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Europa acelera rearmamento e pode sacrificar bem-estar, alerta analista francês
Para Côme Carpentier de Gourdon, busca por autonomia militar após décadas de dependência dos EUA pode elevar gastos, reduzir benefícios sociais e ampliar divisões na União Europeia
Em entrevista à Sputnik, o analista geopolítico francês Côme Carpentier de Gourdon afirmou que o rearmamento europeu reflete a busca por autonomia militar após décadas de dependência dos Estados Unidos. Ele alerta, porém, que o custo financeiro e social dessa estratégia pode reduzir o padrão de vida e aprofundar divisões internas na União Europeia (UE).
Enquanto lideranças políticas da UE priorizam o rearmamento em meio às tentativas de paz entre Rússia e Ucrânia, especialistas demonstram preocupação com os movimentos de Bruxelas. Para Carpentier de Gourdon, a guinada militar revela uma antiga ambição de autonomia estratégica, mas também expõe riscos econômicos e políticos.
Segundo o analista, o bloco tenta compensar anos de subfinanciamento em defesa e de dependência do apoio militar norte-americano.
“Existe, há muito tempo, o desejo de criar uma força militar que possa atuar como um fator independente global e sem depender do apoio e respaldo dos EUA. E a Alemanha está certamente muito interessada nisso, e a União Europeia, sob a influência da Alemanha e, claro, do Reino Unido”, afirma Carpentier, ao destacar o papel central de Berlim nesse projeto.
Ele observa que França, Alemanha e Reino Unido estão empenhados em construir uma defesa considerada crível, mas alerta para os desafios de coordenação e liderança. “É difícil colocar o Exército de um país sob o comando de outro”, diz, ao lembrar que a integração militar europeia ainda levará anos para se concretizar.
Carpentier acrescenta que, para justificar o aumento dos gastos militares, é necessário definir um inimigo comum.
“E, neste caso, a Rússia é o inimigo, com a China talvez em segundo lugar, como uma potencial ameaça no futuro. Então, naturalmente, essa é uma política, um estratagema para unir as lideranças europeias, senão os cidadãos europeus”, destaca, ao avaliar que a estratégia busca unir governos e preparar a opinião pública para sacrifícios econômicos.
Com a dívida pública da UE projetada para atingir 85,3% do produto interno bruto (PIB) até 2027, o analista considera a militarização da economia uma estratégia de curto prazo.
“Mas [...] a Europa teria de vender armas para tornar a política de rearmamento viável. E está competindo com vários outros atores, incluindo Estados Unidos, Rússia, China, Índia até certo ponto, e países menores como Israel e outros, que também produzem armas e as vendem. Até mesmo o Brasil pode ser considerado um jogador relativamente menor”, resume. “Mais armas significam menos conforto e menos benefícios sociais.”
Ele alerta ainda que os europeus estão sendo preparados para aceitar perdas econômicas em nome da segurança. “Estão sendo convencidos de que devem pagar mais impostos e renunciar a parte do bem-estar para garantir a defesa comum”, afirma, classificando o processo como uma “mobilização psicológica”.
Na Alemanha, o debate sobre o uso de fundos de pensão em ações de empresas de defesa, como a Rheinmetall, exemplifica os riscos. Carpentier lembra que o retorno financeiro é incerto. “A menos que se vendam muitas armas para outros países, o lucro será baixo”, diz, ao observar que o setor depende de exportações para se sustentar.
O analista também aponta que a competição entre França, Alemanha e Reino Unido pode fragmentar o mercado europeu de defesa.
“Embora o Reino Unido não faça parte da UE, ele ainda joga o jogo de certa forma. E então a questão é quem vai ganhar com isso, porque provavelmente haverá competição, a menos que algumas das principais empresas sejam absorvidas por outras empresas de outros países. E, portanto, de certa forma, podem criar uma espécie de pool de defesa europeu, que se torna monopolista e não permite muita competição. Essa é uma opção, mas não é uma opção muito boa”, afirma.
Por fim, Carpentier destaca o papel de países externos ao bloco, como a Turquia, que, embora seja membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), não integra a UE. “A relação com Ancara será um teste para a coesão europeia”, afirma. “Se a Europa enxergar a Turquia como rival, o projeto de defesa comum pode se tornar ainda mais instável”, conclui.
Por Sputnik Brasil
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