Geral
Como a relação do Brasil com países africanos pode ser caminho para integração com a América do Sul
Expertos defendem a aproximação do Brasil com a África como uma estratégia para projeção internacional.
Com o avanço de outras potências no continente, especialistas ouvidos no Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, defendem que o Brasil retome espaço e aprofunde laços com a África para fortalecer sua projeção internacional, independentemente de quem vencer as eleições de 2026.
A África ganhou peso nas disputas geopolíticas nos últimos anos, atraindo investimentos, acordos comerciais e aproximações diplomáticas de potências como China, Rússia, Índia e Turquia.
Para o Brasil, que historicamente reivindica uma relação privilegiada com o continente por razões econômicas, políticas e culturais, esse movimento também representa uma oportunidade que, nos últimos anos, não foi plenamente aproveitada, durante o terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de uma aproximação ter sido amplamente divulgada.
A promessa de recolocar a África no centro da política externa brasileira esbarrou em limitações, sejam questões domésticas ou desafios do cenário geopolítico. Nesse contexto, um eventual quarto mandato de Lula ou um novo governo poderia representar uma mudança de rumo?
"A África realmente deve voltar a ocupar um lugar estratégico na política brasileira, não só por conta das relações históricas e culturais que o Brasil tem com o continente, mas também pelas transformações estruturais pelas quais os países desse continente vêm passando", explica Vinicius Zanchin Baldissera, doutorando e mestre em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Como ele destaca, o continente passa por um processo de crescimento econômico — com o PIB expandindo em média 4,4% e mais de 20 países crescendo acima de 5% — e demográfico — caminhando para atingir 2,5 bilhões de habitantes até 2050, tornando-se a força de trabalho mais jovem do planeta, com 60% da população abaixo dos 25 anos —, urbanização e expansão de mercados, ao mesmo tempo em que concentra recursos estratégicos cada vez mais disputados internacionalmente.
Nesse contexto, porém, a importância da África para o Brasil vai além dos interesses comerciais. "Acima de tudo, [há] a crescente importância geopolítica. Não só por conta desses recursos, mas especialmente para o Brasil, por conta desse espaço comum que temos com o continente africano, que é a região do Atlântico Sul, o oceano Atlântico Sul".
O Atlântico Sul deve ser considerado parte do entorno estratégico brasileiro, justamente por conectar os dois continentes e concentrar rotas de navegação, recursos energéticos e interesses de potências externas. Do lado brasileiro, o pré-sal e novas fronteiras de exploração, como a Bacia de Pelotas, reforçam a relevância econômica da região. Na costa africana, países como Angola e Namíbia também ampliam o peso energético do Atlântico.
"Faz parte do nosso entorno estratégico, onde devemos priorizar nossas políticas e ações. A África se encontra na margem leste, nós estamos na margem oeste, e sabemos que nesse espaço há muita interferência externa de potências extrarregionais."
A presença de petróleo e outras riquezas também contribui para aumentar a competição internacional e pode estimular uma maior militarização do Atlântico Sul. O movimento ocorre em um momento de transição na ordem internacional, marcado pela crescente disputa entre grandes potências por influência, mercados e recursos.
"Isso tudo atrai esse interesse externo e gera uma tendência de militarização desse espaço, o que é realmente prejudicial aos olhos do Brasil e da África por conta das inseguranças que podem ser causadas pelas disputas geopolíticas."
Baldissera ressalta que uma atuação conjunta entre Brasil e países africanos banhados pelo Atlântico seria de interesse mútuo para assegurar os benefícios da região e marcar posição diante de interesses externos de outras potências. Para ele, esse entendimento deveria superar diferenças ideológicas e eleitorais, com a relação com a África tratada como política de Estado, independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto.
O pesquisador, porém, avalia que o continente ainda ocupa pouco espaço no debate eleitoral brasileiro. A própria política externa é pouco discutida nas campanhas, e a África acaba distante das prioridades apresentadas aos eleitores.
"A discussão da política externa no âmbito das eleições já é baixa. Agora, se olharmos o que verdadeiramente interessaria ao Estado brasileiro, é ainda menos discutido dentro das relações internacionais para as eleições," afirma. "É uma agenda que já é pequena e o espaço da África é menor ainda."
"Muito se aponta que a África, por exemplo, é a política de Lula. (...) E os candidatos, muitos da direita principalmente, demonstram isso como: 'Olha só as empresas que o Brasil colocou na África, como elas deram errado, todas foram corruptas, então o Brasil não deve estabelecer parcerias com a África'. Isso é uma visão muito errônea de como se portar na política internacional."
