presidente dos EUA, Donald Trump, que aparenta ter interesses difusos.

Após uma virada histórica sobre a seleção inglesa na semifinal da Copa do Mundo de futebol masculino, em julho deste ano, jogadores argentinos comemoraram a classificação à final — que, em seguida, vieram a perder para a Espanha — empunhando uma faixa com os seguintes dizeres: "As Malvinas são argentinas".

Em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Matheus de Oliveira, professor de relações internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), explicou que a "disputa em torno da soberania das Malvinas é um dos elementos mais importantes, talvez o mais central na formação da identidade internacional da Argentina".

Quando os jogadores se manifestaram desta forma, o presidente argentino talvez não tenha colocado o custo político doméstico em questão e afirmou que "a política não deve se apropriar do futebol e da festa dos argentinos", em um posicionamento contrário ao movimento dos atletas.

A situação, entretanto, tomou outros rumos dois meses depois desta declaração. As motivações não vieram de dentro da própria Argentina, mas de discursos proferidos dos EUA, mais especificamente do presidente norte-americano. Em um gesto de retaliação ao governo britânico pela decisão de não apoiar a guerra dos EUA no Irã, restringindo o uso de suas bases por tropas de Washington, Trump sinalizou que poderia abandonar a neutralidade adotada pelos EUA desde 1982.

Consequentemente, Milei adota uma ofensiva diplomática que reacende um assunto que há mais de 30 anos não é tratado pelo viés militar. Desde a Constituição de 1994, foi estabelecido que as Malvinas são uma causa perpétua e irrenunciável do Estado argentino e que elas serão buscadas exclusivamente por meios pacíficos.

"Nos últimos meses a gente tem visto essa escalada alimentada pela retórica do Trump, mais uma vez tentando usar o apoio norte-americano ao Reino Unido nas Malvinas como uma forma de pressionar o governo em Londres para fazer o que o Trump quer", avalia Oliveira.

De acordo com o especialista, a discussão em torno das Malvinas dificilmente gerará oposição quanto à recuperação do arquipélago, mas algo efetivo feito pelos Estados Unidos nesta situação é visto como difícil. "Tenho muita dificuldade de ver isso além da bravata", pondera.

Conforme explica, os Estados Unidos teriam dificuldades de explicar à própria opinião pública e seus cidadãos um engajamento militar no Atlântico Sul por uma suposta desobediência do governo britânico ao presidente Trump no que diz respeito ao conflito iraniano.

Sobre as declarações, "há uma carga simbólica importante, isso preenche o noticiário, ocupa a nossa atenção, mas eu acho que muda pouco do ponto de vista da posição da Argentina perante o Reino Unido em torno da questão das ilhas", completa.

Na avaliação de Juan Agulló, professor e pesquisador de economia, sociedade e política da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), a reviravolta dada por Milei tem "um ponto de oportunismo", tanto que foi cobrado pela oposição. Mas Trump também faz seu jogo ao dar declarações polêmicas para descobrir o que pode ganhar. Neste caso, segundo o analista, após a fala do líder norte-americano, a posição britânica enfraquece, com isso ele pode aproveitar, por exemplo, "a exploração de petróleo" ou a própria "posição estratégica das Malvinas".

Além disso, o especialista aponta que outros interesses dos Estados Unidos podem estar indexados neste contexto, como a Antártica — cuja as Malvinas são a porta de entrada — e o estreito de Magalhães, que permite a conexão entre Atlântico Sul e o Pacífico.

É importante ressaltar que Milei prometeu a construção de uma base naval na Terra do Fogo, o que pode significar tropas norte-americanas no Atlântico Sul. "Seria uma possibilidade lógica pela aliança que o Javier Milei está tentando estabelecer", acrescenta.

Agulló relembra que movimentos de presença militar norte-americana no continente vêm acontecendo recentemente, como o acordo assinado entre EUA e Colômbia que permite ações militares conjuntas e integra Bogotá ao "Escudo das Américas", além da construção de uma base militar de Washington em El Callao, no Peru.

"A gente precisa considerar o contexto", destaca, incluindo neste mote o enfraquecimento do Reino Unido enquanto potência mundial pós-Brexit. Nessa lógica, Trump usa a posição assimétrica dos EUA em relação a Londres e Buenos Aires para tentar obter algum ganho. Ao fim e ao cabo, conforme os analistas, o cenário mostra um Trump articulista e agindo em prol dos interesses que considera convenientes aos Estados Unidos.