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Bab el-Mandeb: como Eritreia e Djibuti se tornaram peões importantes no cenário global?

A ascensão de dois países na rota do comércio internacional

Sputnik Brasil 27/08/2026
Bab el-Mandeb: como Eritreia e Djibuti se tornaram peões importantes no cenário global?
Djibuti e Eritreia: novos players na dinâmica geopolítica do comércio internacional - Foto: © AP Photo / Abdulnasser Alseddik

Cerca de 12% do comércio de petróleo mundial passa pelo estreito de Bab el-Mandeb, cuja importância aumentou devido aos conflitos no Oriente Médio, elevando o status geopolítico de nações menos destacadas na mídia internacional.

O estreito de Bab el-Mandeb, que ganhou destaque com a escalada de tensões entre EUA e Israel contra o Irã, tem como ator principal no noticiário internacional uma nação na costa oriental, o Iémen. Contudo, do lado africano, outros dois países compartilham essa passagem crucial, considerada um ponto de estrangulamento do comércio internacional: Djibuti e Eritreia.

Geograficamente privilegiados, ambos os países foram alçados "da periferia para o centro do sistema internacional", afirma Orlando Mazuze, especialista em relações internacionais, diplomacia e segurança marítima, em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil.

A crescente relevância é respondida internamente. O governo de Djibuti, por exemplo, tem investido na melhoria de sua infraestrutura e na logística. O estreito de Bab el-Mandeb conecta-se ao Mar Vermelho e, em seguida, ao Canal de Suez, permitindo acesso ao continente europeu, além de facilitar a navegação para o Golfo de Áden e o Oceano Índico.

Ainda assim, a rota enfrenta desafios, pois, embora 12% do comércio de petróleo mundial transite pelo estreito, a área é afetada pela instabilidade devido a ataques houthis. Segundo Mazuze, essa ofensiva prejudica as ambições econômicas dos países africanos em arrecadar fundos com a rota.

"O conjunto de ataques, no final do dia, acaba prejudicando um possível ganho financeiro dos países africanos."

Por outro lado, a costa africana do Bab el-Mandeb não está livre de instabilidades. A Eritreia, independente desde 1993 e anteriormente parte da Etiópia, mantém relações tensas com seu vizinho. Adis Abeba, por sua vez, depende do corredor estratégico djibutiano.

A separação resultou na perda do acesso etíope ao Porto de Assab, que, segundo o especialista, atualmente não gera impacto comercial relevante para Asmara. "Histórias do passado indicam que a Etiópia já ameaçou usar a força para recuperar esse porto", alerta o analista, enfatizando um contencioso maior.

No caso de Djibuti, as tensões são diferentes. O país abriga bases militares de potências como EUA, China, França, Japão e Itália, o que, segundo Charles Pennaforte, professor de geopolítica e relações internacionais da UFPel, garante retorno financeiro e reduz sua vulnerabilidade a ataques ou pressões. No entanto, a presença de concorrentes pode tornar Djibuti um alvo de crises.

"Essa convivência de opostos é extremamente complicada, mas, para os grupos no poder, a mistura de interesses se torna um aspecto importante para transformar Djibuti em um peão geopolítico. Além disso, o apoio das bases é fundamental, pois, sem elas, a já difícil situação econômica do país seria ainda pior", explica Mazuze, que participou da conversa no Mundioka.

'Quem dominar o mar dominará o mundo'

Durante a entrevista, Mazuze menciona a frase do teórico norte-americano Alfred Mahan para ressaltar: Djibuti, hoje, não oferece apenas acesso ao estreito de Bab-el-Mandeb e ao Chifre da África, mas também proporciona um valioso laço entre o continente africano e o Oriente Médio, além do mar Vermelho e do Oceano Índico.

Conforme a Organização das Nações Unidas (ONU), o comércio marítimo representa aproximadamente 80% de todo o comércio internacional. Diante do conflito no Irã, Djibuti e Eritreia emergem como peões chave no tabuleiro das relações internacionais, afirma Pennaforte.

"Se o estreito de Bab-el-Mandeb for fechado, a situação piora drasticamente. Este é um fato geopolítico que resulta da presença norte-americana no conflito iraniano," acrescenta.

Assim, Eritreia e Djibuti podem se beneficiar de maiores recursos e de uma percepção mais favorável do Ocidente, conclui o professor da UFPel.