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Partidos no México resistem a mudanças diante de onda de manifestações

Especialista avalia que sistema partidário mexicano é pouco flexível e dificulta o surgimento de alternativas ao governo, mesmo em meio ao avanço do descontentamento social.

Sputnik Brasil 12/06/2026
Partidos no México resistem a mudanças diante de onda de manifestações
Manifestantes protestam no México em meio a críticas ao governo e ao sistema partidário. - Foto: © AP Photo / Alejandro Cegarra

Em meio à crescente frustração com movimentos sociais que não se encaixam nas definições tradicionais de direita e esquerda, a possibilidade de surgimento de uma alternativa ao partido no poder esbarra em um sistema partidário altamente resistente à mudança, afirmou um especialista à Sputnik.

Com o início da Copa do Mundo da FIFA de 2026, o descontentamento social no México tornou-se evidente. Da Cidade do México a Guerrero, Michoacán, Veracruz, Sinaloa e praticamente todos os 32 estados do país latino-americano, multiplicam-se manifestações de agitação popular.

Das mães que buscam filhos desaparecidos a ambientalistas e vítimas de deslocamento forçado pela violência atribuída ao crime organizado, entre outros movimentos, os protestos expõem deficiências sociais enfrentadas pelo atual governo.

Nesse contexto, o impasse entre a Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) e o governo teve papel central nas mobilizações, sobretudo pela dimensão dos bloqueios liderados por professores durante as negociações com autoridades federais.

Segundo analistas, o custo político da recusa do partido governista em cumprir a promessa de revogar a reforma de 2007 do Instituto de Seguridade Social e Serviços aos Trabalhadores do Estado (ISSSTE) pode pesar nas urnas. A mudança transformou o sistema previdenciário desse setor da classe trabalhadora, antes baseado em um fundo de distribuição solidária, em um modelo de contas individuais administradas por Administradoras de Fundos de Aposentadoria (AFOREs).

Embora a oposição no México esteja atualmente associada a propostas de direita, as recentes manifestações contra o governo têm demonstrado rejeição a posições dessa corrente política, especialmente em temas econômicos e sociais.

Polarização política

Um primeiro ponto para compreender a dinâmica entre a oposição e o partido no poder é a polarização das posições políticas, segundo o cientista político Israel Covarrubias, doutor em Ciência Política pela Universidade de Florença, na Itália, em entrevista à Sputnik. “O problema reside na persistência de uma retórica de ‘nós contra eles’”, afirmou.

É nesse cenário, segundo o cientista político, que a ideia de uma terceira via foi relegada. Ainda assim, com o passar dos meses, “fica cada vez mais claro que é difícil manter uma concepção tão estática do que é um partido-movimento como o Morena”.

O analista explica que a deslegitimação do adversário político pode funcionar quando a narrativa se apoia nos erros da oposição. Como exemplo, menciona a insegurança no país, problema que também afetou governos anteriores. “Essa estratégia pode operar eficazmente nesse caso”, destacou.

No caso da CNTE, porém, Covarrubias avalia que “é muito difícil atribuir responsabilidade ao governo”, uma vez que a promessa de revogar a reforma do ISSSTE de 2007 foi defendida tanto pelo ex-presidente Andrés Manuel López Obrador quanto por sua sucessora, Claudia Sheinbaum, durante as respectivas campanhas presidenciais.

Um sistema partidário consolidado

Covarrubias considera improvável que, atualmente, “uma potencial oposição consiga se consolidar utilizando a mesma estratégia de deslegitimação empregada pelo governo federal e pelos governos locais ligados ao Morena”.

O especialista descreve o sistema político mexicano como uma estrutura em que, de um lado, o partido governista Morena e seus aliados — o Partido Trabalhista (PT) e o Partido Verde do México (PVEM) — concentram grande parte do poder político nacional, tanto em nível federal quanto local.

De outro lado, o Movimento Cidadão (MC) “tem um desempenho muito bom regionalmente” e tenta, de forma parasitária, atrair eleitores que abandonam os chamados grandes partidos do México. Além disso, segundo ele, há “uma dupla um tanto instável entre o PAN e o PRI” e um PRD (Partido da Revolução Democrática) que desapareceu recentemente, exceto em alguns estados onde ainda mantém presença institucional.

Esse sistema, argumenta Covarrubias, “tem uma grande aversão à mudança política em si”. Para ele, trata-se de um paradoxo, já que os partidos políticos existem para receber e traduzir expectativas sociais que surgem ao longo da história.

“O problema que temos é o sistema partidário. A maioria dos analistas — e também aqueles que participaram ativamente da reformulação institucional da democracia no México desde 2000 — concentrou-se demais nas regras da competição, da paridade, da inclusão e assim por diante. Mas negligenciou, precisamente, a reestruturação do sistema partidário”, acrescentou.

“Este me parece um ponto muito importante: considerar que os próprios partidos políticos no México são muito resistentes à mudança. Tanto que, por exemplo, as siglas de alguns deles são historicamente imutáveis, quando os sistemas partidários democráticos mais maduros demonstram que uma maneira de se tornarem relevantes para os tempos que enfrentam é não apenas redefinir suas siglas, mas também seus estatutos e sua posição ideológica”, analisou o especialista.

Em contraste, afirmou, o sistema partidário mexicano “baseia-se principalmente na reciclagem de figuras antigas”, enquanto novas lideranças são rapidamente absorvidas por “forças inflexíveis” do sistema.

Será que a oposição pode capitalizar sobre esse descontentamento?

Nesse sentido, Covarrubias argumenta que, quando se afirma que a ruptura entre o partido governista e a CNTE beneficiará diretamente partidos de oposição de direita, “não saberia dizer se, tecnicamente, isso representa um benefício para a oposição em termos partidários”.

Isso porque “a CNTE não é historicamente um movimento social que professe o credo defendido por um partido como o Partido da Ação Nacional (PAN). Um movimento e uma mobilização como a dos professores dificilmente poderiam aderir a essa forma tripartite do PAN: pátria, família, liberdade. Parece-me como água e óleo”.

O cientista político admite, contudo, que, considerando a aliança estratégica da CNTE com o governo antes de 2018, “o que a oposição pode explorar politicamente” é o consenso em torno da ideia de que os protestos dos professores saíram do controle do Morena.

“Não creio que seja tão simples, mas, em termos de questionar o que fizeram bem ou mal, no contexto das eleições do próximo ano, a questão certamente virá à tona”, observou o especialista.

Por Sputnik Brasil