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Análise: Brasil é o último reduto de resistência fora da influência dos EUA na América do Sul

Desafios e estratégias do futuro presidente em um mundo de tensões

Sputnik Brasil 02/09/2026
Análise: Brasil é o último reduto de resistência fora da influência dos EUA na América do Sul
Análise sobre a posição do Brasil na política internacional e sua relação com os EUA. - Foto: © AP Photo / Julio Cortez

Ao podcast Mundioka, especialistas apontam que, independentemente de quem seja o presidenciável eleito, este terá que enfrentar um mundo repleto de conflitos e uma intensa pressão intervencionista norte-americana.

O candidato que vencer as próximas eleições enfrentará um grande desafio em relação à política externa. Em um cenário cada vez mais polarizado e fragmentado, marcado pela rivalidade entre grandes potências, qual seria a melhor estratégia: aderir a algum polo de poder ou preservar a autonomia do Brasil?

Para José Niemeyer, professor de relações internacionais do Ibmec, o ideal seria que o país mantivesse a equidistância em relação aos centros de poder. Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, ele avalia que o Brasil não deve se aproximar demasiadamente de uma única potência.

Ele menciona como exemplo a relação com os EUA, que já dura 130 anos e é crucial para a exportação brasileira de óleos combustíveis, aviões, máquinas, equipamentos e produtos semimanufaturados.

"Devemos manter a nossa relação com os EUA. Contudo, o Brasil deve ter a mesma agenda ou aprimorar essa agenda de aprofundamento das relações externas com a China, a União Europeia, a Índia e outros quadrantes do sistema internacional, principalmente onde se observa a ação das potências", afirma.

Segundo ele, o Brasil não precisa necessariamente ter um relacionamento específico com uma determinada potência, mas é crucial que atue nas regiões estratégicas. Um exemplo trazido por Niemeyer é a relação do Brasil com a Alemanha, que indiretamente favorece a relação com a União Europeia (UE). Outro exemplo relevante são Vietnã, Malásia e Singapura, que estão alinhados na mesma lógica de poder que envolve a China.

"No mundo fragmentado como o atual, o relacionamento não necessariamente é direto, mas é importante que o Brasil esteja próximo dos países que orbitam aquelas potências", complementa.

Niemeyer observa que a volatilidade no sistema internacional também exige que o Brasil aprimore seu sistema de defesa.

"Hoje, o Brasil é a 11ª força militar do planeta [...]. O país precisa proteger suas riquezas em minerais, energia, terras agricultáveis e na nossa vasta costa."

Ele enfatiza a necessidade de uma estrutura de defesa nacional eficiente e pronta para combater inimigos formais, como organizações ou Estados que tentam invadir o território brasileiro, além de proteger-se de ameaças invisíveis, como grupos terroristas e o crime organizado. No entanto, ele se opõe à produção de armas nucleares no país.

"Não vejo necessidade de o Brasil produzir sua própria bomba. O que devemos fazer é continuar nossas pesquisas com energia nuclear para fins pacíficos, nas áreas econômica, de saúde e principalmente na mobilidade de nossos submarinos", afirma.

Pablo Saturnino Braga, professor adjunto do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenador do LABMUNDO, considera dois cenários distintos para os possíveis governos. Ele afirma que, caso a gestão Lula seja mantida, a proposta deverá visar a autonomia em meio a múltiplas crises internacionais e à intensa pressão dos EUA, que representa, em certo grau, uma ameaça à soberania nacional.

"Se um candidato de extrema-direita, como Flávio Bolsonaro, ganhar, o cenário será de submissão e concessão irrestrita da soberania nacional aos desígnios do império estadunidense, dado o contexto crítico em que estamos inseridos", opina o especialista.

Na visão de Braga, as crises internacionais atuais são, em grande parte, consequências do intervencionismo estadunidense. Dentro desse contexto na América Latina, ele considera o Brasil "a rainha do tabuleiro", sendo o último reduto de um campo progressista na região.

"No Uruguai, por exemplo, temos uma direita um pouco mais civilizada, mas o cenário geral alinha lideranças ao trumpismo, o que acarreta políticas que favorecem a entrada de multinacionais e a exploração de recursos naturais da América Latina pelos EUA", explica.

Ele acrescenta que, nesse panorama, a disputa tecnológica é crucial para a preservação da soberania. O espaço tecnológico é onde os países podem explorar as oportunidades para uma economia mais competitiva e qualificada.

"A capacidade do Brasil de desenvolver essas tecnologias é fundamental para definir nossa autonomia. Investir em um projeto de desenvolvimento nacional é imprescindível para tornar a economia brasileira mais competitiva e acompanhar as grandes transformações tecnológicas que vivenciamos hoje", enfatiza.

Braga destaca que outro desafio será avançar no projeto de neo-industrialização, o que exigirá uma escala de investimentos muito maior e priorização.

"Mais do que apenas ter um programa que busca reabilitar cadeias produtivas sofisticadas, precisamos estabelecer prioridades específicas. Qual é a prioridade?", questiona.

Sobre a questão das armas nucleares, Braga ressalta que o Brasil aderiu aos principais tratados de não proliferação nuclear e foi protagonista nesse debate na década de 1970. Ele considera que possuir uma arma nuclear seria extremamente delicado para o contexto estratégico do país.

"A Argentina olharia com desconfiança, especialmente se considerarmos que o governo atual é mais do que um rival, mas um inimigo, devido ao grau de agressividade de [Javier] Milei em relação ao Brasil e ao presidente Lula. Para mim, essa discussão não faz muito sentido diante da nossa inserção regional e internacional", conclui.