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Dez anos do impeachment de Dilma: episódio moldou a política brasileira, diz Dirceu
José Dirceu analisa as consequências do impeachment na política nacional e o impacto nas eleições futuras.
Em entrevista à Sputnik Brasil, José Dirceu comenta as repercussões do processo de impeachment contra a presidente, como o crescimento do bolsonarismo, a instabilidade política e a influência dos Estados Unidos nas eleições de 2026.
No dia 31 de agosto de 2016, o Congresso presenciou um evento que mudou os rumos da política nacional. A presidente à época, Dilma Rousseff, sofreu o processo de impeachment por 61 votos a 20, sendo condenada pelo crime de responsabilidade e perdendo seu mandato, embora tenha mantido seus direitos políticos.
O que ocorreu em seguida foi uma crise política que persiste até os dias de hoje, com alta polarização ideológica, confrontos recorrentes entre os Três Poderes brasileiros e o surgimento de novas forças políticas nas eleições seguintes. Acima de tudo, a percepção pública sobre a classe política foi a mais afetada, criando ressentimento e desconfiança de projetos de governo, até mesmo daqueles de alto interesse da população.
Em 2018, Jair Bolsonaro se tornou presidente com o crescimento do bolsonarismo; em 2022, Bolsonaro perdeu sua reeleição para Lula, que voltou à presidência; agora, em 2026, temos uma disputa entre Lula e um representante do bolsonarismo, Flávio Bolsonaro, em um ciclo eleitoral marcado pela presença dos EUA e sua agenda na América do Sul.
À Sputnik Brasil, o ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, comenta sobre os dez anos após o impeachment de Dilma e seus efeitos no debate político no Brasil.
Impeachment de Dilma Rousseff
Classificando o episódio como um "golpe parlamentar jurídico", José Dirceu afirmou que o impeachment de Dilma criou as condições políticas necessárias para o crescimento do bolsonarismo no Brasil. Segundo o ex-ministro, não havia fundamento constitucional para a retirada da presidente e o processo representou uma "quebra do Pacto Democrático", agravando a crise política e econômica que o país enfrentava.
Além disso, a crise de confiança provocada pelo impeachment contribuiu para o agravamento da inflação, do câmbio e do ambiente de investimentos. Ele também apontou a atuação de setores da direita e do então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que teria conduzido uma "pauta-bomba" no Congresso em meio ao processo contra Dilma.
Para o ex-ministro, o governo de Michel Temer deu continuidade a uma agenda de reformas e privatizações defendida pela direita liberal, com ênfase nas reformas trabalhista e previdenciária.
"Acho que o golpe contra Dilma abriu as portas para o crescimento da extrema-direita e do bolsonarismo."
Dirceu também estabeleceu uma relação entre o impeachment e os acontecimentos que antecederam a eleição de 2018, notando que a Operação Lava Jato e a prisão de Lula, posteriormente anulada pela Justiça, tiveram papel decisivo ao impedir que o então candidato petista disputasse a eleição. Ele ainda afirmou que a proibição de Lula de fazer campanha para Fernando Haddad contribuiu para a vitória de Bolsonaro.
Na avaliação do ex-ministro, portanto, a eleição de Jair Bolsonaro não pode ser analisada de forma isolada, mas como parte de um processo iniciado com a crise política que levou ao impeachment de Dilma. "A eleição do Jair Bolsonaro tem como antecedente o golpe jurídico-parlamentar".
A polarização que se aprofundou após 2016, segundo sua interpretação, ajudou a consolidar o bolsonarismo como uma força política capaz de disputar o poder mesmo após a derrota de Bolsonaro para Lula em 2022. Em 2026, essa força volta a se apresentar nas urnas por meio da candidatura de Flávio Bolsonaro, mantendo no centro da disputa presidencial o legado político construído a partir daquele período.
Cenário polarizado?
José Dirceu discorda da avaliação de que o Brasil está polarizado, afirmando que há uma "disputa política cultural" no país, algo também observado em outros países pelo mundo, além das definições entre esquerda, direita, progressista ou conservador. Sobretudo, na discussão sobre valores e direitos sociais e a ruptura de sistemas de governo.
