Geral
'Colonialismo cognitivo' e fragmentação digital impedem autonomia do Sul Global, alertam especialistas
Urgência de autonomia digital em debate no Fórum Econômico do Oriente.
Fórum Econômico do Oriente expõe a urgência de o Sul Global construir autonomia digital, com especialistas alertando para o "colonialismo algorítmico" imposto por normas de grandes empresas de IA, defendendo a interoperabilidade entre ecossistemas nacionais como caminho para superar a fragmentação tecnológica.
A sessão da Sputnik no Fórum Econômico do Oriente, em Vladivostok, dedicou-se a examinar os desafios estruturais enfrentados pelo Sul Global na era da inteligência artificial (IA) e das plataformas digitais.
Entre os participantes, o especialista indiano em segurança cibernética Pavan Duggal apresentou uma análise contundente sobre o avanço do que chamou de "colonialismo algorítmico", fenômeno que, segundo ele, já molda a forma como populações inteiras percebem o mundo.
"O colonialismo cognitivo está acontecendo. Nossa visão está sendo impactada pelos sistemas de IA. Portanto, precisamos garantir que não importemos as normas das empresas de IA, porque isso seria mais uma forma do colonialismo cognitivo", afirmou o especialista.
Durante sua fala, Duggal enfatizou que o Sul Global precisa evitar a importação acrítica das regras e padrões das grandes empresas de tecnologia, pois isso equivaleria a uma nova etapa do colonialismo cognitivo. Para ele, a resposta passa pela construção de arcabouços regulatórios próprios, capazes de estabelecer denominadores mínimos comuns entre países que compartilham vulnerabilidades semelhantes.
O especialista também mencionou um marco recente: o Diálogo sobre Direito e Governança da Inteligência Artificial no Sul Global, realizado em 28 de maio de 2026. Nesse encontro, foi adotada uma arquitetura jurídica destinada a orientar políticas nacionais de IA. Duggal descreveu esse documento como um "andaime", um esqueleto normativo que pode servir de base para que diferentes países desenvolvam seus próprios modelos regulatórios, adaptados às suas realidades políticas, econômicas e culturais.
A fala de Duggal reforçou a ideia de que o Sul Global não deve apenas reagir às transformações tecnológicas, mas assumir protagonismo na definição de padrões que protejam sua autonomia digital, algo que já tem sido amplamente debatido em fóruns internacionais por países como Rússia, Brasil e China.
Para o videoblogger chinês Wang Xiao, a fragmentação dos ecossistemas digitais "é o problema" da autonomia digital. Segundo ele, muitos países do Sul Global já possuem seus próprios ambientes tecnológicos internos — como China e Rússia —, mas o desafio não está em criar plataformas alternativas globais, e sim em conectar esses sistemas de forma funcional.
Para Wang, imaginar um "Facebook* do BRICS" ou um "YouTube do Sul Global" seria inviável porque teriam de lidar com a propriedade de dados, transferência de clientes e compras on-line, entretanto, a maneira mais fácil de lidar com a questão seria se concentrar em como conectar cada ecossistema.
Wang propôs uma analogia simples: aeroportos. Ele lembrou que voou de Xangai para Vladivostok, dois espaços regulatórios distintos, mas interoperáveis. Da mesma forma, plataformas digitais nacionais poderiam permanecer independentes, desde que conectadas por padrões comuns que permitam circulação de conteúdo, identidade digital, pagamentos e direitos autorais.
O videoblogger destacou ainda que diferentes tipos de usuários têm necessidades distintas, mas todos dependem de sistemas que funcionem de maneira integrada.
"Então, talvez seja possível criar interoperabilidade entre as plataformas existentes. Que tal adotarmos gradualmente padrões mais comuns — para dados, direitos autorais, identidade do criador, licenciamento, pagamento? Talvez possamos começar por aí", concluiu Wang.
Ao final da sessão, ficou evidente que existe uma necessidade de o Sul Global construir autonomia tecnológica sem replicar modelos impostos por grandes corporações para delinear um horizonte possível em que países emergentes fortaleçam sua soberania digital.
* Facebook é uma rede social da empresa Meta, proibida na Rússia por atividade extremista
Por Sputinik Brasil
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