Geral
Esfaqueamento desencadeia protestos anti-imigrantes na Irlanda do Norte
Ataque a faca em Belfast levou a duas noites de distúrbios, incêndios a casas e confrontos com a polícia; governo classificou episódios como “violência racista”
Um ataque a faca em uma rua da Irlanda do Norte desencadeou duas noites de violentos distúrbios, alimentados por discursos anti-imigração.
O suspeito, um sudanês de 30 anos que havia solicitado asilo no Reino Unido, foi acusado de tentativa de homicídio após o ataque ocorrido no norte de Belfast, na noite de segunda-feira, 8. Ele também responde por ameaça de morte e porte de faca.
Os protestos contra o crime resultaram em violência em Belfast e em outras áreas. Homens mascarados incendiaram casas que acreditavam abrigar imigrantes, atearam fogo a um ônibus e lançaram pedras e outros objetos contra a polícia.
O governo informou que mais de duas dezenas de pessoas perderam suas casas e que 12 policiais ficaram feridos. Na quinta-feira, o secretário de Estado para a Irlanda do Norte, Hilary Benn, classificou os episódios como “violência racista”.
Vídeo registrou o esfaqueamento
Segundo a polícia, Hadi Alodid usou uma faca de cozinha para cegar Stephen Ogilvie do olho esquerdo e provocar ferimentos profundos em sua cabeça, rosto e costas. Imagens fortes do ataque e da reação de transeuntes que imobilizaram o agressor se espalharam rapidamente pelas redes sociais.
Enquanto recebia atendimento por um ferimento na mão, Alodid ameaçou matar um radiologista.
“Matei alguém, não sei se a pessoa está morta”, disse Alodid à equipe médica, segundo um detetive ouvido no tribunal.
A polícia não divulgou a motivação do ataque, mas afirmou não acreditar que o caso tenha relação com terrorismo.
Alodid não se declarou culpado durante comparecimento ao tribunal na quarta-feira, 10, e teve a prisão preventiva decretada até a próxima audiência.
Prisão leva a protestos e violência
Consternadas com o crime, as autoridades pediram que os manifestantes mantivessem a ordem e a civilidade. Ainda assim, grupos com capuzes e máscaras pretas atiraram tijolos, pedras e rochas contra policiais, incendiaram lixeiras e queimaram veículos e casas.
“Quando o ataque aconteceu, na noite de segunda-feira, 8, sabíamos que isso iria acontecer”, disse à BBC Twasul Mohammed, refugiado sudanês que ajudou famílias obrigadas a deixar suas casas na terça-feira, 9. “Todos estão apavorados. Estamos mantendo nossos filhos em casa.”
A violência voltou a eclodir na quarta-feira, embora em menor escala. A polícia usou canhões de água contra manifestantes nos arredores de Belfast, que lançavam tijolos e pedaços de pedra arrancados de muros de jardins e pátios. Em Carrickfergus, dois policiais ficaram feridos por coquetéis molotov, informou a polícia.
Políticos de diferentes lados do governo de partilha de poder da Irlanda do Norte condenaram a violência.
Tumultos ocorreram após outros ataques com faca no Reino Unido
A violência lembrou os tumultos que atingiram a Inglaterra e partes da Irlanda do Norte há dois anos, depois que um adolescente matou três meninas e feriu gravemente outras dez pessoas em um ataque a facadas durante uma aula de dança perto de Liverpool.
Os distúrbios em Belfast ocorreram uma semana após manifestantes entrarem em confronto com a polícia em Southampton, no sul da Inglaterra, por causa da sentença de um homem condenado pelo assassinato a facadas de um estudante universitário.
Os três crimes envolveram suspeitos negros ou asiáticos e vítimas brancas.
Após os ataques, familiares das vítimas apelaram por paz e afirmaram não desejar violência em nome de seus entes queridos.
Outros fatores também contribuíram para inflamar os ânimos.
No caso das meninas assassinadas em Southport, em 2024, o suspeito foi identificado de forma equivocada nas redes sociais como um solicitante de asilo muçulmano. Mesmo depois de a polícia informar que ele era um cidadão britânico nascido no País de Gales — posteriormente revelado como filho de pais cristãos de Ruanda —, os protestos tiveram como alvo principalmente migrantes e muçulmanos.
