Geral

Digitalização inspira o Sul Global: como a Índia encurtou em décadas o caminho da bancarização?

Uma revolução na inclusão financeira e digital do país asiático

Sputnik Brasil 27/07/2026
Digitalização inspira o Sul Global: como a Índia encurtou em décadas o caminho da bancarização?
A Índia revolucionou a inclusão financeira com a digitalização, servindo de exemplo para outros países. - Foto: © AP Photo / Anupam Nath

Com uma velocidade recorde, a Índia conseguiu incluir cerca de 500 milhões de pessoas no sistema bancário em menos de uma década. A medida, sem precedentes na história mundial, serviu de inspiração para outros países em desenvolvimento, como o Brasil, que vivenciou um processo semelhante durante a pandemia.

No país que abriga a maior população do planeta, a implementação de qualquer política pública ou mudança estrutural é sempre mais complexa. Apesar disso, a Índia integrou aproximadamente 500 milhões de pessoas ao sistema financeiro digital em menos de uma década e lançou, ainda em 2016, o UPI (Unified Payments Interface ou Sistema Unificado de Pagamentos), considerado a maior plataforma de pagamentos do mundo. Com quase 20 bilhões de transações mensais, o sistema serviu inclusive de inspiração para o Pix brasileiro.

Outra realização indiana é a inclusão de mais de 99% da população (quase 1,4 bilhão de pessoas) no sistema de identificação civil digital Aadhaar. Com isso, cada indiano possui um número de identificação único, semelhante à Carteira de Identidade Nacional do Brasil. Caso seja necessário alterar dados, como endereço ou nome, não é mais preciso comparecer a um órgão público. Além disso, o país já ultrapassou a marca de um bilhão de smartphones ativos e alcançou uma taxa de acesso à Internet de 70%.

Esses números posicionam a Índia como uma das pioneiras no avanço da infraestrutura pública digital em todo o mundo, tornando-se uma referência para o Sul Global. O analista de geopolítica e correspondente no Brasil do jornal indiano The Hindu, Shobhan Saxena, afirma ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que isso tem ajudado a derrubar estereótipos amplamente reconhecidos sobre a Índia e a transformá-la em um "grande cartão de visita" para a diplomacia do país.

"O país também deixou de ser apenas um exportador de mão de obra em tecnologia para se tornar um exportador de soluções públicas de tecnologia. Um exemplo é o India Stack, que não tem custo de licenciamento para nações da África e da Ásia e tem fortalecido imensamente o soft power da Índia. Isso também ajuda o Sul Global a construir seus próprios sistemas digitais, sem criar dependência de big techs sediadas nos Estados Unidos. A Índia consolidou sua liderança política entre os países em desenvolvimento e há oportunidades significativas para o Brasil ampliar a cooperação com Nova Deli em áreas como pagamentos digitais", afirma.

Para o especialista, a Índia também conseguiu assumir uma posição ativa sobre a importância da tecnologia, inclusive em fóruns globais como o BRICS e o G20. "Dentro do BRICS, defende a criação de redes para pagamentos internacionais e, em vez de vender um produto fechado, a Índia promove um conserto de alguma infraestrutura digital para que cada nação tenha soberania sobre seus próprios trilhos digitais e garanta desenvolvimento social", complementa.

Digitalização pública e a redução da pobreza na Índia

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) revelam que a Índia conseguiu retirar mais de 415 milhões de pessoas da pobreza em 15 anos. Conforme Saxena, a infraestrutura digital pública do país foi crucial nesse processo e ajudou a reduzir a corrupção na gestão dos programas sociais em uma nação que concentra quase 18% da população mundial.

"A grande revolução foi um sistema de transferência de benefícios sociais, o Direct for Beneficiaries. Antigamente, o dinheiro dos auxílios passava por dezenas de mãos, envolvendo muita burocracia, e parte dele se perdia no caminho por conta da corrupção. Hoje, a verba cai diretamente na conta do beneficiário, e a ajuda chega com precisão cirúrgica a quem realmente precisa, protegendo famílias em situação de vulnerabilidade", diz.

Com a criação do sistema de pagamentos digitais, Saxena afirma que o comércio ganhou um novo impulso, eliminando taxas e o aluguel de maquininhas de cartão. "Agora, um vendedor de rua ou um motorista de tuk-tuk utiliza o QR Code do UPI, que é o Pix da Índia. Este sistema processa bilhões de transações todos os meses, sendo a maioria de valores baixos. Isso movimenta o comércio local, elimina a necessidade de troco e evita a circulação de grandes quantias de dinheiro em espécie, comum anteriormente", afirma.

O especialista cita dados da consultoria McKinsey, que prevê um aumento de até US$ 1 trilhão (R$ 5,1 trilhões) no Produto Interno Bruto (PIB) somente com a digitalização que, segundo ele, transformou uma população vulnerável em novos consumidores e agentes ativos de mercado. A pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), da Escola de Guerra Naval, Maria Fernanda Császár, concorda e destaca ao podcast Mundioka que, além dos efeitos econômicos, esse processo também amplia o acesso da população a um direito básico: a documentação civil.

"O Aadhaar é um sistema de biometria e identificação da população em um país muito populoso e denso. Isso criava uma dificuldade para levar o Estado a essas pessoas. Assim, foi criada a tecnologia em 2009. O sistema também prevê a autenticação de serviços e veio acompanhado de políticas de fomento à inclusão financeira, como a abertura de contas bancárias. Junto com a conectividade, a Índia também tem investido em infraestrutura física, como redes de Internet", enfatiza.

Parcerias com países de baixa e média renda

De acordo com a especialista, a Índia assinou pelo menos 23 memorandos de entendimento nos últimos anos para a cooperação ou implementação de sistemas públicos digitais, a exemplo do UPI, que já funciona em outros oito países graças a essas parcerias. Todos os beneficiados têm uma característica em comum: são países de baixa e média renda, como Sri Lanka, Nepal, Butão e Ilhas Maurício.

"Eles se colocam como um modelo, uma planta básica para a integração, o que está muito alinhado à política externa do governo do primeiro-ministro Narendra Modi. A Índia também tem reforçado a importância de garantir uma conectividade segura e confiável, de desenvolver uma infraestrutura digital pública resiliente e de expandir a cooperação com mercados digitais emergentes. Em maio deste ano, houve uma reunião virtual da presidência indiana do BRICS, na qual foi apresentada uma nota conceitual sobre o desenvolvimento conjunto das capacidades digitais dos países", declara.

Por fim, Császár lembra que Nova Deli também se destaca cada vez mais no setor de inteligência artificial, com um crescimento de 263% nas soluções desenvolvidas desde 2016. A especialista destaca ainda a preocupação do governo indiano com aspectos éticos, de segurança e uso responsável da tecnologia.

"É interessante observar o desenvolvimento da inteligência artificial na Índia porque envolve tanto os bens digitais quanto a infraestrutura material, com plantas para semicondutores e o avanço em tecnologias de hardware, que historicamente não eram o foco da Índia. O país sempre teve uma atuação mais forte no desenvolvimento de software. Existe esse cuidado de pensar, de forma holística, sobre o desenvolvimento da inteligência artificial no país", conclui.