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Roubo de césio-137 reacende debate sobre segurança nuclear no Brasil
Casos recentes na Argentina, em Minas Gerais e em São Paulo expõem riscos ligados ao furto de equipamentos com material radioativo e reforçam a necessidade de informação, fiscalização e controle institucional.
Na última semana, a Argentina emitiu um alerta nacional após o roubo de uma cápsula de césio-137 em uma unidade médica. O material ainda não foi recuperado. O caso levantou questionamentos sobre os protocolos de segurança e reacendeu o debate sobre os riscos associados a fontes radioativas, quase quatro décadas após o acidente de Goiânia, um dos mais graves da história.
Um dos principais isótopos radioativos utilizados na medicina nuclear, o césio-137 é empregado em tratamentos de radioterapia, pesquisas científicas e aplicações industriais. O material é armazenado em cápsulas de chumbo e, nessas condições, não oferece risco à população. O problema surge quando essa estrutura é violada, embora isso seja considerado difícil de ocorrer.
Há quase quatro décadas, o Brasil viveu um dos maiores acidentes radiológicos do mundo, quando essa violação aconteceu em Goiânia. Na ocasião, o material foi retirado de uma clínica abandonada e, diante da falta de informação sobre o pó brilhante, várias pessoas tiveram contato com o césio-137.
A tragédia, que, segundo a Associação das Vítimas do Césio-137, provocou a morte de pelo menos 107 pessoas até 2012 em decorrência dos efeitos prolongados da radiação no organismo e afetou cerca de 1,6 mil pessoas, voltou recentemente ao debate público ao ser retratada em uma série de sucesso no streaming.
Nos últimos anos, pelo menos dois episódios reacenderam a discussão sobre os riscos de novos acidentes e a necessidade de reforçar os protocolos de segurança. Em 2023, dois equipamentos de uma mineradora em Nazareno, no sul de Minas Gerais, desapareceram. Embora tivessem atividade radiológica 300 mil vezes menor que a dos materiais envolvidos no acidente de Goiânia, o caso gerou preocupação.
Já em 2024, em São Paulo, criminosos roubaram um veículo que transportava cinco unidades de blindagem de geradores com material radioativo destinadas a hospitais. As cápsulas foram localizadas intactas em um comércio de ferro-velho e, apesar de tentativas de violação, não foram danificadas. O episódio levantou suspeitas sobre o desconhecimento dos envolvidos em relação ao símbolo que alerta para materiais radioativos. Na ocasião, três pessoas foram presas por receptação e porte de material nuclear.
O mestre em engenharia nuclear pela Universidade Nacional Russa de Pesquisa Nuclear (MEPhI, na sigla em inglês), Júlio de Oliveira, explicou à Sputnik Brasil que apenas o chumbo das cápsulas possui valor comercial.
“Não há um mercado paralelo de fontes radioativas para que esses materiais sejam vendidos para aplicações industriais ou médicas, por exemplo. Além disso, uma fonte de césio não serve para ser usada como uma bomba suja”, enfatizou.
O especialista lembra que, atualmente, o césio-137 é utilizado em forma gelatinosa, e não em pó, o que também reduz o risco de dispersão. “Houve essa mudança justamente para não se espalhar o material com tanta facilidade e permitir uma limpeza mais fácil. Um acidente como o de Goiânia não é impossível, mas é extremamente menos provável do que na época”, afirmou.
Informação e fiscalização são barreiras contra novos acidentes
Na avaliação da professora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Inayá Lima, a conscientização de trabalhadores da reciclagem e da desmontagem de equipamentos é uma das medidas que podem ajudar a evitar novos acidentes envolvendo materiais radioativos.
“A experiência acumulada em diversos países demonstra que trabalhadores de reciclagem, sucateiros, transportadores, equipes de manutenção e profissionais envolvidos na desmontagem de equipamentos representam uma camada adicional extremamente importante de proteção”, afirmou à Sputnik Brasil.
Segundo a especialista, não é necessário que a população em geral domine conceitos de física nuclear, mas é importante que as pessoas sejam capazes de reconhecer símbolos de alerta e saibam quais autoridades devem ser acionadas em situações suspeitas.
“Em muitos casos, a diferença entre um incidente controlado e um acidente de maiores proporções está justamente na identificação precoce do problema. Em segurança radiológica, informação qualificada também funciona como uma barreira de proteção”, ressaltou.
Inayá observa ainda que os casos mais comuns de desaparecimento de fontes radioativas ao redor do mundo estão ligados ao valor econômico dos equipamentos ou de componentes metálicos, e não ao material radioativo em si. Por isso, ferros-velhos e centros de reciclagem frequentemente se tornam pontos de atenção para as autoridades.
“Na maior parte dos casos registrados internacionalmente, o material radioativo não constitui o objetivo principal do furto. O interesse costuma estar associado ao valor econômico do equipamento, do veículo ou dos componentes metálicos que podem ser revendidos como sucata”, explicou.
A pesquisadora acrescenta que, independentemente da motivação do furto, o principal problema surge quando uma fonte deixa de estar sob supervisão regulatória, aumentando as incertezas sobre sua localização e integridade. “Em proteção radiológica, perder o controle sobre uma fonte é sempre um evento que merece atenção imediata”, enfatizou.
A especialista avalia também que os episódios registrados nos últimos anos devem servir para medir a eficácia dos mecanismos de fiscalização e resposta das autoridades. “Uma regulação efetiva exige corpo técnico altamente especializado, capacidade permanente de inspeção, sistemas modernos de informação, preparo para resposta a emergências e presença regulatória em todo o território nacional”, destacou.
Fortalecimento institucional é a principal herança de Goiânia
Para a professora da UFRJ, quase quatro décadas após o acidente com césio-137 em Goiânia, a principal lição deixada pela tragédia continua sendo a necessidade de fortalecer as instituições responsáveis pela segurança nuclear e radiológica. “Goiânia demonstrou que acidentes radiológicos graves não decorrem necessariamente da complexidade da tecnologia, mas da ruptura dos mecanismos de controle institucional”, afirmou.
Nesse sentido, ela ressalta que a segurança depende não apenas da engenharia dos equipamentos, mas também da qualificação das pessoas e da capacidade do Estado de manter vigilância permanente sobre materiais potencialmente perigosos.
“A principal herança de Goiânia não é apenas um conjunto de normas técnicas. É a compreensão de que vigilância permanente, aprendizado contínuo e fortalecimento institucional são condições indispensáveis para a utilização segura das tecnologias nucleares e radiológicas”, disse.
O professor e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia: Física Nuclear e Aplicações (INCT-FNA), da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jesús Lubián Rios, pontuou à Sputnik Brasil que, diante dos benefícios proporcionados pelas técnicas nucleares em áreas como medicina, agricultura e meio ambiente, o uso dessas tecnologias exige responsabilidade.
“O que a gente aprende é que as técnicas nucleares são de extremo valor para a sociedade. Elas são aplicadas à medicina, à agricultura, ao estudo do meio ambiente e a diferentes áreas da economia. Mas todo esse estudo tem que ser com alta fiscalização”, afirmou.
Segundo o especialista, além da conscientização, é necessário endurecer a punição para crimes e condutas que coloquem a população em risco. “Isso é o que a gente tem que aprender: ninguém pode estar acima de qualquer tipo de fiscalização e fazer o que quiser ou largar um resíduo radioativo em qualquer lugar. Deveriam existir leis muito rigorosas para coibir esse tipo de comportamento”, concluiu.
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