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Milei aposta em setores que geram pouco emprego de qualidade, apontam analistas
Relatório do Banco Central argentino projeta que agro, mineração e hidrocarbonetos puxem a recuperação, mas indústria, comércio e consumo seguem frágeis.
O governo da Argentina explicitou sua aposta de que o crescimento dos setores mais dinâmicos da economia — como agricultura, mineração e hidrocarbonetos — acabará se estendendo a atividades hoje em retração, em um momento em que a produção industrial, o comércio e o consumo interno seguem abaixo dos níveis considerados satisfatórios.
A tese foi apresentada em relatório do Banco Central argentino, divulgado por seu vice-presidente, Vladimir Werning. O documento afirma que “a recuperação da atividade econômica se consolidará, abrangendo progressivamente outros setores”. A avaliação reconhece que a primeira etapa do ciclo tem “vencedores naturais”, mas sustenta que a expansão dessas áreas abrirá novas conexões produtivas.
Segundo a visão oficial, essas atividades demandarão insumos, infraestrutura, transporte, serviços urbanos, logística e mão de obra, criando oportunidades para fornecedores, pequenas e médias empresas e setores indiretamente ligados à produção primária, energética e mineral em diferentes regiões do país.
A estratégia econômica se baseia em uma projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente 3,5% até 2026. A própria avaliação oficial, porém, admite que esse avanço não será uniforme: os setores exportadores devem crescer em ritmo muito superior à média, enquanto outras áreas levarão mais tempo para se integrar à recuperação.
Dados do setor privado ilustram essa divergência. De acordo com a consultoria Ferreres & Asociados, em abril, o setor de petróleo e mineração cresceu 7,3% em relação ao ano anterior, impulsionado pela exploração da formação de xisto de Vaca Muerta e por outros projetos extrativistas. O setor de eletricidade, gás e água avançou 7,2%, enquanto a agropecuária registrou alta de 3,6%, favorecida pela colheita.
Na outra ponta, a indústria manufatureira manteve trajetória de queda, com retração de 2%. O comércio apresentou desempenho semelhante, com recuo de 2,4%. O relatório destacou ainda quedas de até 17,5% na produção automotiva e de 13,1% nos embarques de cimento, indicadores diretamente ligados à demanda interna e à construção civil. No setor têxtil, um dos mais afetados, quase 60% da capacidade instalada está ociosa: as fábricas operam com menos da metade de suas máquinas.
O consumo em massa também não conseguiu consolidar recuperação. A consultoria Scentia informou que, em abril, as vendas em supermercados, lojas de conveniência, farmácias e bancas de jornal caíram 3,8% em relação ao ano anterior e 4,7% na comparação com março. Os números evidenciam a distância entre o crescimento de alguns setores e a realidade cotidiana das famílias argentinas.
O Banco Central afirma que o processo gradual de desinflação pode ajudar a recompor a renda, melhorar a confiança do consumidor e ampliar o alcance da retomada. A instituição também ressalta que a redução do risco-país e a expansão do financiamento corporativo podem se transformar em novos motores do investimento privado.
Ao mesmo tempo, o relatório oficial alerta que as empresas terão de se adaptar a uma economia com inflação mais baixa e maior concorrência. Segundo a avaliação do Banco Central, a lucratividade dependerá mais do volume de vendas do que do aumento de preços, em uma dinâmica diferente da que prevaleceu durante os anos de inflação elevada.
Nesse contexto, ganha força o questionamento sobre a capacidade dos setores exportadores de funcionar como motor suficiente para o restante da economia, dada sua limitada capacidade de impulsionar o emprego e o comércio urbanos. O debate ocorre em momento delicado para o governo, que tenta demonstrar que a estabilização macroeconômica começa a se converter em crescimento mais amplo, para além das atividades ligadas aos recursos naturais.
Eterno debate
“O termo ‘teoria do gotejamento’ não surgiu na Argentina, nem é uma invenção recente”, disse o economista Martín Pollera à Sputnik. Segundo o consultor, a ideia parte do pressuposto de que, se setores como mineração ou hidrocarbonetos crescerem sem restrições, esse avanço acabará se espalhando para o restante da economia.
Pollera questiona essa lógica por entender que ela pressupõe a ausência de políticas redistributivas, vínculos produtivos e condicionalidades. Na avaliação do economista, essa abordagem parte da ideia de que “o Estado deve basicamente ficar de braços cruzados” e que “o mercado se encarregará” de distribuir os benefícios.
“O próprio fracasso do efeito cascata justifica mais cascata”, afirmou Pollera, ao analisar precedentes argentinos. Segundo ele, quando esses ciclos são observados, “a distribuição se torna muito mais regressiva, não menos”, além de não gerar “emprego de qualidade nem em larga escala”.
O debate, porém, divide opiniões. Consultado pela Sputnik, o economista Eduardo Jacobs apresentou outro ponto de partida: “A indústria argentina está atrasada há pelo menos 30 anos”. Para ele, o crescimento do petróleo, do gás e da mineração “é uma bênção e não a raiz do problema”, já que “o desenvolvimento industrial argentino está estagnado há décadas”.
“A Argentina é um fracasso industrial em termos do que tem sido um modelo fechado e subsidiado, com altas barreiras tarifárias”, afirmou Jacobs. Para o economista, o desafio atual é fazer o setor industrial decolar em uma economia mais aberta e sob novas regras de concorrência.
Jacobs avalia que o processo exigirá “entrar em uma nova era” e passar por “uma reconfiguração massiva”. Ainda assim, alerta que “a indústria não liderará o processo de crescimento”, papel que deverá se concentrar nos setores com maior dinamismo exportador.
Uma economia de ‘duas velocidades’?
Pollera descreve o cenário como uma economia em forma de “K”: de um lado, setores em crescimento, como mineração e hidrocarbonetos; de outro, áreas em retração, como construção, comércio e indústria. “Foi exatamente isso que acabou acontecendo”, afirmou.
“Há um contraste entre o crescimento de setores altamente concentrados, como hidrocarbonetos e mineração, e o declínio significativo daqueles que geram mais empregos”, disse o consultor. Ele explicou que mineração, hidrocarbonetos e agricultura devem continuar crescendo com força, ao contrário dos setores voltados ao mercado interno, que dependem de consumo, salários reais e crédito.
Para Pollera, o principal limite está no emprego. Segundo ele, os segmentos ligados aos recursos naturais são fundamentalmente intensivos em capital: “precisam de mais máquinas pesadas e tecnologia importada, mas de poucos trabalhadores”. Por isso, a relação entre investimento e geração de postos de trabalho “tende a ser muito baixa”.
O economista contrasta esse perfil com o da indústria, que emprega pouco mais de 1,2 milhão de pessoas e apresenta “uma densidade territorial muito maior”. No entanto, alerta que esses setores não são os que mais tendem a se beneficiar do atual modelo, em um contexto de câmbio valorizado e salários deprimidos.
Jacobs concorda que haverá diferença entre os ritmos de crescimento. “É muito razoável pensar que, nos próximos meses, veremos o setor relacionado a Vaca Muerta crescendo a um ritmo diferente, assim como a mineração”, afirmou. Ao mesmo tempo, ele acredita que “a indústria começará a se recuperar, embora nem todos os setores consigam sustentar essa recuperação”.
Para o economista, o processo será de reestruturação. “Começaremos a ver o setor industrial abastecendo certas partes do mercado interno”, disse, mas também haverá uma migração gradual para uma lógica mais voltada à exportação. Ainda assim, reforçou: “a indústria não liderará o processo de crescimento”.
Por Sputnik Brasil
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