Geral
'Uma Só China': estratégia dos EUA torna entendimento sobre Taiwan impreciso?
O entendimento sobre Taiwan tratado pela mídia hegemônica no Ocidente é, por muitas vezes, vago e impreciso. Afinal, qual o contexto histórico por trás do impasse que envolve a ilha, China e Estados Unidos?
Uma pesquisa rápida por sites de busca ou inteligência artificial generativa controlados por bilionários ocidentais mostram a inclinação quando "Taiwan", de forma única, sem outros comandos, é colocado em questão. A descrição logo aponta a ilha como uma nação independente.
Quando provocada, a partir de outras indicações como "Taiwan pertence a quem?"; as respostas costumam apresentar ambiguidades e contrapontos. Assim como é a própria assunção norte-americana sobre a questão.
Conforme explica Thais Lacerda professora universitária na Associação Educacional Latino-Americana e co-fundadora do Unity Global Institute (UGI), após imbróglios envolvendo China, Estados Unidos e Taiwan, um movimento liderado de forma diplomática por Henry Kissinger culminou no reconhecimento formal da República Popular da China em 1979 e na adoção da política de Uma Só China pelos Estados Unidos.
"Embora esse reconhecimento tenha transferido os estados diplomáticos para Pequim, o governo americano instituiu simultaneamente, no mesmo momento, a Taiwan Elections Act, que é manter os laços, só que não oficiais com Taiwan, garantindo o fornecimento de armas entre aspas, defensivas para a ilha, estabelecendo então uma base de ambiguidade estratégica, que vai definir as tensões e o equilíbrio na região até os dias atuais", acrescenta.
A Resolução 2758 da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) instaura a determinação e reconhece plenamente o princípio de Uma Só China. Além disso, teoricamente, quem reconhece um Estado não pode manter relações com o outro, mas na prática não é bem assim que acontece.
De acordo com Rodrigo Abreu, doutorando em relações internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), os Estados Unidos criaram uma ideia de ambiguidade estratégica, ou seja, reconhecem o princípio da China única e oficialmente o governo de Pequim como aquele governo que representa a China, mas empregam um escritório de representante em Taiwan, "não é uma embaixada, é um escritório de um representante".
Os termos em questão contribuem, segundo Lacerda, para uma escalada recíproca de desconfiança estratégica envolvendo uma militarização crescente de todas as partes, com os Estados Unidos, mantendo desde 1970, a venda de armas para a ilha.
Renato Peneluppi, advogado, mestre e doutor em administração chinesa pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, ressalta que essa venda de armas tem sido inflamada em momentos de interesse dos EUA, que tentam, em momentos chaves, criar ali toda uma tensão e desestabilizar a região.
"A China tenta e não quer de forma alguma ter uma guerra com os irmãos, [...] isso é uma derrota para si mesmo, porque isso cria toda uma mágoa histórica, geracional que a China entende isso bem".
Guerra civil chinesa é porta de entrada para entender relação entre Pequim e Taiwan
Os rumos da guerra civil chinesa de 1949 moldaram a relação entre Pequim e Taiwan, explica Abreu. Após a vitória do Partido Comunista Chinês em 1949, os nacionalistas do Kuomintang recuaram para Taiwan com a intenção de se reorganizar e, futuramente, retomar o continente. Ao mesmo tempo, o governo comunista em Pequim preparava uma operação para invadir a ilha.
Entretanto, o cenário mudou com o início da Guerra da Coreia. A China precisou deslocar grande parte de suas tropas para a fronteira com a Coreia do Norte, priorizando evitar o avanço norte-americano naquela região. Esse conflito também transformou a visão estratégica dos Estados Unidos sobre a ilha.
Até então, Washington considerava a questão de Taiwan um assunto interno chinês e evitava uma intervenção direta. Porém, diante da possibilidade de expansão do comunismo na Ásia, com a Coreia unificada sob um governo comunista e Taiwan incorporada à China continental, os EUA passaram a enxergar Taiwan como um ponto estratégico essencial para sua política de contenção do comunismo.
À época, o general norte-americano Douglas MacArthur, um dos principais arquitetos da vitória dos Estados Unidos no teatro do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, descreveu Taiwan como um "um porta-aviões inafundável", ou seja, "um lugar onde você deve colocar ali tropas muito estrategicamente posicionadas para você conseguir de fato garantir que você consiga projetar poder no litoral chinês", explica Abreu.
Atualmente, a política taiwanesa é bastante polarizada entre o Kuomintang, que defende uma reaproximação com Pequim e menor aumento nos gastos militares, e o Partido Democrático Progressista (DPP), que apoia uma postura mais firme e maiores investimentos em defesa, define o especialista.
Como os chineses enxergam a relação de 'pertencimento' de Taiwan?
Peneluppi mora na China há mais de 10 anos. Segundo ele, a reunificação de Taiwan à China, conforme prospectado pelo governo chinês para 2049 não é uma questão fundamental nas ruas do gigante asiático. "O povo não está muito preocupado com isso."
Por outro lado, o contexto muda quando há forte influência estrangeira, vendas de armas e ameaças à soberania nacional. "Aí o povo fica um pouco incomodado, isso começa a fazer parte da discussão, principalmente dos taxistas que gostam muito de falar com estrangeiros", brinca.
A estratégia adotada pela China, ao propor uma ação a longo prazo relacionada a Taiwan reforça, segundo ele, o princípio chinês de trabalhar através da diplomacia. Além disso, a resolução neste caso de Taiwan representaria, do ponto de vista chinês, o encerramento das dissidências causadas pelo que ficou marcado como "século da humilhação."
"O território de Taiwan historicamente faz parte, e o povo de Taiwan é um povo chinês, existe todo um contexto histórico que isso se relaciona, que isso se conecta. [...] Para os chineses, o que eles não querem é que alguém se meta na soberania deles. E a forma como eles administram esse processo é justamente respeitando a cultura, a diferença e o processo histórico com que construiu essa anomalia na relação entre a ilha de Formosa, Taiwan, com o continente", finaliza.
Mais lidas
-
1DESCOBERTA ASTRONÔMICA
Astrônomos identificam estrela de hipervelocidade ejetada do centro da Via Láctea
-
2GREVE
PM usa bombas e gás para desocupar reitoria da USP; estudantes prometem ato unificado na segunda (11)
-
3VIOLÊNCIA INFANTIL
Três adolescentes são apreendidos por estupro coletivo de duas crianças em São Paulo
-
4HOMENAGEM AOS TRABALHADORES
Dia do Trabalho: frases para celebrar e inspirar neste 1º de maio
-
5POLÍTICA
“Se os Garrotes derem mais, eu fecho”: Vídeo vazado expõe Júlio Cezar e a política sem amor; veja vídeo