Geral

Mídia: China acelera autossuficiência e impõe risco estrutural ao futuro do agro brasileiro

08/06/2026
Mídia: China acelera autossuficiência e impõe risco estrutural ao futuro do agro brasileiro
Foto: © Foto / Fernando Frazão/Agência Brasil

A guinada estratégica da China para reduzir em até 25% suas importações de soja até 2030 acende um alerta no agronegócio brasileiro, que depende fortemente do mercado chinês e pode enfrentar queda simultânea de preços e demanda caso não diversifique seus destinos.

O agronegócio brasileiro enfrenta uma ameaça estrutural inédita devido à decisão da China de reduzir sua dependência das importações agrícolas, especialmente de soja e carne bovina. O país asiático, que absorve 71% da soja e 54% da carne bovina exportadas pelo Brasil, incluiu no seu 15º Plano Quinquenal metas para diminuir essa vulnerabilidade estratégica.

A projeção chinesa indica uma queda de 25% nas importações de soja até 2030, o que representa 23,5 milhões de toneladas — quase um terço do que o Brasil vendeu ao país em 2024, segundo levantamento da mídia brasileira. Sem compradores alternativos com escala semelhante, o Brasil corre o risco de enfrentar simultaneamente queda de preços e excesso de oferta, afetando terras agrícolas e infraestrutura logística.

A mudança decorre da adoção, pela China, de um modelo de desenvolvimento agrícola inspirado no sucesso industrial em setores como painéis solares e veículos elétricos (VEs). No novo plano, a segurança alimentar foi elevada ao mesmo nível de prioridade da segurança energética e financeira, com foco em autonomia tecnológica e redução do déficit agrícola de US$ 124,5 bilhões (mais de R$ 643,8 bilhões).

Embora reconheça limitações estruturais — apenas 8% das terras aráveis do mundo para 15% da população —, a China busca uma "dependência segura" baseada em diversificação e inovação. Consultorias como a Systemiq alertaram a um jornal de grande circulação no país, que o Brasil ainda não demonstra senso de urgência diante da transformação em curso.

O plano chinês prevê forte estímulo estatal, com crédito barato, subsídios e investimentos contínuos em pesquisa, permitindo que empresas escalem produção antes mesmo da viabilidade comercial comprovada. A estratégia inclui agricultura vertical, biotecnologia avançada e expansão de áreas irrigadas e mecanizadas.

Para o coordenador do Núcleo Insper Agro Global, Marcos Jank, "as metas são concretas: produção de 725 milhões de toneladas de grãos por ano, mais que o dobro da produção brasileira; expansão de terras de alto padrão com irrigação e mecanização; sementes soberanas com biotecnologia em larga escala; mais seguro e crédito, e melhor infraestrutura no campo", ponderou.

A China também avança em biotecnologia, tratando sementes como ativo estratégico comparável a semicondutores. Variedades locais de milho e soja geneticamente modificadas já foram aprovadas, com ganhos de produtividade entre 6% e 13%. Paralelamente, o país reestrutura suas rações animais para reduzir drasticamente o uso de farelo de soja.

De acordo com a apuração, empresas como a gigante Muyuan Foods já reduziram a inclusão de soja nas rações para 5,7%, economizando 31 kg por animal. A primazia chinesa na produção de aminoácidos acelera essa transição, tornando economicamente viável a substituição proteica em larga escala.

A longo prazo, a China pretende deixar de ser o maior importador agrícola do mundo para se tornar exportadora líquida de aves, laticínios, ovos e produtos aquáticos até 2040. O país também investe em proteínas alternativas — vegetais, fermentadas e cultivadas — que podem suprir até 55% da demanda doméstica de carne em 2050.

Nesse cenário, o Brasil segue visto como fornecedor essencial no curto prazo, mas a crescente autossuficiência chinesa tende a elevar exigências ambientais e de rastreabilidade, aproximando-as dos padrões da União Europeia (UE), o que exige do agro uma adaptação e reposicionamento estratégico no mercado global.


Por Sputinik Brasil