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Irã: analista explica como o país enfrenta os EUA e sustenta sua economia
Entrevista revela a resiliência do Irã em tempos de sanções.
Após décadas de tentativas de isolamento por meio de severas sanções econômicas lideradas pelos EUA, a República Islâmica do Irã demonstrou resiliência. No cenário atual, o país não apenas supera as ofensivas estadunidenses, mas também inflige danos à máquina de guerra do inimigo, consolidando-se como uma potência e liderança regional dominante.
Para compreender o contexto sociopolítico iraniano, a Sputnik Brasil conversou com o analista político Marco Fernandes, que se dedica a estudos sobre o país e esteve em Teerã antes do início da guerra em 28 de fevereiro, deflagrada por ações de Washington e Tel Aviv. Sobre o conflito, o especialista aponta que o Irã demonstrou sua capacidade bélica para o mundo.
"O Irã é a Stalingrado da nossa época, a Stalingrado do Sul Global, porque essa guerra mudou o mundo e vai mudar não só a política regional, mas a geopolítica global. E o Irã, evidentemente, também, graças a essa guerra, pela primeira vez na história, fez algo que também se cogitava e que o Irã também não sabia se era capaz de fazer ou não, que foi o fechamento do estreito de Ormuz", disse.
O pesquisador também aponta que o Irã, além de se consolidar como um ator capaz de alterar a dinâmica local, expôs a fragilidade dos EUA perante seus aliados no Golfo Pérsico. Para o analista, os EUA demonstraram incapacidade de garantir proteção, apesar de manter extensas bases militares na região.
"Os países do Golfo [Pérsico] passaram pelo menos 40 anos pagando bilhões de dólares aos EUA para garantir a sua segurança. Tanto com venda de equipamentos quanto com todas as suas bases. O que essa guerra provou é que os EUA não têm a capacidade e talvez nem o interesse de defender os países da região", comenta.
Economia estatal fortalece o país apesar de sanções
Fernandes, que está em vias de publicar o seu artigo "Como o Irã está vencendo a guerra que mudou o mundo? Estado planejador, jihad intelectual e xeque-mate geopolítico", explica que, no âmbito econômico, a participação direta do governo é um dos pilares para o desenvolvimento interno.
"O Irã nunca deixou de ter plano quinquenal, então isso é uma coisa já cultural. O que aconteceu, em parte por conta das sanções, foi que cada vez mais o Estado iraniano assumiu uma série de setores importantes da economia. O Irã hoje, provavelmente, está na lista dos países do mundo onde o Estado tem mais influência e comando sobre a economia, mais até do que a China", destaca.
Outro ponto levantado pelo analista internacional é que o Irã, em suas relações externas, construiu uma ponte diplomática que contorna o Ocidente, contando com Moscou e Pequim como parceiros estratégicos centrais.
"Entre 80% e 90% do petróleo iraniano vai para a China, com um ótimo desconto, aliás. O programa nuclear iraniano tem muito de cooperação com a Rússia. Há também toda uma questão logística [no Irã], que é estratégica hoje para a geopolítica e para o futuro econômico do Sul Global, que é a construção de rotas econômicas alternativas às rotas oceânicas controladas pelos Estados Unidos", observa.
Religião é a 'liga' da coesão entre Estado e sociedade
Além do pragmatismo das políticas públicas que regem a população, a religião islâmica, segundo Marco Fernandes, é de vital importância. Uma vez que a fé atua como um pilar fundamental para o povo iraniano superar adversidades, inclusive diante das atuais investidas estadunidenses.
"Para o xiita, há dois caminhos possíveis diante da opressão, ou se luta e a justiça prevalece, ou se luta e é massacrado, mas, nos dois casos, se vira um mártir. Como é que se faz uma guerra com um povo que pensa que não há derrota? Esse país, essa sociedade, é praticamente indestrutível. Eu acho que é isso que nós estamos vendo no Irã nos últimos meses", conclui.
Compreender o Irã exige romper com as visões simplistas do Ocidente, que frequentemente reduzem sua rica história a estereótipos. O atual cenário de conflito deixa claro que as pressões e ataques de Washington falharam em desestabilizar o país. Pelo contrário, a agressão externa acabou servindo como um combustível para unificar a população, demonstrando uma forte coesão social e um nacionalismo resiliente.
Por Sputnik Brasil
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