Geral
A nova postura do governo Milei em relação às Malvinas
Endurecimento das sanções e a criação do Conselho de Segurança Nacional
O presidente da Argentina, Javier Milei, anunciou recentemente a criação de um Conselho de Segurança Nacional e de uma base naval na Terra do Fogo, após sinalizar uma possível mudança na postura de Donald Trump em relação ao Reino Unido.
Milei também comunicou o endurecimento das sanções contra empresas petrolíferas que operem sem autorização nas Ilhas Malvinas, levando o Reino Unido a reagir rapidamente ao discurso do presidente argentino.
Em mensagem transmitida em cadeia nacional e acompanhada por todo o seu gabinete, o presidente argentino formalizou a assinatura de um decreto para acelerar os procedimentos de sanção previstos na Lei 26.659 contra empresas, acionistas, diretores e fornecedores envolvidos na extração de hidrocarbonetos em território sob ocupação britânica sem autorização da Argentina.
O projeto Sea Lion, promovido pela Navitas (israelense) e Rockhopper (britânica), está sendo desenvolvido na Bacia Norte das Malvinas e prevê a extração de petróleo em uma área que a Argentina considera parte de sua plataforma continental. O governo argentino argumenta que se trata da exploração de um recurso natural não renovável que pertence ao país, classificando a situação como inédita.
O decreto anunciado impede as operações em território argentino das empresas envolvidas, direta ou indiretamente, em projetos não autorizados nas ilhas. Ele prevê a possibilidade de julgamento à revelia das empresas e de seus fornecedores, e determina que órgãos do Estado encaminhem à Chancelaria casos de descumprimento legal identificados.
Além do endurecimento das sanções, o governo argentino enviará ao Congresso um projeto de lei de defesa da soberania nacional que propõe a criação de um Conselho de Segurança Nacional, dotado de poderes para agir economicamente e diplomaticamente contra elementos estatais ou não estatais que Buenos Aires considere ameaças.
Outro ponto central da mensagem presidencial foi a ampliação dos recursos do Ministério da Defesa para avançar na construção de uma Base Naval Integrada na Terra do Fogo, visando transformar a Argentina em um polo logístico do Atlântico Sul.
O presidente lembrou que, há 50 anos, as Nações Unidas pedem à Argentina e ao Reino Unido que evitem ações unilaterais sobre o arquipélago enquanto a disputa de soberania não for resolvida, incluindo a exploração de recursos naturais. Segundo Milei, o Reino Unido descumpriu esse apelo ao avançar com o projeto petrolífero sem autorização da Argentina.
Milei relacionou o momento do anúncio com declarações de seu homólogo estadunidense, Donald Trump, que na semana passada sugeriu uma possível revisão da posição de neutralidade de Washington na disputa pela soberania entre Argentina e Reino Unido, o que Milei chamou de "ventos de mudança favoráveis" à reivindicação argentina.
Em resposta, o Reino Unido se manifestou poucas horas depois, através de seus ministros da Defesa e das Relações Exteriores, reafirmando o compromisso "absoluto e inabalável" com as ilhas, citando um referendo de 2013 em que 99,8% dos habitantes do arquipélago se pronunciaram a favor da continuidade sob soberania britânica.
Essa votação é contestada por Buenos Aires, que argumenta que, por se tratar de uma população implantada, não deve prevalecer o princípio da autodeterminação dos povos.
O discurso representa uma mudança em relação a declarações anteriores do presidente Milei sobre o caminho para recuperar as ilhas. A nova posição contrasta com a declaração feita em 2 de abril de 2025, quando ele afirmou:
"Desejamos que os malvinenses decidam, algum dia, votar em nós com os pés. Por isso, buscamos ser uma potência, a ponto de eles preferirem ser argentinos, sem que seja necessário recorrer à dissuasão ou ao convencimento para conseguir isso."
Mudança no discurso
Em entrevista à Sputnik, o analista internacional Héctor Bernardo relacionou a mensagem à necessidade de melhorar a imagem do presidente, que, segundo pesquisas, está em declínio devido à economia e à inflação sem recuperação salarial.
"Parece ser uma superexposição do presidente, considerando o sentimento social que se intensificou após a Copa do Mundo, especialmente com a manifestação dos jogadores da seleção em defesa da reivindicação das Malvinas, que repercutiu na sociedade. "
O especialista acrescentou que Milei nunca demonstrou um caráter nacionalista: "pelo contrário, sua posição geralmente carrega a ideia de que os habitantes das ilhas têm direito à autodeterminação".
O cientista político Julio Burdman classificou a mensagem presidencial como o discurso mais "malvinista" de um presidente, apontando:
"É uma mudança clara para um governo que, até agora, não se caracterizava pela defesa da soberania sobre as ilhas [...] Para o governo, estamos diante de uma possibilidade concreta de mudança em relação à questão das Malvinas pela primeira vez desde a guerra de 1982."
Argentina, peça-chave do Atlântico Sul?
"As ações têm mais a ver com os interesses dos Estados Unidos, que mostram tensões com o Reino Unido devido a disputas internas na OTAN, particularmente entre globalistas e continentalistas", opinou Bernardo.
O analista detalhou que, antes do anúncio, Milei se encontrou no Chile com seu homólogo José Antonio Kast para reconhecer a soberania daquele país sobre o estreito de Magalhães e com a subsecretária de Estado dos Estados Unidos, que "efetivamente deu a ele as diretrizes para esse anúncio".
Ele comparou a iniciativa com outros movimentos de Washington sobre passagens interoceânicas estratégicas, como o controle do Canal do Panamá e a disputa pela Groenlândia, destacando que uma base no Estreito de Magalhães "projeta-se em direção à Antártida e a todos os recursos naturais" dessa região austral do continente.
A esse respeito, Burdman afirmou que "há uma aposta clara de Milei de que Washington exerça pressão para avanços na questão das Malvinas, e isso está explícito em seu discurso".
O cientista político acrescentou que as declarações de Trump não devem ser vistas apenas sob a ótica de suas tensões com o governo britânico.
"Os Estados Unidos vêm buscando há algum tempo reforçar sua influência na América Latina e, nesse contexto, desejam estabelecer um controle de segurança que nunca tiveram sobre o Atlântico Sul."
Por Sputnik Brasil
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