Geral

iFood anuncia investimento recorde de R$ 24 bilhões em meio a disputas na justiça e no Cade

Cenário é positivo apesar de embates com concorrentes e desafios legais

Estadao Conteudo 16/09/2026
iFood anuncia investimento recorde de R$ 24 bilhões em meio a disputas na justiça e no Cade
Ifood - Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

O iFood anunciou, nesta quarta-feira (16), que destinará R$ 24 bilhões em investimentos no ano fiscal de abril de 2026 a março de 2027, representando um crescimento de 41% em relação ao ciclo anterior. O anúncio ocorrerá durante o iFood Move 2026, evento voltado para restaurantes, varejo e conveniência, que acontece entre hoje, 16, e amanhã, 17, em São Paulo.

Os investimentos se concentrarão em quatro frentes: fortalecimento dos restaurantes; impulsionamento de novas categorias como farmácias, supermercados, lojas de conveniência e pet shops; desenvolvimento de tecnologia própria; e soluções além do delivery, com foco na integração da experiência online e offline do cliente, incluindo a gestão do salão do restaurante, como o iFood Pago, uma fintech destinada a impulsionar negócios no setor de alimentação.

O anúncio da empresa brasileira, que completa 15 anos de operação em 2026, ocorre em um contexto de embates entre plataformas de delivery de refeições na Justiça e no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), exacerbados pela reentrada da 99Food e pela chegada da Keeta no país desde 2025.

O CEO do iFood, Diego Barreto, afirmou ao Broadcast que há um padrão no volume de crescimento dos investimentos da empresa ano a ano. Em comparação com os 12 meses anteriores, observou-se um aumento na retenção na plataforma, no clube do programa de fidelidade e no número de usuários mensais. Para ele, o mercado no Brasil ainda não está maduro, e a empresa não se vê como dominante, mas como líder. "É uma liderança que se mantém em patamares parecidos com o que era antes. Existem dois fatores: o enfraquecimento de outros players que eram presentes e o crescimento do mercado", avaliou.

Barreto considera que o cenário da empresa é positivo e, apesar de desafios operacionais, vive os melhores números operacionais de sua história.

Sobre o processo de expansão do marketplace, iniciado há três anos, o CEO afirmou que os resultados das entregas de farmácias e mercados foram expressivos. "Estamos dobrando a aposta nesses dois segmentos. Já somos líderes digitais neles e queremos acelerar ainda mais esse processo." Nos últimos oito meses, também foram testados pedidos de conveniência, pet shops e itens presenteáveis, com resultados relevantes.

Segundo ele, o hábito dos consumidores de digitalizar suas compras vai além das refeições, o que tem impulsionado o iFood. "Há uma lógica de lealdade e fidelidade. As pessoas se acostumam cada vez mais com o canal, que é um ambiente poderoso na sua rotina. Por isso, estamos fazendo esse movimento." Neste ciclo, serão investidos R$ 10 bilhões em entregas de restaurantes e essas novas verticais. Para o iFood Pago, o investimento previsto é de cerca de R$ 5 bilhões.

Outras frentes de atuação

A empresa também está apostando em soluções como o iFood Turbo, que visa atender à demanda por entregas rápidas com logística otimizada nas grandes cidades.

Os investimentos em tecnologia e inovação ultrapassarão R$ 2 bilhões, incluindo a evolução de agentes de inteligência artificial e o Large Commerce Model (LCM), um modelo de IA generativa desenvolvido pelo iFood em parceria com a Prosus para comércio e delivery. A IA aprenderá com cliques, buscas, compras, cancelamentos e avaliações dos usuários para interpretar a intenção de compra, gerando notificações e recomendações mais precisas.

A empresa também está ampliando o acesso a crédito pelo iFood Pago, voltado a pequenos e médios negócios, que representam mais de 70% da base de parceiros e historicamente enfrentam dificuldades de acesso ao sistema bancário tradicional.

Com o aumento de pedidos na plataforma, a previsão é de um crescimento de quase 20% no volume total de renda gerada para entregadores, com mais da metade desse valor sendo um aporte direto do iFood. Além disso, a empresa continuará investindo em ações de impacto social, como o programa Meu Diploma do Ensino Médio. "Entendemos sua importância para a evolução educacional dos entregadores. Hoje, somos o maior formador do ensino médio no Brasil após a idade adequada", afirmou Barreto. Segundo ele, 7 mil empregadores se formam por meio dos programas financiados pela empresa. A rede de pontos de apoio instalada nas cidades para descanso dos profissionais — com banheiros, bebedouros, tomadas para carregar o celular, internet e áreas de refeição — cresceu 90%.

Embates

No ano passado, o iFood processou a concorrente 99Food por práticas de concorrência desleal e publicidade comparativa ilícita, em função de campanhas publicitárias associadas ao relançamento da operação em 2025. Em maio deste ano, a 1ª Vara Empresarial e Conflitos de Arbitragem da Justiça de São Paulo condenou a 99Food, que anunciou que irá recorrer da decisão, afirmando ser "uma alternativa real para consumidores, entregadores e restaurantes".

Três anos atrás, o iFood firmou um acordo com o Cade que permanecerá vigente até meados de 2027, visando remediar os efeitos de supostas infrações concorrenciais no mercado nacional de entregas de refeições, por meio de compromissos de exclusividade com restaurantes parceiros, que supostamente resultaram em fechamento de mercado e aumento de barreiras à entrada.

No final de agosto de 2026, o iFood apresentou uma representação ao Cade solicitando a abertura de processo administrativo contra a Keeta, plataforma de delivery controlada pela chinesa Meituan, alegando práticas predatórias no mercado brasileiro. De acordo com o iFood, a Keeta opera com lucro negativo por pedido no Brasil, subsidiando artificialmente sua operação com capital da matriz chinesa para conquistar mercado e eliminar concorrentes. A Keeta respondeu afirmando que a ação do iFood é uma 'clara estratégia monopolista' para desviar a atenção das autoridades da investigação à qual foram alvo, descumprindo o acordo com o Cade referente às exclusividades que prejudicam o mercado. A empresa também argumenta que o iFood detém o monopólio do mercado brasileiro e está presente em milhares de cidades.

Atualmente, o iFood conecta 65 milhões de consumidores a 500 mil estabelecimentos em 2.800 cidades, realizando mais de 180 milhões de pedidos por mês e contando com 600 mil entregadores parceiros.