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Estudante espancado na UFRJ diz ser 'impossível' retornar à universidade por falta de segurança

Diego Costa Araújo nega acusações e relata medo após agressão violenta.

Estadao Conteudo 31/08/2026
Estudante espancado na UFRJ diz ser 'impossível' retornar à universidade por falta de segurança
UFRJ - Foto: reprodução

O estudante de História Diego Costa Araújo, de 27 anos, agredido e acusado de apologia ao nazismo e de cometer injúria racial na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), negou que tenha cometido esses crimes e disse, ao Estadão, que considera "impossível" retomar o curso por não se sentir seguro.

"A UFRJ não consegue garantir minha segurança física enquanto pessoa", afirmou. A reportagem entrou em contato com a universidade e aguarda o retorno. O episódio ocorreu na terça-feira, 25, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ.

Diego afirma que vestia uma camiseta e um bottom da banda punk Death in June, conhecida por seu posicionamento ambíguo sobre o nazismo, e relata ter sofrido uma tentativa de homicídio ao ser espancado por dezenas de pessoas.

A confusão teria começado quando o estudante de Direito Deivid Lima entrou na sala de aula para questionar Diego sobre a roupa e o broche do grupo musical.

Deivid afirmou que Diego estaria cometendo um crime. No Brasil, a apologia ao nazismo é prevista na Lei 7.716/1989, e a divulgação de símbolos nazistas para esse fim pode resultar em reclusão de dois a cinco anos e multa.

Diego teria dado uma cotovelada em Deivid, o chamando de macaco, segurado seu cabelo e dito que iria matá-lo quando a confusão começou.

Em nota, os advogados que representam Deivid afirmaram que ele "foi vítima de agressões físicas e violência racial" e lamentaram as "tentativas de manipulação e distorção dos fatos".

"Os estudantes falam abertamente em me matar. Vazaram o meu número e tem gente me mandando mensagem. Estou sofrendo um processo de doxxing", acrescenta Diego. Ele afirma que também usava um broche antinazista.

Doxxing é a exposição ou divulgação, sem autorização, de dados (ou outras informações que possam identificá-lo) pessoais de alguém na internet.

Em um documento assinado por mais de 280 profissionais da UFRJ e de outras instituições, manifestam solidariedade aos estudantes do IFCS e cobram da universidade a criação de mecanismos de prevenção e defesa contra eventos semelhantes. A nota também menciona que Diego teria atuado como "agente provocador" ao exibir uma camiseta de uma banda com propósito evidente.

"Posicionamo-nos publicamente em solidariedade aos estudantes agredidos por um neonazista em um campus da UFRJ e em repúdio aos atos por ele praticados, entre eles agredir verbal e fisicamente um estudante negro com insultos racistas", diz o Forms.

O estudante de História se autodeclara abertamente marxista e diz que contribuiu com a plataforma digital LavraPalavra em uma publicação de 2022. O portal, que também mantém produtos impressos, tem como objetivo "criar um aparelho de publicações capaz de dialogar com o amplo espectro da esquerda brasileira e lusófona".

Diego informa que tentou explicar que a camisa e o broche que vestia faziam referência à oposição ao nazismo e à supremacia branca. "No vídeo, estou andando de modo pacífico e tendo uma postura pacífica. Eu não resisto, eu não xingo, eu não agrido de volta."

A banda em discussão, Death in June, provoca controvérsia no mundo da música pelo uso de símbolos associados ao nazismo. Em 2023, o crítico Jim DeRogatis publicou no jornal Chicago Sun-Times que o vocalista Douglas Pearce é assumidamente gay e ex-integrante da banda punk de esquerda Crisis. DeRogatis também mencionou que Death in June já teve um integrante judeu em sua formação e que o grupo utiliza esses símbolos com o objetivo de provocar indignação.

Vídeo divulgado nas redes sociais

Em um vídeo publicado nas redes sociais, Deivid afirma que, após a agressão, enquanto os dois se dirigiam à secretaria da universidade, Diego teria puxado seu cabelo e dado uma mordida. Em seguida, Deivid afirma que Diego também teria proferido ofensas contra outros colegas com o "intuito de que eles perdessem a cabeça e fossem para cima dele".

"Ele olhou para mim com desdém e disse que poderia fazer o que quisesse, que tinha liberdade de expressão para usar tudo aquilo que tivesse vontade", disse Deivid. Segundo ele, o jovem foi orientado a seguir até a secretaria e chamar uma viatura para esclarecer os fatos, quando ocorreu a agressão.

O que diz a UFRJ

A UFRJ e a direção do IFCS abriram uma comissão de sindicância para apurar o caso. Em nota oficial, a reitoria da universidade repudiou veementemente qualquer tipo de apologia ao nazismo, ao fascismo, ao racismo, ao antissemitismo e a qualquer forma de intolerância ou discriminação.

A instituição ressaltou que não admite agressões físicas ou violência como resposta a provocações ou divergências ideológicas, afirmando que o ambiente acadêmico deve priorizar a convivência democrática. Reuniões e ações com a comunidade estudantil foram intensificadas para evitar a escalada de novos conflitos no campus.

Polícia investiga imagens

A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga o episódio de violência envolvendo estudantes da UFRJ.

A Polícia Civil analisa as imagens gravadas por celulares de testemunhas e realiza diligências para ouvir os envolvidos e esclarecer tanto a acusação de apologia ao nazismo quanto os atos de agressão física.