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Uruguai usará blindados em áreas de alta criminalidade após alta de homicídios

Governo afirma que veículos Mamba MK7 apoiarão operações policiais em bairros de Montevidéu com forte presença do crime organizado

Sputnik Brasil 24/06/2026
Uruguai usará blindados em áreas de alta criminalidade após alta de homicídios
Blindados Mamba MK7 serão usados em operações policiais em áreas violentas de Montevidéu - Foto: © AP Photo / Matilde Campodonico

O presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, anunciou nesta terça-feira (23) que veículos blindados militares Mamba MK7 passarão a patrulhar áreas de Montevidéu como parte de uma estratégia para enfrentar a violência e a alta dos homicídios na capital do país.

Em bairros onde o crime organizado tem ampliado sua presença, o governo Uruguai determinou que o Exército fornecesse 12 blindados para apoiar operações dirigidas pela Polícia.

O plano foi antecipado pelo ministro do Interior, Carlos Negro, durante a sessão no Parlamento. Segundo ele, a medida integra ações da polícia uruguaia que inclui buscas, incursões e prisões em massa em regiões identificadas pelos altos índices de homicídios.

O país sul-americano registra taxa de 10,3 homicídios por 100 mil habitantes, índice ao menos duas vezes superior ao de vizinhos como Argentina e Chile. A pública consolida-se como uma das principais preocupações da população segurança uruguaia.

A violência, porém, concentra-se principalmente nos bairros das zonas oeste e norte de Montevidéu, onde as taxas de homicídios chegam a 44 e 49 por 100 mil habitantes, números semelhantes aos registados no Equador. Em algumas dessas áreas, policiais uruguaios já foram alvo de ataques durante operações.

Orsi confirmou a medida por meio de sua conta na rede social X.

"Após uma reunião com os ministros da Defesa, do Interior e da Economia, decidimos intensificar o combate ao crime organizado. Para isso, direcionamos a infraestrutura de segurança do país para esse objetivo", afirmou o presidente.

Em entrevista coletiva nesta terça-feira (23), ele explicou que o Exército deverá fornecer apenas os veículos e os motoristas, enquanto o restante da operação continuará sob responsabilidade da Polícia.

Segundo informações divulgadas pelo Ministério do Interior do Uruguai em 2022, atuam em Montevidéu e na região metropolitana cerca de 45 “clãs familiares”, dedicados principalmente ao microtráfico de drogas e à disputa pelo controle de áreas específicas. Alguns mantêm vínculos com grandes organizações criminosas estrangeiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), do Brasil.

Em entrevista à Sputnik, o cientista político uruguaio Julián González Guyer, especialista em segurança e Forças Armadas, avaliou que, embora ainda faltem detalhes sobre o plano, a iniciativa pode representar “um passo na direção oposta”, em vez de priorizar instruções “mais sociais e menos repressivas”, como anunciada anteriormente pelas autoridades.

"Esses são veículos de guerra, porque foram concebidos para operar em ambientes muito hostis. São um exagero para o que acontece atualmente, inclusive nos bairros de Montevidéu com os maiores problemas de segurança", opinou o especialista.

Veículos de guerra em ambientes urbanos

Os blindados Mamba MK7 chegaram ao Uruguai em 2024, após doação do governo dos Estados Unidos. Fabricados pela empresa Osprea Logistics, os veículos foram originalmente destinados a apoiar a participação uruguaia em missões de manutenção da paz da Organização das Nações Unidas (ONU).

De acordo com o fabricante, o Mamba foi projetado para operar em ambientes extremos, com alto desempenho e proteção reforçada. Entre suas principais características estão a resistência a explosões e a proteção contra munições de alto calibre.

Para Guyer, a utilização desse tipo de veículo pode não ser adequada para “entrar nos corredores estreitos de algumas áreas dos bairros mais problemáticos, onde a polícia atua a pé”.

“Ainda que no início possa assustar um pouco, não terá efeito uma vez que as pessoas se acostumem”, afirmou. Segundo ele, grupos criminosos, mais cedo ou mais tarde, acabam “encontrando formas de neutralizá-los”, o que reduziria a eficácia dos blindados ao longo do tempo.

O analista também alertou que colocar militares subordinados às ordens da Polícia “quebram as cadeias de comando e os limites institucionais” e expõe integrantes das Forças Armadas a problemas jurídicos caso surjam durante confrontos.

Um caminho que não funcionou na região

Na avaliação de Guyer, o uso de recursos militares em tarefas policiais “é um símbolo perigoso” no combate à criminalidade e representa “um passo na direção errada”, já seguido por outros países da América Latina.

"Essa direção já foi direcionada para a Colômbia, o México e o Equador, e não deu certo em nenhum deles. Acho uma pena que o Uruguai entre nesse tipo de trajetória", disse.

Segundo o especialista, as Forças Armadas são treinadas e equipadas para exercer altos níveis de violência, o que pode ser contraproducente em áreas da capital Uruguai onde “o necessário é reduzir os níveis de violência”, e não “acrescentar elementos que a aumentam — o que ocorreria com esse tipo de medida”.

Por Sputnik Brasil