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De cocaína a cidades fantasmas: o que a poluição fez com o rio Tietê

Da nascente aos impactos nas cidades, a degradação do Tietê é alarmante.

Sputnik Brasil 20/07/2026
De cocaína a cidades fantasmas: o que a poluição fez com o rio Tietê
O rio Tietê, que nasce limpo, enfrenta grave poluição e degradação ao longo de seu percurso em São Paulo. - Foto: © Sputnik / Guilherme Correia

O rio Tietê nasce limpo em Salesópolis (SP), na Serra do Mar, tão próximo da vertente litorânea que bastariam poucos metros de distância para que a água escoasse para o litoral sul paulista em vez do interior.

Apesar de aparentemente intocado, já são detectadas contaminações na nascente. "A gente fez uma viagem da nascente até a foz estudando tudo isso: fármacos, drogas, carbono, nitrogênio, microplástico na nascente", revela o biólogo e ativista César Pegoraro, da Fundação SOS Mata Atlântica.

Um pesquisador que participou da expedição, com experiência no Porto de Santos, constatou, em estudos anteriores, altos índices de cocaína na água da região.

Conforme levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica, mencionado por Loan Ramos Barbosa, técnico em restauração florestal, resíduos de medicamentos, hormônios e substâncias ilícitas — incluindo cocaína — foram encontrados na água do Tietê.

Atualmente, três em cada quatro pontos monitorados na bacia estão classificados como "regulares" e podem piorar. Pegoraro relaciona os impactos das enchentes à degradação do rio e à desigualdade social, afirmando que os bairros mais pobres são os mais afetados.

A engenheira ambiental Gabrielle Segatti Soares Almeida, acompanhando o rio entre a nascente e a metrópole, testemunhou o Tietê "totalmente poluído, contaminado com resíduos sólidos e esgoto".

Para ela, é "um absurdo que uma cidade como São Paulo, uma das mais ricas do mundo, tenha um rio com características de esgoto bruto".

Pegoraro explica que a poluição é intensificada por episódios de vazamento de esgoto, mesmo que pequeno, que comprometem um trecho inteiro do rio. "Um pontinho de esgoto de nada causa todo esse prejuízo", afirma. Ele relata que a organização já denunciou vazamentos ao poder público, mas não obteve retorno.

Segundo Pegoraro, a responsabilidade pela degradação se divide entre a concessionária de saneamento e o poder público, que deveria fiscalizar o contrato. "Quem fiscaliza o poder público concedente?" questiona ele.

Pegoraro também menciona a precariedade da infraestrutura, citando casos em que tampas de rede de esgoto estão instaladas, mas não ligadas às residências, resultando no despejo direto de esgoto no rio.

Um exemplo que mostra que a recuperação é viável é uma nascente na região do Butantã, que foi desapropriada após mapeamento e transformada em parque público. O local chegou a ficar limpo por anos após os anos 2000, mas enfrentou novos desafios entre 2016 e 2017 devido a extravasamentos de uma tubulação de esgoto. Recentemente, a organização conseguiu articular uma nova limpeza do canal, melhorando a situação.

Mudanças climáticas

A decomposição da matéria orgânica no rio libera metano, um gás que, segundo Pegoraro, é extremamente impactante para as mudanças climáticas. Ele também ressalta a ocupação desordenada da várzea por grandes obras, citando um corredor que abriga tanto dutos quanto linhas de transmissão na zona Oeste de São Paulo, evidenciando a falta de cuidado nesse espaço.

A relação da cidade com o rio é de apagamento, conforme Pegoraro. "Toda a sociedade humana se desenvolveu à margem de um rio, onde houvesse disponibilidade de água. Sem água, a humanidade não monta suas aldeias". Ele critica a canalização de trechos do Tietê, que resulta em um apagamento simbólico desses cursos d'água, cobertos por avenidas e esquecidos pelos cidadãos.

Cidades fantasmas

Segatti Almeida ressalta que, ao pensarem em contato com a natureza, os moradores costumam associar essa ideia a viagens para o litoral ou interior, ignorando os rios urbanos.

A professora e ambientalista Elisete Peixoto de Lima, em Lins, observa que cidades à margem do Tietê que investiram no turismo e na pesca acabam perdendo população na baixa temporada devido à poluição. "Alguns municípios chegam a triplicar a população na alta temporada — de 15 mil para 45 mil habitantes — e depois se esvaziam. Muitas dessas cidades estão se transformando em cidades fantasmas".

Pegoraro sugere um olhar mais amplo sobre o Baixo Tietê, onde os moradores percebem o que acontece com o rio mil quilômetros acima, ressaltando a interconexão entre as diversas regiões.

"Eles conseguem perceber o que está acontecendo com o rio mil quilômetros acima deles, porque tudo que ocorre aqui se reflete lá."

Ele destaca a importância de um trabalho colaborativo e contínuo para a recuperação da bacia hídrica, que deve envolver articulações entre regiões distantes e não apenas esforços isolados na capital.