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BIS alerta que stablecoins não cumprem requisitos básicos do dinheiro
Banco de Compensações Internacionais afirma que criptoativos podem ameaçar a integridade financeira, facilitar ilícitos e estimular a dolarização em mercados emergentes.
As stablecoins — criptomoedas lastreadas em ativos considerados mais obtidos, como dólar, euro e metais preciosos — podem remodelar o sistema de pagamentos ao prometer transferências mais rápidas e baratas. No desenho atual, porém, elas arriscam riscos e podem ameaçar a integridade financeira, especialmente no combate às atividades ilícitas no sistema financeiro, como a lavagem de dinheiro, além de estimular a dolarização em mercados emergentes. O alerta é do Banco de Compensações Internacionais (BIS), no capítulo de seu relatório anual publicado nesta terça-feira.
O BIS confirmou que as stablecoins evidenciaram o potencial da tokenização — processo de transformação de ativos financeiros em ativos digitais. Ainda assim, conclui que, no formato atual, elas não garantem propriedades fundamentais do dinheiro. “A inovação digital pode tornar os pagamentos e a intermediação financeira mais eficientes, mas precisa preservar a confiança no dinheiro”, afirma o documento.
Segundo o relatório, as inovações devem permitir que a “tecnologia sirva, e não enfraqueça, as funções públicas do sistema monetário”.
O BIS aponta que 99,4% das stablecoins lastreadas em moeda são atreladas ao dólar . O volume anual de transações com esses ativos foi estimado em US$ 28 trilhões em 2025. Embora pareça elevado, o montante equivale a menos de três semanas dos volumes de liquidação dos maiores sistemas de pagamento por atacado dos Estados Unidos. Já a capitalização do mercado das stablecoins era de cerca de US$ 320 bilhões no fim de maio de 2026, número considerado “modesto” pelo relatório.
No documento, as stablecoins são descritas como tokens privados em blockchains públicos — bancos de dados que permitem transações diretas entre partes — que tentam manter o valor estável, mas não contam com o arcabouço institucional que sustenta o dinheiro no sistema de moedas de dois níveis. Para o BIS, um sistema monetário eficaz depende de duas propriedades: uma unidade de conta comum e a equivalência entre diferentes formas de dinheiro.
É nesse ponto que surge um dos principais problemas. As stablecoins circulam em vários blockchains que nem sempre se comunicam particularmente. Além disso, um token “com o mesmo nome” em redes diferentes não é automaticamente equivalente, o que prejudica a interoperabilidade — característica essencial do dinheiro.
Nesse ambiente, as stablecoins representam uma parcela significativa da atividade ilícita em blockchain, segundo o BIS. Como circulam nas redes públicas com “pseudonimato”, podem enfraquecer os controles contra a lavagem de dinheiro, o financiamento ao terrorismo e os mecanismos de identificação do cliente por trás de cada transação. Em bancos regulamentados, clientes e operações são rotineiramente verificados, e atividades suspeitas devem ser comunicadas às autoridades. Por isso, o BIS defende uma inovação que avança “além das stablecoins” para preservar a confiança no dinheiro.
Dolarização
No caso dos países emergentes, o BIS alerta para o risco de “dolarização da stablecoin”, cenário em que a demanda por esse tipo de ativo estrangeiro pode alterar fluxos de capital, influenciar a dinâmica cambial e criar desafios à soberania monetária. Esses ativos também podem facilitar a evasão de controles de capital, já que restrições impostas por governos tendem a ser imperfeitas diante da natureza digital das transações.
Para os governos, o relatório defende duas frentes de política pública. A primeira é corrigir fragilidades dos arranjos atuais de stablecoins para mitigar riscos. A segunda é incorporar os ganhos da tokenização ao sistema monetário de dois níveis, mantendo o dinheiro emitido pelo banco central como âncora.
“O desenho de políticas deve garantir que qualquer forma de dinheiro, pública ou privada, seja integrada de forma segura ao sistema monetário”, conclui o relatório. “Os formuladores de políticas devem promover a inovação enquanto preservam a confiança no dinheiro.”
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