Geral

Tecnécio-99: entenda o material radioativo envolvido em incidente em SP

Elemento usado em exames de medicina nuclear tem meia-vida curta; CNEN informou que não houve contaminação interna em trabalhadores do Ipen.

Estadao Conteudo 12/06/2026
Tecnécio-99: entenda o material radioativo envolvido em incidente em SP
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A confirmação de um incidente envolvendo traços de tecnécio-99 no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, levantou dúvidas sobre o elemento químico, suas aplicações na medicina e os possíveis riscos à saúde. Segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o caso ocorreu durante a retirada de sensores biológicos de uma máquina de esterilização utilizada no processo produtivo de um radiofármaco.

A Universidade de São Paulo (USP), responsável pelo campus da Cidade Universitária, e o Ipen não responderam às tentativas de contato do Estadão.

O 2º vice-presidente do Conselho Federal de Química, Wilson Botter, explicou que o tecnécio é um elemento químico radioativo utilizado principalmente na medicina diagnóstica.

“Ele é um elemento radioativo e artificial da tabela. Existe natural também, mas esse que nós usamos é produzido artificialmente a partir do molibdênio”, afirmou. Segundo Botter, o molibdênio também é radioativo e, ao emitir radiação, transforma-se em tecnécio. O processo integra a chamada desintegração radioativa, fenômeno em que um elemento químico se converte em outro ao liberar energia.

Por que o tecnécio é usado na medicina?

De acordo com o especialista, uma das principais características do tecnécio utilizado em exames é o curto tempo de meia-vida, de aproximadamente seis horas. Isso significa que a substância perde rapidamente sua atividade radioativa, condição que favorece seu uso em procedimentos médicos.

O elemento é empregado sobretudo em cintilografias, exames que permitem visualizar órgãos e tecidos por meio da emissão de radiação detectada por equipamentos específicos.

Botter explica que o tecnécio é associado a substâncias com afinidade por determinados órgãos ou tecidos. Após a aplicação no paciente, a radiação emitida pelo elemento é captada por detectores e processada por softwares, que geram imagens da área examinada.

“Você injeta o tecnécio no organismo. Esse tecnécio estará ligado a uma molécula com afinidade pelos ossos, quando é cintilografia óssea, ou pelo coração, quando é um exame cardiológico”, detalhou.

Quais são os riscos da exposição?

Botter afirma que materiais radioativos podem causar danos ao organismo quando há exposição suficiente para afetar células e moléculas do corpo. “Essa energia pode aquecer o material, pode destruir ligação química”, explicou. Em situações mais intensas, segundo ele, a radiação pode provocar alterações celulares e até mutações no DNA.

“Quando você altera a estrutura do DNA dentro da célula, essa célula pode começar a produzir uma célula mutante, porque ela tem um DNA diferente. E essa célula mutante a gente chama de câncer”, disse.

Apesar disso, o especialista ressalta que a gravidade dos efeitos depende da intensidade da exposição, da quantidade de material envolvida e do tempo de contato.

“Mas veja: essa radiação do tecnécio é de baixa energia, são raios gama. Para haver uma ação muito intensa, como a situação ocorrida com o urânio em Goiânia, seria necessária uma exposição alta, uma dosagem muito grande”, afirmou.

O que se sabe sobre o caso do Ipen?

De acordo com a CNEN, o incidente envolveu dois trabalhadores, que foram submetidos a exames in vivo, por meio do Contador de Corpo Inteiro. As contagens de radioatividade detectadas foram baixas e demonstraram que não houve contaminação interna. Ainda segundo a comissão, a contaminação ficou restrita à área controlada do Centro de Radiofarmácia do instituto.

Com base nas informações divulgadas até o momento, Botter afirmou não considerar o episódio grave. O especialista destacou que profissionais que atuam em laboratórios e centros de produção de radiofármacos seguem protocolos rigorosos de segurança.

“Esse tipo de contaminação não costuma ser grave, porque os técnicos são treinados e sabem com o que estão lidando”, declarou.

Ele também ressaltou a importância dos profissionais da química na produção de radiofármacos e em processos relacionados ao uso seguro de materiais radioativos na área da saúde.