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Futebol Arte em crise? Brasil precisa de mudanças estruturais, mas sem abrir mão da essência

Desafios e oportunidades no cenário do futebol brasileiro

Sputnik Brasil 19/07/2026
Futebol Arte em crise? Brasil precisa de mudanças estruturais, mas sem abrir mão da essência
Futebol arte brasileiro vive desafio de reconexão com a torcida e busca por mudanças estruturais. - Foto: © AP Photo / Andre Penner

Dos mil gols de Pelé às fintas de Garrincha, dos dribles de Ronaldinho Gaúcho à pontaria de Ronaldo. O jeito brasileiro de fazer futebol – o Futebol Arte – é consagrado pela criatividade, improvisação e alegria em campo, mas precisa se reconectar com o público.

O futebol, o "jogo bonito", é o esporte do século, atraindo o olhar de bilhões de pessoas. É o que colocou o Brasil em destaque no mundo, que põe milhões de brasileiros em frenesi e até pessoas de outros países a vestirem a "amarelinha", a camisa da Seleção.

O futebol brasileiro, carismático, ousado, com vocação ofensiva e cultivado desde as ruas e campos de várzea, ainda possui jogadores de todas as classes sociais e tons de pele, dando à Seleção a cara de "a seleção do mundo".

Contudo, sucessivas campanhas fracassadas na Copa do Mundo – uma seca por títulos mundiais que chegará a 28 anos em 2030 – põe em xeque a competitividade do futebol brasileiro. Neste Dia Nacional do Futebol, fica a questão: o jogador perdeu contato com o torcedor? Pior, a Seleção se desconectou com a torcida do Brasil?

Para José Carlos Marques, embora críticas ao futebol brasileiro por recorrer a técnicos estrangeiros ou exportar jogadores cada vez mais jovens para a Europa sejam válidas, a principal crise está na perda do senso coletivo dentro da equipe. Segundo o líder do Grupo de Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol (Gecef), os interesses individuais passaram a se sobrepor aos da seleção, fenômeno simbolizado pela influência de Neymar sobre a geração atual.

"É o maior jogador que o Brasil teve nos últimos 15 anos, mas a questão comportamental de Neymar, dentro e fora de campo, moldou uma geração de atletas que tem ele como ídolo."

Exemplo disto seria a crescente mistura entre publicidade e Seleção Brasileira, como a participação de Carlo Ancelotti em campanhas comerciais às vésperas da Copa do Mundo, incompatível com a responsabilidade do cargo. O mesmo ocorreu em edições anteriores com jogadores como Neymar e Gabriel Jesus.

Apesar das críticas, o pesquisador ressalta que o individualismo sempre fez parte da identidade do futebol brasileiro através de características como a habilidade técnica, a criatividade e até uma certa indisciplina tática, que permitiram que grandes talentos resolvessem partidas. O problema é que esse traço foi levado ao extremo.

Ao mesmo tempo, Marques observa que a identificação dos torcedores com os jogadores não está necessariamente vinculada à nacionalidade. Esse processo hoje ultrapassa fronteiras geográficas e culturais, fazendo com que atletas de diferentes países despertem admiração em públicos ao redor do mundo.

Como exemplo, o pesquisador cita o goleiro de Cabo Verde, Josimar José Évora Dias, o "Vozinha", que conquistou simpatizantes em diversos países, especialmente no Brasil, durante a Copa do Mundo. O carisma, a trajetória e o desempenho do atleta foram suficientes para criar uma conexão emocional com torcedores de outras nacionalidades.

Além disso, a distância dos jogadores da torcida brasileira, com muitos entrando de férias nos EUA ou voltando direto para países em que jogam, também contribui para esse descompasso. Ele cita como exemplo o retorno dos jogadores após a eliminação, quando cada atleta seguiu individualmente para férias em diferentes destinos, sem um retorno conjunto ao Brasil. Apenas o lateral Danilo, do Flamengo, voltou para o Brasil após a derrota contra a Noruega.

