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Defesa será um dos principais desafios da política externa, afirma assessor

Audo Faleiro cita ação militar dos EUA na Venezuela e aponta minerais críticos, soberania digital e crime organizado entre prioridades até 2030

Agência Brasil 13/06/2026
Defesa será um dos principais desafios da política externa, afirma assessor
Audo Faleiro aponta desafios da política externa brasileira em conferência no ABC paulista

A área de defesa deve ocupar lugar central entre os principais desafios da política externa brasileira nos próximos anos. A avaliação é de Audo Faleiro, assessor-chefe adjunto da Assessoria Especial do Presidente da República, ao comentar o cenário internacional marcado pela ampliação de conflitos e pela ação militar dos Estados Unidos na Venezuela.

“A percepção de vulnerabilidade com a ação militar americana, sobretudo na região, colocou, eu acho, uma outra urgência para a gente lidar com esse desafio”, afirmou Faleiro durante a 2ª Conferência Nacional Política Externa e Inserção Internacional do Brasil, realizada nesta semana na Universidade Federal do ABC, em São Bernardo do Campo (SP).

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Apesar do alerta, Faleiro ponderou que não identifica, no momento, ameaça imediata às reservas brasileiras de petróleo nem ao programa nuclear nacional.

“Eu não vejo hoje uma ameaça objetiva para o Brasil, como aconteceu na Venezuela, essa ação militar que foi efetivamente para controlar as reservas de petróleo da Venezuela”, declarou.

O assessor destacou, porém, que o país terá de decidir se ampliará ou não os investimentos no setor de defesa.

“A gente convive com um dilema permanente na sociedade brasileira, porque alguns acham que o Brasil é um país pacífico, então ninguém vai nos atacar, e não precisaríamos de defesa. Outros acham que não vale a pena investir em defesa, porque a assimetria militar é tão grande que nada que nós possamos investir vai reduzir essa distância”, afirmou.

Segundo Faleiro, conflitos assimétricos, como os envolvendo Estados Unidos e Irã, indicam um caminho possível diante desse dilema. “Nem sempre o mais forte vence, desde que você tenha uma capacidade de dissuasão bem feita. Acho fundamental pensar a nossa situação em matéria de defesa. O Brasil é muito vulnerável, isso é evidente”, acrescentou.

Minerais críticos e terras raras

Além da defesa, o assessor-chefe adjunto apontou outros cinco desafios que o Brasil deverá enfrentar na política externa nos próximos anos. Segundo ele, minerais críticos e terras raras, soberania digital, crime organizado transnacional, integração regional e aproximação com países africanos exigirão atenção especial pelo menos até 2030.

Ao tratar de minerais críticos e terras raras, Faleiro avaliou que o arcabouço regulatório do setor está defasado. Ele ressaltou, no entanto, que há esforço do atual governo para criar um Conselho Nacional de Minerais Críticos vinculado à Presidência da República.

“Acho que essa é uma área em que nós vamos precisar de muito investimento no desenvolvimento de estratégias para que o Brasil possa se assenhorar dessa condição especial que ele tem, de ser o segundo maior detentor de minerais críticos”, afirmou.

Crime organizado

Sobre o crime organizado transnacional, Faleiro defendeu que o Brasil esteja atento para evitar que o tema seja manipulado com finalidades políticas.

“Os eventos das últimas semanas mostram como é que o tema pode ser manipulado para fins políticos. Nós intuímos um pouco isso no começo do mandato e foi por isso que o Brasil disputou e ganhou a direção-geral da Interpol. Hoje quem dirige a Interpol é um delegado brasileiro, da Polícia Federal”, disse.

De acordo com o assessor, o país precisa “sair da defensiva” e propor à América Latina uma agenda comum de enfrentamento ao crime organizado.

“Acho que, mesmo aqueles países que orbitam hoje mais em torno da nova administração americana, teriam dificuldade de não trabalhar numa agenda de combate ao crime organizado na região”, ressaltou.

Soberania digital

Em relação à soberania digital, Faleiro afirmou que o Brasil precisa acelerar investimentos e políticas para reduzir o atraso no setor.

“O Brasil ficou fora do mundo quando esse tema evoluiu mais rapidamente. Nós chegamos, tínhamos perdido o bonde dessa discussão e agora nós vamos precisar de grande investimento nessa frente também”, declarou.

Integração América Latina e África

Faleiro também citou a integração do Brasil com a América Latina e o Caribe. Na avaliação dele, diante do atual quadro de fragmentação regional, a postura brasileira deve ser a de avançar no que for possível.

“Há dois fatores que complicaram muito a situação de integração regional. Primeiro, a eleição do [Javier] Milei, na Argentina e, segundo, o resultado do processo eleitoral na Venezuela em 2024, que criou uma situação de veto cruzado na região e levou à paralisia da nossa tentativa de reerguer a Unasul [União de Nações Sul-Americanas] e a própria Celac [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos], que hoje não consegue se articular para praticamente nada”, avaliou.

Sobre os países africanos, o assessor afirmou que o Brasil ainda é visto com simpatia histórica, resultado de ações desenvolvidas nos dois primeiros mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele ponderou, porém, que outros países avançaram nessa relação nos últimos anos.

“Agora, depois de dez anos de abandono à África, nós encontramos a África povoada de outros atores, com instrumentos muito mais eficazes para fazer política externa. Eu acho que a gente vai precisar repensar vários desses instrumentos que nós abandonamos, sobretudo o tema da cooperação”, disse.

Brics

Audo Faleiro também comentou a situação dos Brics, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Indonésia, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã. Para ele, a ampliação do número de membros, em 2023, foi um erro e contribuiu para o atual impasse no grupo.

“Eu acho que foi um erro. Hoje os Brics estão paralisados, porque existe conflito entre países do grupo [Irã e Emirados Árabes Unidos], agredindo-se militarmente. Vocês não viram até hoje uma declaração dos Brics sobre o conflito no Oriente Médio, porque não é possível ter consenso dentro do grupo. Então, eu acho que isso foi um equívoco, não sei se é possível reverter, provavelmente não”, afirmou.