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Analistas avaliam que BRICS é um espaço de coexistência onde a cooperação é priorizada

Grupo atua na diplomacia do 'encapsulamento de crises', segundo especialistas

Sputnik Brasil 21/09/2026
Analistas avaliam que BRICS é um espaço de coexistência onde a cooperação é priorizada
Analistas comentam o papel do BRICS como espaço de cooperação entre países com diferenças históricas. - Foto: © Sputnik / POOL / Acessar o banco de imagens

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas destacam que o BRICS atua na diplomacia do "encapsulamento de crises", promovendo o diálogo entre rivais de longa data, como China e Índia, na busca de interesses comuns.

A atuação do BRICS como um polo de articulação do Sul Global ultrapassa a mera cooperação econômica entre seus membros. O grupo também serve como um espaço para que países com disputas históricas, como Irã e Arábia Saudita, possam sentar-se e discutir questões como segurança, conflitos e governança global.

Em entrevista ao podcast Mundioka, Marianna Albuquerque, professora do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), argumenta que não é correto descrever o BRICS apenas como um mecanismo econômico. Desde sua criação, o BRICS tem se baseado em três pilares: política e segurança; economia e finanças; e cooperação cultural e interpessoal.

"Cada país membro enxerga nesses pilares uma forma de levar adiante seus interesses [...] não há problema, na visão dos membros do BRICS, se a China, o Brasil, a Índia e o Irã olham para o bloco com intenções diferentes. Esse amálgama de interesses nacionais é essencial para buscarmos um consenso que respeite as diferentes posições de cada país", afirma.

Segundo Albuquerque, a declaração assinada na recente cúpula em Nova Deli destaca o papel do grupo na diplomacia e na mediação, além de incentivar a cooperação através de operações multilaterais das Nações Unidas (ONU), criando oportunidades para que países como Irã e Emirados Árabes Unidos, que estão em conflito, possam negociar.

"Esse, para mim, é um dos principais pontos-chave do BRICS: a possibilidade de que países membros vejam o bloco como um espaço para praticar o que chamamos de diplomacia do encapsulamento de crises."

Ela ressalta que o valor do grupo não está em resolver as rivalidades, mas em garantir que elas não impeçam a cooperação, respeitando as posições nacionais de cada membro.

"Os membros conseguem formular algumas posições coletivas, como a proteção de civis, a soberania, a integridade territorial, e a busca do entendimento por meio do diálogo. A heterogeneidade e as diferenças são incorporadas no funcionamento do grupo", diz.

Uma das conquistas geopolíticas indiretas do BRICS é reunir anualmente China e Índia, duas potências fundadoras do bloco que tradicionalmente possuem uma relação de rivalidade.

"O primeiro-ministro indiano Narendra Modi e o líder chinês Xi Jinping se encontram todos os anos, o que é significativo para países com questões fronteiriças e diplomáticas desde o pós-Segunda Guerra Mundial. Esse encontro não deve ser subestimado", ressalta.

No entanto, Albuquerque adverte que a cooperação entre os dois países vai além do BRICS, uma vez que também participam de outros fóruns, como a Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), que se reúne anualmente. Para ela, o BRICS deve ser "um espaço de coexistência" entre seus membros.

"É uma forma de criar canais para a difusão de interesses, o compartilhamento de projetos e a construção de confiança, sempre respeitando as diferenças entre os países", conclui.

Isabela Rocha, pesquisadora do Instituto de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Brasília (Ipol/UnB) e presidente do Fórum para Tecnologia Estratégica do BRICS+, observa que o perfil dos indivíduos que participam do BRICS é bem diferente do que se vê na ONU.

"No BRICS, há uma maior flexibilidade e tentativas de estabelecer caminhos através da sociedade civil e do comércio, ao passo que na ONU a política é mais rígida", afirma.

Rocha também destaca que, apesar das diferenças entre os países do BRICS, o que os une é que todos estão na "periferia do arranjo capitalista global". O objetivo do grupo, segundo ela, é construir uma nova ordem multipolar, para a qual são necessários acordos vinculantes e mecanismos de transação econômica que envolvam a sociedade.

"Para que o BRICS se torne a instituição que almejamos, precisamos de instrumentos jurídicos e econômicos eficazes e vinculantes."


Por Sputnik Brasil