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'Desprezo total': política migratória dos EUA tira vidas e abre nova crise com o México

Mortes de migrantes sob custódia do ICE geram tensão diplomática e críticas à abordagem dos Estados Unidos.

22/04/2026
'Desprezo total': política migratória dos EUA tira vidas e abre nova crise com o México
Política migratória dos EUA sob Trump provoca mortes e tensão diplomática com o México. - Foto: © AP Photo / Seth Wenig

Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, 46 pessoas morreram sob custódia do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE), sendo 15 delas de origem mexicana.

Segundo autoridades mexicanas, por meio da Chancelaria, o país enviou diversas notas diplomáticas ao governo dos Estados Unidos, exigindo esclarecimentos sobre as mortes de mexicanos detidos.

No entanto, conforme declarou a presidente Claudia Sheinbaum, o governo Trump não forneceu informações sobre os casos e o México considera recorrer a instâncias internacionais, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e a Organização das Nações Unidas (ONU), para expor a situação.

Além disso, a Chancelaria mexicana orientou o corpo diplomático a visitar diariamente os centros do ICE, prestar assistência aos cidadãos detidos e oferecer orientação jurídica às famílias das vítimas.

Desprezo total pela vida dos migrantes

O número de mortos sob custódia dos EUA reflete “um desprezo total pela vida dessas pessoas” e, ao mesmo tempo, representa um grande negócio para alguns poucos, afirmou à Sputnik o doutor em Ciência Política Tomás Milton Muñoz.

Muñoz destacou que mais de 70 mil pessoas estão em centros de detenção, o que representa um “grande negócio”, já que cada migrante custa cerca de US$ 160 por dia (R$ 890), valor pago à iniciativa privada.

A doutora em Políticas Públicas e especialista em migração Eunice Rendón avaliou que a prioridade dos agentes do ICE — cujo efetivo dobrou desde o retorno de Trump — é cumprir uma meta de detenções.

“Parece mais uma questão de cumprir uma cota diária de detenções, e não importa quem seja detido, mas sim alcançar esses 3 mil detidos por dia, e os números falam por si só”, afirmou.

Ex-diretora do Instituto dos Mexicanos no Exterior, Rendón acrescentou que a atuação dos agentes do ICE não segue as leis nem os protocolos. Houve casos de mortes por uso excessivo da força, mesmo quando 70% dos detidos não tinham antecedentes criminais.

“Parece que há um perfil racial sendo buscado, além de uma prioridade numérica”, concluiu.

Sobre a possibilidade de o México levar o caso dos migrantes à CIDH, ambos os especialistas concordam que a medida é simbólica e não traz consequências diretas para os EUA.

Muñoz explicou que a CIDH emite apenas recomendações não vinculantes. Ele defende que o México fortaleça a defesa da comunidade migrante por meio de parcerias com organizações que atuam em campo, reforço do corpo consular e alianças com consulados de outros países afetados.

“É necessário ter um contato mais próximo com as próprias comunidades, não apenas de mexicanos nos Estados Unidos, mas também de outras nacionalidades, para desenvolver estratégias conjuntas”, afirmou Muñoz.

Já Rendón destacou que recorrer à CIDH é relevante para expor os abusos ao mundo, apesar do “desdém” de Donald Trump aos organismos internacionais, pois decisões judiciais já conseguiram barrar algumas das medidas do governo norte-americano.

Por Sputnik Brasil