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Após 25 anos do 11 de setembro de 2001, o que mudou no tabuleiro da geopolítica?

Sputnik Brasil 11/09/2026
Após 25 anos do 11 de setembro de 2001, o que mudou no tabuleiro da geopolítica?
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Os atentados do 11 de setembro mudaram os rumos da geopolítica global. Após 25 anos dos ataques às Torres Gêmeas em Nova York, que mataram mais de 3 mil pessoas, analistas ouvidos pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, comentam as principais mudanças que se sucederam até aqui.

Algumas mudanças profundas no cenário global ocorreram a partir daquele fatídico dia, apontaram os especialistas. A principal delas, na visão do professor de relações internacionais do IBMEC, Márcio Sette Fortes, foi a transição da antiga ordem mundial unipolar para um mundo multipolar, ainda "que fragmentado".

"O que nós temos hoje é a ascensão de potências consideradas rivais pelos Estados Unidos, como a China e a Rússia. Então, ao mesmo tempo, um certo desgaste da hegemonia norte-americana, com custos muito altos de guerra que foram empreendidos ao longo desses anos todos."

Já o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Goulart de Menezes, destaca outro aspecto: o aumento substantivo do gasto em defesa empreendido pelos Estados Unidos a partir daquele momento.

"O 11 de setembro significou um aumento da percepção, me parece, das ameaças no mundo que os Estados Unidos consideram da sua presença no mundo."

O que se viu, de lá para cá, foi o início de uma incursão da Casa Branca no Oriente Médio, o que ficou conhecido como guerra ao terror. Incursões foram efetuadas no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, além de ataques contra a Síria e a própria Palestina. Todas, feitas por Washington a partir do 11 de setembro, foram para justificar sua defesa pelos ataques sofridos naquele dia.

A partir daí, segundo Sette Fortes, os EUA passaram a adotar o que ficou conceituado como guerra preventiva, ou seja, lançam mão do direito de atacar antes que sejam atacados. O que se passa na sequência é a invasão ao Afeganistão, iniciada como uma caça a Osama Bin Laden, que durou cerca de 20 anos.

Outro caso emblemático foi a associação feita por Washington do Iraque com o homem acusado de coordenar os ataques ao território norte-americano. Além disso, havia acusações de que Bagdá desenvolvia armas de destruição em massa. "A partir de fevereiro de 2003, os Estados Unidos trabalharam nas Nações Unidas, no Conselho de Segurança da ONU, para tentar vincular o Saddam Hussein ao 11 de setembro", relembra Menezes.

Para levar a incursão à frente, os Estados Unidos precisaram mexer no organograma institucional e remover peças que diziam o contrário das acusações dos EUA. Um deles, o brasileiro José Bustani, então diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ). Anos depois, ficou provado que de fato o Iraque não desenvolvia armas de tal calibre.

Ao fim e ao cabo, todo esse grande avanço militar dos EUA no Oriente Médio deixou um legado de expansão militar na região.

"As bases norte-americanas acabam sendo expandidas para termos ali um conceito mais arraigado de vigilância global", comenta o professor do IBMEC.

Outro apontamento feito pelo especialista em relação ao pós-11 de setembro é que, desde então, há uma "normalização doutrinária", ou seja, "o conceito de eliminar alvos em territórios estrangeiros sem declarar uma guerra formal foi totalmente normalizado pelas superpotências".

Mudanças também ocorreram dentro dos EUA

Desde o 11 de setembro, os Estados Unidos redobraram seu esquema de segurança interno e passaram a agir no cenário internacional de forma mais "unilateral", atesta Menezes.

No âmbito doméstico, os serviços de checagem nos aeroportos e controle de imigração, que eram até então terceirizados, voltaram a ser estatizados. Além disso, o reforço do imaginário do árabe como inimigo ou perigoso ficou cada vez mais sedimentado na sociedade norte-americana.

"Os Estados Unidos seguem reforçando esse imaginário, ainda no cinema, quando a gente vê aviões que são sequestrados e os sequestradores são árabes, navios que são sequestrados e os sequestradores são árabes. Então, [eles são] vistos como essa ameaça ao estilo de vida, ao 'mundo ocidental', mas que nós sabemos que é derivada de racismo e de xenofobia", comenta Menezes.

Um exemplo clássico desse episódio ocorreu recentemente, no governo do presidente Donald Trump. Durante a Copa do Mundo, atletas de países africanos, do Irã e do Iraque passaram por revistas severas no aeroporto, com jogadores e funcionários passando horas junto ao serviço de migração respondendo perguntas. Entre os casos mais emblemáticos que marcaram negativamente o torneio está a proibição do governo norte-americano ao árbitro somali Omar Atan, que foi impedido de trabalhar na competição.

Ao mesmo tempo, Sette Fortes comenta que já há um desgaste interno da população norte-americana com guerras que duram mais do que esperado. A demonstração desse cansaço foi vista na pesquisa Reuters/Ipsos, publicada no final de agosto, que revelou que quatro a cada cinco norte-americanos acreditam que o conflito no Irã se prolongará. Consequência disso, o levantamento mostra que 63% dos entrevistados desaprovam a condução do presidente Donald Trump da situação com Teerã. Além disso, o índice de rejeição do chefe da Casa Branca é de 62%.

Ao ser questionado se o ciclo geopolítico aberto em 2001 chegou ao fim, Menezes responde que sim, embora algumas marcas ainda estejam latentes.

"Creio que já chegou ao fim, porque nós tivemos depois a crise de 2008. Então, tendo os Estados Unidos como epicentro, eles não conseguiram, inclusive, por conta disso, manter os altos gastos na defesa. Também a sociedade, parte da sociedade nos Estados Unidos passou a questionar, dizendo: onde está a ameaça?"


Por Sputinik Brasil