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Vaticano autoriza xenotransplante para católicos, mas impõe restrições
Igreja Católica libera transplantes de órgãos de animais para humanos, desde que respeitados limites éticos e o bem-estar animal.
O Vaticano anunciou na terça-feira, 24, que católicos estão autorizados a receber transplantes de tecidos e órgãos de origem animal para tratar condições médicas — prática conhecida como xenotransplante. No entanto, o órgão religioso estabeleceu ressalvas e limites éticos para a realização desses procedimentos.
Segundo a Igreja Católica, o xenotransplante é considerado aceitável, desde que sejam respeitados o bem-estar dos animais e a integridade da "identidade biológica ou psicológica" do receptor.
"(O xenotransplante) em princípio, não está em contraste com a ordem da criação. Ao contrário, representa para o homem uma oportunidade adicional de responsabilidade criativa em fazer um uso razoável do poder que Deus lhe deu", afirma o documento que define as diretrizes éticas para a prática.
O texto ainda ressalta: "O sacrifício dos animais pode ser justificado, mas apenas se exigido para alcance de um bem relevante para o homem: é este o caso da utilização de animais para a coleta de órgãos ou tecidos a transplantar".
Restrições e exceções
O documento proíbe alguns tipos específicos de transplantes, especialmente aqueles que possam alterar a identidade do indivíduo. Entre eles, está o transplante de encéfalo (cérebro), considerado pela Igreja como "moralmente inaceitável em qualquer hipótese".
O mesmo vale para transplantes de gônadas com fins reprodutivos. "É importante salientar que, enquanto o cérebro se relaciona com a identidade pessoal do sujeito como o órgão que representa a sede principal de sua consciência psicológica, o repositório de sua memória existencial, as gônadas se relacionam com ele como órgãos responsáveis pela gametogênese (produção de gametas); elas representam, por assim dizer, o transmissor, por meio da procriação, da identidade pessoal do sujeito (herança genética) para sua prole", explica o texto.
Há, porém, uma exceção: o transplante de gônadas pode ser permitido se o objetivo for exclusivamente restaurar funções hormonais.
O que é xenotransplante
O xenotransplante consiste em transplantar órgãos, tecidos ou células de animais para seres humanos. Porcos geneticamente modificados são a principal fonte desses órgãos. A técnica é vista como alternativa à escassez de doadores humanos, embora a rejeição pelo organismo ainda represente um grande desafio.
Nos últimos anos, equipes médicas vêm realizando experimentos para compreender melhor a interação entre o material transplantado e o corpo dos pacientes, acumulando conhecimento para aprimorar técnicas e medicamentos.
Em março de 2024, por exemplo, um homem de 62 anos com doença renal terminal recebeu um rim de porco no Hospital Geral de Massachusetts, vinculado à Harvard Medical School, em Boston. Ele foi o primeiro paciente vivo a passar pelo procedimento, mas faleceu dois meses depois por causas não relacionadas ao transplante.
A cirurgia foi liderada pelo médico brasileiro Leonardo Riella, que conversou com o Estadão sobre o procedimento e as perspectivas do xenotransplante.
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