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Corrida para suceder Macron ganha força na França, com Marine Le Pen como nome a ser batido

Mais de duas dezenas de políticos avaliam entrar na disputa pela presidência em 2027.

Estadao Conteudo 01/09/2026
Corrida para suceder Macron ganha força na França, com Marine Le Pen como nome a ser batido
Macron - Foto: © ANSA/EPA

Com o fim da temporada de férias de verão do Hemisfério Norte na França, a campanha para escolher o sucessor de Emmanuel Macron na Presidência começa a ganhar força, com um número incomum de possíveis candidatos e Marine Le Pen consolidada, neste estágio, como o nome a ser batido.

Macron está constitucionalmente impedido de disputar um terceiro mandato consecutivo, o que abriu espaço para uma corrida fragmentada. O primeiro turno está marcado para 18 de abril de 2027 e o segundo, para 2 de maio. Mais de duas dezenas de políticos já indicaram intenção de concorrer ou avaliam entrar na disputa, embora parte deles ainda precise assegurar apoio partidário e os patrocínios necessários para registrar candidatura.

O líder do Partido Socialista, Olivier Faure, tornou-se neste fim de semana o mais recente nome a anunciar que pretende concorrer. A multiplicidade de candidaturas, porém, pode favorecer Le Pen, do Reagrupamento Nacional, ao pulverizar os votos no primeiro turno.

Foi uma dinâmica semelhante que ajudou Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, a chegar inesperadamente ao segundo turno da eleição de 2002, em uma disputa que teve recorde de 16 candidatos. Desta vez, contudo, a surpresa seria Marine Le Pen não avançar à rodada decisiva.

Pesquisas indicam há meses que Le Pen lidera a corrida e pode chegar ao segundo turno como a candidata mais votada no primeiro, algo que não conseguiu nas eleições de 2017 e 2022, quando ficou atrás de Macron antes de ser derrotada por ele na rodada final.

A quarta tentativa de Le Pen à Presidência é vista como a melhor oportunidade até agora para o Reagrupamento Nacional chegar ao poder. O partido, nacionalista e contrário à imigração, tornou-se desde 2024 a maior legenda na Assembleia Nacional, a câmara baixa do Parlamento francês.

A candidatura de Le Pen também recebeu impulso em julho, quando um tribunal de apelações de Paris reduziu a duração de uma proibição de disputar cargos eletivos imposta por uma instância inferior após sua condenação por desvio de recursos, liberando o caminho para que volte a concorrer à Presidência.

Uma eventual vitória de Le Pen teria implicações relevantes para a União Europeia, diante de seu histórico de críticas ao bloco e a diversas de suas regras e políticas comuns.

"É claramente uma eleição crucial, simplesmente porque a extrema direita pode vencer desta vez, e isso nunca aconteceu antes", afirmou Gilles Ivaldi, pesquisador da Sciences Po especializado em populismo e direita radical. Segundo ele, uma Presidência de Le Pen enfraqueceria a UE e poderia gerar instabilidade no bloco.

Se uma das vagas no segundo turno parece, por enquanto, encaminhada para Le Pen, a disputa pela outra permanece aberta. Entre os principais nomes estão Jean-Luc Mélenchon, líder da esquerda radical, e os ex-primeiros-ministros de Macron Edouard Philippe e Gabriel Attal, ambos de centro.

Também aparecem como possíveis candidatos o conservador Bruno Retailleau, ex-ministro do Interior, o eurodeputado Raphaël Glucksmann e a líder dos Ecologistas, Marine Tondelier.

Parte desses nomes participou na semana passada de um debate em Roland Garros, em Paris, que funcionou como uma espécie de largada informal da campanha e teve como foco propostas para os problemas econômicos do país e críticas a Le Pen.

Um dos cenários que mais preocupa setores do centro político é um segundo turno entre Le Pen e Mélenchon. Pesquisas indicam que, nessa hipótese, Le Pen poderia vencer. A possibilidade pode levar candidatos mais moderados a desistir ao longo da campanha para reduzir a fragmentação do voto.

"Quanto maior a fragmentação, maiores as chances de que Mélenchon seja essa pessoa", disse Ivaldi, ao comentar a disputa pela segunda vaga no segundo turno.

A eleição ocorrerá ainda sob forte pressão econômica e geopolítica. A guerra no Irã elevou os custos de energia e atingiu uma economia francesa já estagnada, enquanto o conflito na Ucrânia mantém em Paris o temor de uma escalada envolvendo países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Ao mesmo tempo, a Presidência de Donald Trump abalou a confiança francesa na aliança transatlântica, enquanto a força industrial da China e o avanço da inteligência artificial (IA) ampliam preocupações sobre a competitividade econômica e tecnológica da França.

O próximo presidente também herdará margem fiscal reduzida diante do crescimento da dívida pública e de seus custos de financiamento. Macron, por sua vez, chega à reta final de seu segundo mandato com forte desgaste entre parte do eleitorado, depois de anos marcados por protestos e crises políticas.

Nesse ambiente, a eleição tende a colocar em confronto duas tendências: o desejo de ruptura com a ordem política tradicional, representado sobretudo por Le Pen e Mélenchon, e a busca por uma alternativa mais moderada para suceder Macron. Fonte: Associated Press.