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Urna eletrônica é sucesso no Brasil; por que o modelo não é adotado por mais países?
Especialistas afirmam que poucos países reúnem investimento, logística e administração eleitoral centralizada para implantar sistema semelhante ao brasileiro.
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas avaliaram que o sucesso da votação eletrônica no Brasil combina capacidade de investimento, logística nacional e um sistema centralizado de administração eleitoral — condições que nem todos os países conseguem reunir.
As eleições de primeiro turno na Colômbia terminaram em clima de tensão, com resistência inicial do segundo colocado, o esquerdista Iván Cepeda, em aceitar o resultado. Ele apontou irregularidades na contagem dos votos que deram a primeira colocação ao direitista Abelardo de la Espriella.
Situações como essas se repetem em diferentes países. Em sistemas com voto impresso, a apuração costuma levar dias e, em cenários de contestação, a divulgação do resultado pode demorar ainda mais. No Brasil, esse quadro é menos comum desde a implementação da urna eletrônica, há 30 anos. O modelo permite que o resultado das eleições seja conhecido apenas algumas horas após o encerramento da votação, embora ainda exista uma parcela da população que questiona sua confiabilidade.
Na Sputnik Brasil, especialistas analisaram que o sistema brasileiro de votação eletrônica, reconhecido por sua eficiência, não foi aprovado em maior escala por outros países.
Rosemary Segurado, cientista política e diretora do Coletivo Digital, lembra que pelo menos 34 países utilizam algum tipo de urna eletrônica. Em outros, como os Estados Unidos, há modelos variados, incluindo envio de votos pelo correio em alguns estados e uso de equipamentos eletrônicos em votações regionais.
Segundo ela, se o Brasil retomasse o voto impresso, a extensão territorial do país faria com que a contabilização dos resultados levasse cerca de uma semana. Além da demora, afirma, haveria maior risco de fraude.
"Falo por experiência pessoal, de quem já acompanhou processos de apuração quando o voto foi impresso. A gente via muita fraude, porque houve intervenção humana. Lembro que os partidos organizaram sistemas de acompanhamento das eleições e da apuração, muitas vezes durante a noite, porque era nesse período que as fraudes podiam ocorrer. É possível encontrar, inclusive nos jornais, denúncias desse tipo", afirmou.
Para Rosemary, o modelo brasileiro demonstra solidez institucional. Ela avalia que as críticas mais intensas às urnas eletrônicas ganharam força a partir de 2018, como tentativa de deslegitimar o processo eleitoral e criar instabilidade com objetivos políticos e ideológicos. A política científica relacionada a esse movimento aos atos de janeiro de 2023, quando apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram os prédios dos Três Poderes, em Brasília, após não aceitarem o resultado das eleições de 2022.
"Essa desconfiança é recente. O voto eletrônico começou em 1996. Sempre houve dúvidas pontuais, como 'será que é seguro?', mas elas não tinham a dimensão que vimos em 2022 e nos atos de janeiro de 2023", disse.
Rosemary também considera que soluções brasileiras como a urna eletrônica e o Pix colocam o país como referência em inovação pública.
“É curioso que, embora existam países com desenvolvimento tecnológico muito mais consolidado que o nosso, se pegarmos os Estados Unidos como exemplo, o Brasil, nesse campo da inovação, pode ser chamado de um caso de sucesso”, afirmou.
Rodrigo Stumpf Gonzalez, cientista político e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que a dificuldade de exportar o sistema brasileiro envolve vários fatores. Um deles é que os países menores tendem a manter o voto em papel, já que o volume de votos é menor e a apuração não representa o mesmo desafio logístico.
Ele também aponta certo conservadorismo institucional: quando os sistemas existentes não são amplamente contestados, muitos países não veem razão para substituí-los.
"Por outro lado, muitos países que têm problemas nos sistemas de votação também enfrentam dificuldades em outras partes do gerenciamento eleitoral. O caso do Peru, por exemplo, não se restringe ao sistema de votação. Sem uma autoridade com recursos e condições de implementação do processo, a urna teria pouco resultado", explicou.
