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'Invadir, ocupar, destruir': brasileira narra à Sputnik vida dos libaneses sob ataques de Israel

Sputnik Brasil 10/06/2026
'Invadir, ocupar, destruir': brasileira narra à Sputnik vida dos libaneses sob ataques de Israel
Foto: © AP Photo / Hassan Ammar

Considerado por organismos internacionais um dos países mais vulneráveis da região do Oriente Médio, economicamente e socialmente, o Líbano vem enfrentando uma crise humanitária sem precedentes, devido aos bombardeios contínuos de Israel. Mais de 1 milhão de pessoas tiveram que abandonar suas casas, em um país com 6 milhões de habitantes.

A situação de calamidade da população libanesa é detalhada pela jornalista do site de notícias Opera Mundi Stefani Costa em entrevista ao podcast Mundioka, no programa desta quarta-feira (10).

A correspondente brasileira conta que já havia estado no Líbano em 2024, quando houve uma série de confrontos entre Israel e Líbano e o que mais lhe impressionou ao voltar à capital, Beirute, foi a crise humanitária com a qual se deparou:

"O cenário agora é muito mais grave, a gente tem mais de um milhão de pessoas deslocadas, que foram forçadas a deixar suas casas, e isso para um país que tem menos de 6 milhões de habitantes, é muita gente", conta ela.

O número de pessoas vivendo em tendas improvisadas, nas ruas, em abrigos públicos, espaços religiosos e universidades não para de aumentar, comenta: "Você encontra muita gente em situação de rua e em situação de vulnerabilidade", lamenta.

O contraste social também surpreende, segundo ela, onde alguns bairros de classes altas ostentam restaurantes luxuosos, hotéis de luxo, pessoas com carros importados e edifícios de alto nível vazios a poucos metros dos abrigos.

O estado de tensão é contínuo, pois os bombardeios podem começar a qualquer momento em qualquer lugar, pois diferentemente de Israel, na capital Tel Aviv e em outras grandes cidades, o Líbano não possui bunker, sirene ou sistema de comunicação entre a população libanesa.

Logo, conta, as notícias costumam vir das redes sociais do Exército israelense, que costuma informar locais e regiões que serão bombardeados.

"É lá que eles também fazem os avisos de evacuação forçada, avisos, mas que ferem o direito internacional humanitário, porque é um aviso de deslocamento, mas que não oferece nenhum tipo de segurança para que as pessoas possam fugir", lembra ela.

Os subúrbios do sul de Beirute, focos dos ataques de Israel, têm cerca de 800 mil pessoas. São bairros densamente povoados, com forte presença de imigrantes de vários lugares do mundo, inclusive muitos brasileiros, esclarece ela.

"É uma zona civil, é uma zona residencial e hoje, quando você passa ali por aquela região, encontra prédios completamente bombardeados, ruas desertas [...] uma quantidade enorme de restaurantes fechados, lojas fechadas, e a vida cultural também muito atingida. O turismo foi completamente atingido, principalmente no sul do Líbano, que é uma região muito turística".

A correspondente também desmente as declarações de Israel de que os pontos bombardeados são específicos, contra alvos do grupo Hezbollah.

"Eles atacam bairros, zonas civis, hospitais, regiões com centros de saúde, defesa civil. Então a gente fica sempre num clima muito tenso, porque não tem nenhum tipo de monitoramento a respeito".

Na semana passada, ela fez uma reportagem com crianças que sofreram ataques e bombardeios e estavam hospitalizadas, em um hospital que também sofreu bombardeios israelenses.

"Israel tem atacado infraestrutura hospitalar, ambulâncias. Mais de 130 profissionais de saúde já foram assassinados desde o dia 2 de março. Inclusive, eu entrevistei vários paramédicos, pessoal da defesa civil".

A jornalista relata alguns episódios em que testemunhou ataques muito próximos e a morte de vítimas civis, entre eles crianças, como quando um carro foi bombardeado por um drone:

"Duas crianças perderam a vida, os pais, junto com as crianças. Então, esse momento também foi muito tenso", lembra. "Entrevistar criança com o rosto estilhaçado, criança com os membros todos enfaixados ou amputados [...] sempre quando tem uma pauta com criança, é sempre pesado, é sempre muito difícil".

Desarmar o Hezbollah para acabar com um suposto terrorismo é pretexto para avançar na ocupação territorial e na limpeza étnica, defende ela:

"O modus operandi é o mesmo: invadir, ocupar, destruir e tomar para eles. Foi o que eles fizeram com Gaza e é o que eles estão fazendo aqui com o Líbano agora", opina. "Expulsar todo mundo, contratar empresas privadas para ir lá demolir as casas dos libaneses".

As promessas estadunidenses de fortalecer o Exército libanês também são vazias, segundo a correspondente brasileira:

"Até porque essa é uma arma que a Casa Branca tem para controlar a política interna libanesa e fazer ali o jogo com Israel para que Israel tenha, de fato, o controle, vamos dizer assim, regional. Então, assim, os soldados do Exército libanês hoje são muito mal remunerados".

Ela conta que os equipamentos são completamente sucateados, impotentes frente ao poderio bélico de Israel.

Para a jornalista foi graças à defesa da resistência libanesa com o apoio do braço armado do Hezbollah que Israel não avançou mais e matou mais no sul do país.

"Para o Exército israelense tem sido muito difícil avançar por terra", frisa, sobretudo, por meio dos drones que o Hezbollah tem usado, de fibra óptica e com visão noturna.