Em sua visão, governos de esquerda e de direita poderiam se beneficiar de uma estratégia permanente de aproximação com os países africanos. Isso exigiria continuidade de projetos, investimentos e acordos, em vez de iniciativas vinculadas a um único governo.
Essa estratégia também poderia aproximar não apenas o Brasil, mas a América do Sul e a África como um todo. A integração entre os dois espaços poderia criar cadeias produtivas complementares e ampliar a capacidade de inserção internacional dos países envolvidos.
Baldissera cita como referência o processo de integração produtiva do Leste Asiático. Apesar das disputas e assimetrias entre os países, a construção de cadeias produtivas integradas contribuiu para transformar a região em um importante polo econômico mundial. Para o Brasil, uma aproximação mais estruturada com a África e os demais países sul-americanos poderia ir além da diplomacia e do comércio de commodities, criando uma base econômica e industrial regional, capaz de ampliar a autonomia e o peso internacional do país.
"A África e a América do Sul são peças-chave dentro desse quebra-cabeça brasileiro de projeção internacional. Apenas o estreitamento desses laços pode elevar o Brasil a condições maiores na política internacional."
Como explica Rômulo Neves, diplomata brasileiro que atua em Ruanda, o maior risco de uma alteração de poder para um político de direita será não só uma possível falta de continuidade no relacionamento com países africanos pelo Brasil, mas a perda do trabalho acumulado nos últimos anos.
Neves ressalta que até mesmo o que foi deixado de lado durante o governo de Jair Bolsonaro ainda não foi totalmente recuperado, frisando que "ainda estamos numa recuperação lenta" nas relações. "Para ser muito justo, neste último ano, o presidente Lula acelerou a aproximação."
"O presidente organizou um evento interessante com os reitores das universidades africanas. A ApexBrasil e o Itamaraty continuam fazendo missões de promoção comercial muito interessantes. [...] estão fazendo outra na parte sul do continente neste momento."
Perguntado sobre como o Brasil pode recuperar o espaço perdido neste continente, o diplomata atribui parte da dificuldade às mudanças na política doméstica brasileira e à distribuição do orçamento entre Executivo e Legislativo. A redução do ritmo de aproximação deve ser interpretada como resultado de uma conjuntura política diferente da observada em seus primeiros mandatos.
Mudanças na definição do orçamento deram ao Congresso maior poder sobre a destinação dos recursos públicos, reduzindo a margem de decisão do Executivo para implementar determinadas agendas. "Além disso, o próprio Lula tem um capital político diferente do que ele tinha no primeiro governo. Hoje, o Brasil está dividido," explica.
Ao mesmo tempo, Neves reconhece que o Brasil perdeu espaço em setores em que já teve presença relevante. A construção civil, por exemplo, passou a enfrentar a concorrência de países como Turquia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Portugal, enquanto a China alcançou uma escala de atuação que, na avaliação do diplomata, tornou a comparação com o Brasil mais difícil.
Ainda assim, acredita ser possível recuperar parte do terreno perdido. Para isso, seria necessário retomar negócios e ampliar a presença de empresas brasileiras no continente, defendendo que o Brasil aumente investimentos e comércio com a África, independentemente do resultado das eleições de 2026.
Usando sua atuação como representante brasileiro em Ruanda, a promoção comercial é uma das áreas em que a relação avançou nos últimos anos, com a abertura de mercados e a realização de missões empresariais brasileiras em países africanos. "Certamente precisa e está fazendo até. Eu diria que a área que mais avançou na relação Brasil-África foi exatamente a de promoção comercial."
Além da presença crescente da China, Turquia e países do Oriente Médio, os próprios países africanos passaram a ampliar sua atuação comercial, impulsionados pela criação da Zona de Livre Comércio Continental Africana, colocando estes países africanos como também atores nesse tabuleiro.
Assim, Neves vê espaço para uma mudança de escala da participação brasileira, principalmente diante do crescimento da classe média e das economias africanas. Setores como agricultura e, sobretudo, a indústria brasileira de média tecnologia poderiam encontrar oportunidades importantes no continente.
Mais lidas
-
1MOBILIDADE
Prefeitura inicia obras de R$ 46,9 milhões para ampliar ponte e criar terceira faixa na Ayrton Senna, na Barra da Tijuca
-
2ESTADO DE SAÚDE
Chiara Ferragni passa mal por causa de altitude durante viagem ao Peru
-
3ESPORTE
Palmeiras domina ranking de vendas mais caras do Brasil com cinco entre as 12 maiores
-
4DEFESA
Chefe da Marinha britânica reconhece o poderio da frota submarina da Rússia
-
5CONCURSO
RJ terá concurso para Secretaria de Planejamento e Gestão com 60 vagas de nível superior