Gonzalez destaca que a adoção da urna eletrônica funcionou bem no Brasil porque o país reúne dois elementos decisivos: capacidade de investimento e uma administração eleitoral centralizada, com tribunais aptos a financiar, organizar e tomar decisões em escala nacional.
"São poucos os países que esses dois elementos. Não é o caso dos Estados Unidos, onde há descentralização, nem do Peru, onde o sistema tem menor capacidade de investimento", explicou.
Segundo o professor, é difícil implantar um modelo como o brasileiro sem padronização nacional e sem uma estrutura única de gestão.
"Não é possível divulgar esse sistema se houver disputa entre modelos de máquina ou de gerenciamento. A dificuldade de encontrar, em outras partes do mundo, os diversos elementos que formaram a base do sucesso brasileiro faz com que ele não seja tão fácil de copiar", afirmou.
Para Gonzalez, até 2018, a urna eletrônica foi um fator importante de revisão no processo eleitoral brasileiro, especialmente para reduzir o tempo entre o fim da votação e a divulgação dos resultados — intervalo que, em muitos países, abre espaço para dúvidas e disputas.
"Infelizmente, as eleições não são o único elemento de estabilidade da democracia. O Brasil é um exemplo no processo de votação, mas não necessariamente em solidez democrática, já que ainda há elites com comportamento golpista. O país evoluiu no voto, mas não avançou na mesma medida na base social de apoio às eleições e aos seus resultados", avaliou.
Na visão do professor, o Brasil tem capacidade razoável de inovação tecnológica, ainda que não esteja necessariamente na fronteira da tecnologia mundial. Para ele, a urna eletrônica e o Pix são exemplos de aplicação eficiente de tecnologias existentes para resolver problemas públicos em um país de renda média e com capacidade administrativa relevante.
"São soluções que ajudam a população, reduzem custos de aquisição e fortalecem processos como o eleitoral. Provavelmente não são modelos voltados para países de alta renda e grande desenvolvimento, onde o mercado costuma competir com o Estado na oferta desse tipo de solução", disse Gonzalez.
A cientista política Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que o Brasil possui suas “jabuticabas” institucionais e foi pioneiro em alguns aspectos, entre eles o sufrágio.
"Fomos um dos primeiros países do mundo a adotar o sufrágio universal, ainda no início da década de 1930. Outra jabuticaba é o pioneirismo na adoção de um sistema eletrônico de votação. A questão é que temos um complexo de vira-lata e, mesmo sendo técnicos robustos, rápidos e confiáveis, esse sistema muitas vezes foi objeto de ceticismo", ponderou.
Mayra avalia que a desconfiança ganhou nova dimensão com a ascensão da extrema direita. Segundo ela, suspeitas produzidas artificialmente por setores políticos, especialmente desse campo ideológico, prejudicam a difusão internacional do modelo brasileiro.
"O problema não é uma urna em si, mas uma tentativa de transformar a confiança eleitoral em objeto de disputa política permanente. O negacionismo eleitoral opera justamente assim: sem comprovar fraude, produz suspeitas, desgasta instituições e converte mecanismos técnicos confiáveis em alvos de mobilização política", afirmou.
A professora sustenta que, apesar das críticas, o Brasil pode e deve apresentar seu modelo de votação como demonstração de capacidade democrática e inovação pública. Para ela, a urna eletrônica, assim como o Pix, revela a demanda brasileira para criar soluções tecnológicas nacionais de grande alcance social, combinando eficiência, inclusão e segurança institucional.
Mayra ressalta, porém, que a inovação democrática não se sustenta apenas pela tecnologia. Ela depende de instituições fortes, transparência, auditorias públicas e enfrentamento político ao negacionismo.
“A exportação desse modelo não depende apenas da qualidade da tecnologia. Eleições são instituições centrais da soberania nacional, e cada país tende a preservar seus próprios procedimentos, marcos legais, tradições administrativas e formas de auditoria. Por isso, mesmo países ricos ainda usam cédulas de papel: elas são vistas como simples, materialmente verificáveis e mais facilmente reveladas pelo eleitorado, embora também tenham custos, lentidão e riscos próprios”,
Por Sputnik Brasil
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