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Nobel de Economia alerta para desdolarização como efeito não intencional dos EUA
Roger Myerson analisa concentração de riqueza e corrupção em coletiva na USP.
O economista Roger Myerson, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2007, afirmou em coletiva nesta segunda-feira (27), na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP (FEAUSP), que a atual concentração de riqueza no mundo resulta da combinação entre avanços em inteligência artificial e um aumento da corrupção governamental.
O professor norte-americano da Universidade de Chicago participou do 4th International Workshop on Game Theory and Economic Applications (IWGTEA), ao lado dos também laureados Paul Milgrom (2020) e Alvin Roth (2012). Segundo Myerson, a tecnologia da informação, acelerada nos últimos anos pela inteligência artificial, reduziu o custo de administração de grandes organizações, o que favoreceu a formação de empresas com poder de quase-monopólio e, consequentemente, o acúmulo de riqueza em poucas mãos. "Monopólios criam riqueza monopolista. Estamos num momento em que um pequeno grupo de empresas acumula muita riqueza."
O economista disse ainda que esse fenômeno coincide com um momento de corrupção governamental mais alta do que no passado, o que reforça a concentração. Myerson também abordou o tema da corrupção sob a ótica da teoria dos jogos, ao comentar sobre até que ponto o eleitorado deveria tolerar políticos corruptos: "temos que tolerar tanta corrupção quanto a do nosso segundo candidato favorito", disse.
Em resposta a pergunta da Sputnik Brasil sobre desigualdade, Myerson ponderou que políticas redistributivas poderiam ajudar a mitigar o quadro, mas alertou que o igualitarismo em excesso também tem custo para o crescimento econômico. "O problema da desigualdade é grande, e está piorando."
O Nobel também relacionou a desigualdade ao financiamento eleitoral, afirmando que, "se os ricos conseguem comprar eleições com doações de campanha, a capacidade da democracia de redistribuir riqueza fica limitada".
Questionado sobre a desdolarização, Myerson explicou que o déficit comercial crônico dos Estados Unidos é o espelho de um superávit na conta de capital do país: o mundo inteiro busca manter reservas em títulos do Tesouro americano, considerados o ativo líquido mais seguro do planeta. "Se a dívida do governo federal dos Estados Unidos é considerada a forma mais líquida de manter riqueza, o mundo inteiro vai querer manter dívida federal americana."
Segundo o economista, essa demanda global por dívida americana é o que obriga os EUA a sustentar o déficit em conta corrente. "A única forma de garantir que todo mundo tenha os ativos líquidos de que precisa é os Estados Unidos manterem um déficit comercial." Para Myerson, a atual administração americana busca reverter esse déficit, mas o único caminho possível para isso seria o mundo passar a confiar menos na dívida dos Estados Unidos e buscar alternativas, o que corresponde, na prática, à própria definição de desdolarização. "Não acho que seja isso que eles querem, mas tinha motivo para achar que sim."
Por Sputnik Brasil
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