A indignação com o esfaqueamento em Southampton concentrou-se no fato de que a polícia, ao chegar ao local de uma ocorrência registrada como agressão racista, confundiu a vítima, Henry Nowak, com o agressor.
Inicialmente, os policiais ignoraram os apelos de Nowak, que dizia ter sido esfaqueado e não conseguir respirar, e o algemaram enquanto ele agonizava.
Vickrum Digwa, que portava uma faca cerimonial usada por sikhs, mas utilizou uma adaga mais longa para esfaquear Nowak, mentiu à polícia ao afirmar que havia sido atacado pela vítima, disse o juiz William Mousley ao condená-lo à prisão perpétua.
Nigel Farage, líder do partido anti-imigração Reform UK, afirmou que o assassinato de Nowak seria um exemplo do chamado “policiamento de duas classes” — argumento recorrente da extrema-direita segundo o qual minorias étnicas receberiam tratamento melhor do que pessoas brancas.
Autoridades governamentais e policiais negam a existência desse viés. Muitos especialistas afirmam que o policiamento na Grã-Bretanha favorece pessoas brancas. Um relatório divulgado há três anos concluiu que a Polícia Metropolitana, a maior força policial do Reino Unido, apresentava racismo institucional.
Políticos se aproveitam de crimes para promover sua agenda
A reação aos ataques com faca reflete o avanço do sentimento anti-imigração em partes do Reino Unido e da Europa. O cenário é alimentado pelo debate político sobre solicitantes de asilo, travessias em pequenas embarcações e pressão sobre serviços públicos, além de ser intensificado por discussões nas redes sociais.
Manifestantes foram convocados pelas redes por ativistas do Reino Unido, incluindo Stephen Yaxley-Lennon, também conhecido como Tommy Robinson, e mobilizados por figuras influentes internacionais, como o empresário de tecnologia Elon Musk.
Musk publicou mais de 100 mensagens sobre política britânica, com foco especial no assassinato de Nowak, durante o período do julgamento de Digwa, e se ofereceu para financiar uma ação privada contra a polícia local.
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, em publicação no X, atribuiu o assassinato de Nowak à “invasão em massa de migrantes, muitos dos quais desprezam o Ocidente e as pessoas que o amam”.
O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, respondeu às críticas de Musk e Vance ao condenar pessoas que, segundo ele, “tentam interferir em nossa democracia e buscam fomentar a divisão em nossas ruas”.
Mark Rowley, chefe da Polícia Metropolitana de Londres, afirmou que a desinformação e as informações falsas online estão “bem no centro dos nossos desafios em relação à desordem pública”.
Alguns culpam a fronteira aberta entre a Irlanda e a Irlanda do Norte
Algumas figuras políticas apontaram para a fronteira praticamente aberta entre a Irlanda do Norte, que integra o Reino Unido, e a República da Irlanda. Segundo as autoridades, o suspeito chegou a Dublin vindo de Paris antes de seguir para o norte.
A fronteira é uma questão politicamente sensível. Permitir a livre circulação de pessoas é um dos pilares do processo de paz que, em grande parte, encerrou décadas de violência conhecidas como “The Troubles” — ou “Os Conflitos”. O confronto envolvendo militantes republicanos irlandeses, unionistas britânicos e forças de segurança do Reino Unido deixou quase 3.600 mortos antes do acordo de paz de 1998.
*Com informações da Associated Press.
Mais lidas
-
1PERFIL | JUSTIÇA
Quem é a juíza Elizabeth Machado Louro, responsável pelo julgamento do Caso Henry Borel
-
2ATAQUE NA PRAIA DE PIEDADE
Menino de 11 anos é atacado por tubarão e passa por cirurgia em Pernambuco
-
3ACIDENTE INDUSTRIAL
Fábrica de fogos de artifício pega fogo e causa explosões em Malta
-
4TÊNIS BRASILEIRO FAZ HISTÓRIA
João Fonseca quebra jejum de mais de 20 anos ao chegar às quartas de final de Roland Garros
-
5CASO HENRY BOREL
Atual mulher de Jairinho depõe no julgamento e minimiza relatos de violência: 'Defeito dele era a infidelidade'