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'Incubadora de terroristas': por que os EUA parecem ter se voltado contra a Europa?

Nova estratégia dos EUA classifica Europa como foco de ameaças terroristas e pressiona aliados por ações mais rígidas.

Sputinik Brasil 13/05/2026
'Incubadora de terroristas': por que os EUA parecem ter se voltado contra a Europa?
Estratégia dos EUA rotula Europa como foco de ameaças terroristas e pressiona aliados por ações mais rígidas. - Foto: © AP Photo / Jacquelyn Martin

Em sua mais recente Estratégia Nacional de Contraterrorismo, os Estados Unidos classificaram a Europa como uma "incubadora de ameaças terroristas". A medida sinaliza uma mudança de postura em relação a antigos aliados, levantando questionamentos sobre os motivos do governo de Donald Trump ao adotar essa retórica.

De acordo com o documento, países europeus enfrentam aumento da radicalização, violência política e atuação de organizações extremistas, além de servirem como palco para ameaças transnacionais. O texto cita grupos como Al-Qaeda e Daesh, além de cartéis de drogas, e aponta fragilidade nas fronteiras europeias. O relatório ainda sugere que uma possível redução de recursos em medidas antiterrorismo pode ampliar riscos tanto para os Estados Unidos quanto para o próprio continente europeu.

Para analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, a declaração representa mais uma estratégia do governo republicano para pressionar lideranças europeias, especialmente em um contexto de conflitos globais nos quais Washington não conta com o apoio unânime da União Europeia.

"Essa classificação da Europa como um espaço onde o terrorismo se prolifera faz parte da política externa do governo Trump de pressionar aliados a adotar medidas que favorecem os interesses dos Estados Unidos", analisa Gabriel Brasilino, doutorando em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Nesse contexto, Jahde Lopez, doutora em relações internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destaca o uso recorrente, pelos EUA, da criação de um inimigo externo como ferramenta de mobilização.

"A partir dessa ameaça, é possível mobilizar um discurso favorável às práticas e interesses norte-americanos."

A estratégia norte-americana associa, em diversos momentos, o terrorismo à "migração em massa sem controle", reforçando a política de endurecimento das fronteiras dos EUA. Trump, como lembra Brasilino, fechou a fronteira com o México e endureceu o controle migratório, inclusive para países de maioria muçulmana. Agora, pressiona para que a Europa siga o mesmo caminho.

Além disso, o governo dos EUA cobra maior participação europeia no combate ao terrorismo, exigindo que os aliados "compartilhem o fardo" e assumam mais responsabilidades, conforme aponta o documento.

Apesar das cobranças, especialistas concordam que os EUA cometem equívocos em sua própria atuação no combate ao terrorismo. Para Lopez, o país mistura discurso antiterrorista e defesa da democracia com interesses estratégicos, econômicos e geopolíticos — inclusive apoiando governos autoritários e derrubando lideranças democraticamente eleitas. "O paradoxo surge quando Washington acusa outros de ameaçar a segurança, mas pratica intervenções controversas e instrumentaliza políticas que podem ser vistas como terroristas, como nos casos do Iraque, Afeganistão e Venezuela", observa.

Brasilino ressalta ainda a importância de discutir o real significado do termo terrorismo, para evitar análises enviesadas por interesses políticos e estratégicos do governo norte-americano.

Mesmo assim, a estratégia dos EUA, que une segurança, imigração e disputa cultural para legitimar as pressões de Trump, evidencia a tentativa de reafirmar poder diante dos aliados.

"Não significa que essas pressões vão causar um afastamento total, pois Europa e Estados Unidos seguem profundamente interdependentes, seja pela OTAN, inteligência ou comércio", explica Lopez sobre os possíveis impactos nas relações bilaterais após a publicação do documento.

Contudo, ela ressalta que a declaração rompe com o padrão histórico de confiança mútua entre as partes. "Quando um aliado estratégico passa a ser descrito como ameaça, isso gera desgaste político e institucional, ampliando a tensão", conclui.

Ao final, segundo os analistas, a nova Estratégia Nacional de Contraterrorismo dos EUA representa mais uma tentativa de demonstrar poder, ao mesmo tempo em que expõe fragilidades da União Europeia.