"Deu uma desestabilizada, uma preocupação, porque Israel viu que não tinha uma tecnologia para conter esses drones. Então isso deu uma certa mudança no cenário da guerra e fez com que Israel meio que se desesperasse", avalia.

Ela destaca que desde 2 de março de 2026 Israel matou mais de 3,6 mil pessoas, segundo dados do Ministério da Saúde.

"Mostram os próprios relatórios da ONU, Israel violou mais de 10 mil vezes o cessar-fogo de 2024, sem que o Hezbollah respondesse. Durante esse período, muita gente morreu na região sul. Cerca de 500 pessoas foram mortas até o dia 2 de março. Quando os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã no 28 de fevereiro, o Hezbollah passou a responder a partir do dia 2 de março", explica.

Hezbollah e a população

Considerado uma organização terrorista por Israel, o Hezbollah tem uma base social muito forte no Líbano, conforme destacou Stefani, com amplo apoio popular.

"É um partido político que possui representação no governo, possui ministros de Estado, que participa da política nacional e que tem um braço armado que justamente foi criado lá em 1982, quando surge o Hezbollah [...] criado justamente para impedir o avanço e as invasões que Israel tem cometido contra o território libanês desde sempre".

A jornalista pondera que uma parte da população, principalmente entre os cristãos maronitas, ainda reforça a narrativa de que o problema é o Hezbollah e o Irã, e não Israel.

"Há aqui partidos de direita e de extrema direita que apoiam Israel, inclusive."

Entretanto, a ocupação do território, expulsão de famílias e assassinatos de crianças por parte de Israel tem feito com que o senso comum questione essa situação, avalia.

Na última resposta do Irã a Israel pelos ataques no sul do Líbano, ela presenciou cenas das pessoas indo para a rua comemorar, "porque a gente via aqui os mísseis atravessando, indo para o território norte de Israel, então dava para ver", conta Costa.

Desinteresse da grande mídia

Embora Costa esteja entre os poucos jornalistas internacionais cobrindo os ataques, ela critica que a grande mídia tem ignorado o material jornalístico produzido in loco:

"Está cada vez mais difícil oferecer essa pauta para os veículos brasileiros. A gente tem sofrido uma dificuldade, nós jornalistas que estamos aqui, de ter um espaço na grande mídia", salienta. "Com essa questão de uma guerra que parece que nunca se resolve, agora tem a Copa do Mundo, os olhares estão voltados para outras coisas, tem sido um pouco mais complicado".

A denúncia da prática do uso de fósforo branco em território libanês por Israel é feita desde 2024, e ainda assim é praticamente ignorada pelos meios de comunicação de maior repercussão.

"É uma arma que derrete a pele das pessoas e que vai causar danos futuros para as próximas gerações. Isso é terrível, porque é um crime de guerra, contra todas as diretrizes do direito humanitário internacional [...] a passividade da comunidade internacional diante disso é preocupante, é muito grave", lamenta.

"A mídia fica focando em 'ah, são xiitas, muçulmanos', não, eles estão matando cristãos, eles estão matando todo mundo [...] já mataram um padre católico, muitos cristãos, bombardearam bairros cristãos aqui em Beirute, inclusive".

As grandes e poucas plataformas de redes sociais também não dão trégua, destaca:

"Tenho sofrido uma censura muito grande nas redes sociais por conta dos algoritmos. Então, também tem sido uma batalha muito difícil. Mas estou aqui, tentando mostrar os crimes de guerra que Israel tem cometido contra o povo libanês".

Dentre os motivos da censura, ela elencou o lobby sionista que controla muitos meios de comunicação.

"Vejo que a mídia brasileira tem cuidado em abordar a questão do Líbano, mas ao mesmo tempo é muito curioso, porque o Brasil abriga a maior diáspora libanesa do mundo e hoje aqui no Líbano são mais de 20 mil brasileiros residindo".

Ao defender a relevância do trabalho jornalístico em cenário de guerra, para "sentir as pessoas", ouvir a população, ela lamenta que atualmente a maioria das matérias sejam feitas das redações, copiando conteúdo de agências internacionais.

"Falta esse investimento na reportagem. Nas grandes mídias, nos grandes jornais, se dá muito mais valor aos comentaristas sobre um determinado assunto do que à reportagem em si, aquele trabalho de apuração, de responsabilidade, de verificar fatos, de levar o repórter até o local para fazer aquele face-to-face, olhar no olho: isso é insubstituível".

Vantagens de ser mulher e brasileira no Líbano

Segundo Costa, ser brasileira ajuda muito o trabalho de entrevistas e investigação no Líbano, onde diz ser muito bem recebida tão logo informa sua nacionalidade.

Seja pelo futebol, música, culinária, a cultura, os libaneses mostram-se identificados com o país sul-americano, por também ser um povo alegre e receptivo, pondera: "Gosta de festa, fala alto igual o brasileiro fala, tem essa conexão".

Ser mulher também facilita o trabalho, acredita:

"Tem ajudado no sentido de conseguir, às vezes, histórias que geralmente homens não conseguiriam por conta dessa barreira religiosa", diz, referindo-se ao fato de a população do país ser majoritariamente muçulmana, e mulheres não se sentirem à vontade para falar com pessoas estranhas do sexo masculino.

"Em momento algum, me senti reprimida, pressionada. Pelo contrário, o Líbano não é um país teocrático. Ele é sectário, mas não é teocrático. Não tem uma única religião no poder. Aqui, o parlamento é dividido entre maronita, cristão maronita, os muçulmanos xiitas e sunitas. Então, existe uma diversidade".