O ex-ministro ressalta que isso já foi visto muitas vezes na história contemporânea, citando os efeitos causados por crises financeiras – a Grande Depressão, por exemplo – e conflitos mundiais – a Primeira e Segunda Guerra Mundial – e, também, pontuando que algo parecido ocorre com a perda de influência hegemônica dos EUA e sua disputa com a China e outras potências.
No Brasil, Dirceu afirma que o bolsonarismo contou com o apoio de setores da direita e de parcelas das classes médias para chegar ao poder em 2018. Já em 2022, parte desse eleitorado teria mudado de posição, contribuindo para a vitória de Lula.
Em sua visão, a disputa atual também envolve projetos diferentes para o futuro do país. Ele aponta um conjunto de partidos de direita — União Brasil, Progressistas, Republicanos, PSD, PL e uma parcela do MDB — como integrantes de um campo que, em sua avaliação, defende a redução do papel do Estado e uma política econômica baseada na austeridade fiscal.
Dirceu contrapõe esse projeto ao fortalecimento da atuação estatal observado em diferentes países, em destaque na Europa e na Ásia. Ele cita políticas de incentivo ao crédito, à inovação tecnológica e militar, à reindustrialização, à energia e à habitação, além de medidas de proteção social. Para ele, esse movimento mostra que a distinção entre os campos políticos não se resume à oposição entre progressistas e conservadores. "É preciso sempre distinguir", afirmou.
Disputa eleitoral de 2026 no Brasil
Em relação às eleições de 2026 no Brasil, José Dirceu acredita que a soberania do país está sob ameaça de uma intervenção política aberta pelos Estados Unidos, utilizando a questão comercial das tarifas como uma "cortina". O candidato a deputado continua ao pontuar que, apesar da pressão norte-americana, há uma realidade econômica e geopolítica que Washington não consegue alterar: a ascensão da China.
Dirceu destaca que a China se tornou o principal parceiro da América do Sul. Para ele, essa realidade precisa ser considerada na relação entre Brasil e Estados Unidos.
No caso brasileiro, porém, o ex-ministro vê um agravante na atuação da família Bolsonaro, citando a ida do deputado cassado Eduardo Bolsonaro aos Estados Unidos – e também de Flávio Bolsonaro – para apoiar medidas do governo de Donald Trump que, em sua avaliação, são contrárias aos interesses nacionais.
"A família Bolsonaro está lá nos Estados Unidos, vai aos Estados Unidos para apoiar as medidas do governo Trump contra os interesses nacionais, contra o país, fazendo o ato de traição nacional."
Dentro da disputa eleitoral, o petista pontua que existe uma tentativa de criar uma agenda de conflito envolvendo temas como corrupção, direitos humanos, terras raras, big techs e narcotráfico, pontos que são usados por Washington para justificar medidas intervencionistas. "Então vejo que há, sim, uma interferência gravíssima, que atenta contra a nossa soberania".
Ao mesmo tempo, Dirceu reconhece o descontentamento com o atual governo Lula diante da permanência de problemas sociais e econômicos no país. Em especial, cita a situação de jovens brasileiros formados no ensino superior que não encontram empregos qualificados e de trabalhadores submetidos a jornadas extensas e baixos salários.
"Então há muita insatisfação com o nosso governo. Ainda bem que há", afirmou. Apesar dos avanços sociais registrados nos três anos e meio de governo, o ex-ministro diz que é preciso reconhecer as demandas de uma parcela da população que espera melhores condições de vida.
"É preciso apresentar uma proposta de governo que represente prosperidade, ascensão social e um futuro melhor para milhões de brasileiros."
Entre as áreas que, segundo Dirceu, devem fazer parte dessa proposta estão a reindustrialização, a modernização da infraestrutura, a formação técnico-profissional, a ampliação dos direitos sociais, o acesso à habitação e melhorias no sistema de transporte. O ex-ministro também aponta como demandas importantes a redução da jornada de trabalho e uma maior tributação sobre os mais ricos.
"Por isso que a escala 6x1 tem apoio de 84% da juventude, por isso que 80% dos brasileiros aprovaram cobrar impostos dos ricos [...] Esse setor está na expectativa de uma proposta de governo que convença eles de um futuro melhor."
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