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Velhos interesses, novas estratégias: como avaliar a última visita de Macron à África?
O presidente da França, Emmanuel Macron esteve no Egito, no Quênia e na Etiópia no mês passado. O objetivo, segundo analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, foi aumentar a zona de influência em países que não são francófonos, uma vez que Paris vem perdendo espaço no continente africano.
Na primeira metade do mês de maio, uma aparição de Macron pedindo silêncio durante uma apresentação no Quênia ganhou o noticiário ocidental, sendo, talvez, a grande manchete da passagem do mandatário pela África.
O que talvez tenha ficado em segundo plano para a mídia, foi a reunião com mais de 40 chefes de Estado Nairóbi, além do anúncio de cerca de €34 bilhões em investimentos no continente africano.
Especialistas ouvidos pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, avaliam o movimento francês como uma tentativa de redesenhar sua presença no continente. E o faz com urgência, porque sabe que está perdendo terreno.
A expulsão das tropas francesas do Mali, Burkina Faso e Níger, países do Sahel que historicamente estiveram sob forte influência de Paris, pode ser lida como o pano de fundo que explica a excursão francesa ao continente africano, diz Vitória França, mestranda em ciência política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e pesquisadora de Oriente Médio e Norte da África.
"A crise no Sahel e a falta de influência francesa nessa região é o ponto-chave para entender toda a movimentação da França em 2026".
Por que o Quênia?
A escolha de Nairóbi como palco central da ofensiva diplomática francesa não foi por acaso. Diferentemente dos países do Sahel, o Quênia é uma ex-colônia britânica, com economia considerada dinâmica, estabilidade política relativa e um papel relevante como polo tecnológico e de segurança regional, segundo os analistas.
Para o professor Márcio Sette Fortes, professor de relações internacionais do Ibmec, o país representa uma âncora estratégica: "O Quênia se posicionou muito bem na questão de transição energética, há investimentos franceses em infraestrutura como portos e ferrovias, e existe um pacto de cooperação militar de longo prazo já delineado."
Lucien Agossou, doutor em relações Internacionais do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), reforça essa leitura ao apontar que o Quênia representa uma "nova África" para os olhos das potências ocidentais: estável, dinâmico e disputado por China, Rússia, Índia e países do Golfo.
"A França não quer se limitar às suas antigas colônias. Ela quer se aproximar do Quênia para ampliar sua presença na África Oriental e construir novas alianças", afirma.
Já em relação ao que o Quênia ganha, os especialistas apontam a diversificação de parceiros para o país africano. Agossou destaca que "é uma oportunidade que o Quênia tem que aproveitar para discutir com vários parceiros e não se alinhar atrás de um parceiro só".
Sette Flores recorda que Nairóbi sediou recentemente uma cúpula em busca de um parceiro estável e a França se apresentou como esse candidato a contribuir com avanços em larga escala, como modernização de infraestruturas e transição energética.
Ampliação de influência esbarra pode esbarrar em China e Rússia?
O avanço da China, sobretudo com a Nova Rota da Seda é inerente. Pequim tornou-se o maior parceiro comercial do continente africano, concentrando investimentos em infraestrutura, mineração e combustíveis. A Rússia ocupa outro nicho: cooperação militar e influência no Sahel, exatamente de onde a França foi expulsa.
"São os dois grandes concorrentes da França na África hoje", afirma Vitória França. "Na presença militar e no Sahel, a Rússia tem maior prestígio, principalmente na África Oriental. A China, por sua vez, tem ganhado muito mais espaço em questões econômicas e geopolíticas."
Outros países que têm ampliado a presença no continente com a queda de influência francesa no Sahel e com as "rusgas com a Argélia" são Turquia e Índia, conforme apontam os analistas.
Agossou acrescenta que a vantagem chinesa é também de custo. "A presença chinesa para os países africanos é mais barata do que a presença francesa." Já Sette Fortes lembra que a entrada do Egito e da Etiópia nos BRICS sinaliza um desafio crescente à hegemonia ocidental no continente.
Parcerias horizontais ou neocolonialismo?
A França ainda se manifesta no continente, sobretudo em suas ex-colônias de três formas, conforme aponta Sette Flores: política, militar e econômica. Um exemplo, segundo o analista é a presença do Franco CFA ainda utilizado por países como Senegal, Costa do Marfim, Camarões e Níger. A moeda tem suas reservas custodiadas em Paris, limitando a soberania monetária dessas nações.
De acordo com Vitória França, este é um modelo que Paris encontrou para "continuar presente no território africano". O desafio, agora, "é mudar essa retórica e se colocar mais como um aliado horizontal", acrescenta.
A analista aponta, ainda, que a França tenta dar uma guinada discursiva — Macron chegou a se autodeclarar "pan-africanista" durante a cúpula, frase que ela considera "problemática" — mas pondera que mudança retórica não equivale a mudança estrutural.
"A política externa francesa para a África é extremamente moldada a partir do colonialismo". Dessa forma, ela coloca que mesmo tentando, o presidente francês não consegue totalmente se desvincular de comportamentos que posicionam a França como um Estado superior.
Já Agossou relata que pelo aspecto de desenvolvimento francês em relação aos países africanos, os acordos tendem a serem verticais, com a própria França decidindo, "às vezes algumas políticas antes de dar o dinheiro". Ou seja, para ele, uma associação de igual para igual é vista como "muito difícil".
Fato é que, conforme os especialistas, se o tempo do colonialismo acabou, o espaço para o neocolonialismo está se esgotando e Paris precisa entender o sinal dos tempos para reeditar o protagonismo no continente africano.
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