Para o pesquisador, esse comportamento transmite a imagem de um grupo sem senso de pertencimento, diferente do que se observa em seleções como Argentina, Espanha ou Inglaterra, cujos elencos costumam manter uma postura coletiva mesmo após derrotas. Esse conjunto de fatores, conclui, faz com que a Seleção deixe de representar um projeto nacional e passe a ser percebida como um grupo de estrelas, enfraquecendo a identificação dos brasileiros com a equipe.

Construção da Seleção além da Copa do Mundo

Também ouvido pela Sputnik Brasil, Paulo Vinícius Coelho (PVC), jornalista esportivo e colunista do UOL, avalia que o problema está na ausência de um projeto de longo prazo. Segundo ele, o Brasil perdeu a capacidade de desenvolver uma identidade para a equipe nacional, o que contribuiu para sua perda de protagonismo no cenário internacional.

“A gente construiu uma identidade de jogo e ela não está destruída, mas a Seleção brasileira não tem um projeto de seleção", afirma. Para o jornalista, o país passou a privilegiar os clubes e os resultados imediatos, enquanto a constante troca de treinadores, a falta de paciência com processos e a tendência de responsabilizar exclusivamente os técnicos impede a consolidação de um modelo de jogo.

No entanto, o colunista rejeita a ideia de que a exportação precoce de atletas atrapalhe o desempenho da Seleção. A saída cada vez mais cedo de jogadores é consequência da globalização do mercado do futebol, e não a causa da crise. Como exemplo, cita a Argentina campeã do mundo em 2022, que contava com apenas um jogador atuando no campeonato local, o goleiro Franco Armani, no River Plate.

Para PVC, o problema mais grave é a "mexicanização" do futebol brasileiro, caracterizada pelo fortalecimento dos clubes em detrimento da Seleção no imaginário de torcedores e dirigentes. Embora considere positiva a evolução do Campeonato Brasileiro, ele alerta que a projeção internacional dos clubes depende diretamente da força da equipe nacional.

"O futebol brasileiro só vai ter relevância, os clubes brasileiros só vão ter relevância, se a Seleção Brasileira for relevante."

O jornalista também critica a cultura de responsabilizar os treinadores por problemas estruturais do futebol brasileiro. Na sua avaliação, a troca constante de técnicos impede a consolidação de projetos e alimenta a busca por soluções imediatas, o que explica, em parte, a valorização excessiva de treinadores estrangeiros. "A gente criou a lógica de que o técnico, para ser bom, tem que ser estrangeiro."

Como exemplo da falta de continuidade, PVC compara o Campeonato Brasileiro à Premier League. Enquanto o recorde inglês de demissões em uma temporada de 38 rodadas foi de 13 treinadores, o Brasileirão já havia registrado 14 trocas em apenas 18 rodadas. Para ele, é inviável julgar um trabalho em apenas dez jogos.

"Em qualquer profissão no Brasil, um novo funcionário tem três meses de experiência. No Brasil, um time tem dois técnicos em três meses."

Na avaliação de Marques, o Brasil enfrenta justamente o problema oposto. A constante troca de presidentes da CBF, dirigentes e comissões técnicas impede a consolidação de um projeto esportivo duradouro, enquanto a falta de integração entre as categorias de base e a seleção principal dificulta a construção de uma identidade para o futebol brasileiro. Em outras palavras, cada novo ciclo acaba recomeçando praticamente do zero.

Nesse sentido, o especialista defende que o Brasil tem muito a aprender com a forma como as principais potências europeias organizam o esporte. Não em seu esquema tático e estilo de jogo, mas sim a estrutura das federações e a continuidade dos projetos.

Seleções como Alemanha, França, Espanha e Inglaterra construíram projetos nacionais de longo prazo, integrando federações, clubes, categorias de base e equipes principais. Esse planejamento permitiu que essas seleções mantivessem uma identidade esportiva mesmo diante da troca de treinadores e de gerações de jogadores, sem depender exclusivamente do talento individual de determinados atletas.

O pesquisador pondera, contudo, que a comparação com a Europa deve considerar as diferenças estruturais entre os países. Enquanto as principais potências europeias possuem territórios menores e sistemas mais centralizados, o Brasil reúne dimensões continentais, dezenas de federações estaduais e realidades muito distintas.