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Rebeldia sobre rodas: como o skate tensionou a ordem urbana em Curitiba

Estudo da UFPR analisa como a expansão da modalidade na capital paranaense, entre os anos 1970 e 1990, transformou um esporte inicialmente elitizado em prática popular e gerou conflitos com o projeto de “cidade modelo”

João Heim 12/03/2026
Rebeldia sobre rodas: como o skate tensionou a ordem urbana em Curitiba
Pista do Gaúcho, em Curitiba, é uma das primeiras do Brasil. - Foto: José Fernando Ogura/Prefeitura de Curitiba

Oskate, além de uma prática esportiva, é uma expressão cultural. Mas, no Brasil e até nos Estados Unidos, onde nasceu, ele foi visto com maus olhos por conservadores que o associavam à rebeldia. Um estudo da UFPR (Universidade Federal do Paraná) investigou esse cenário em Curitiba. A pesquisa resultou na dissertação de mestrado em Educação Física de Joana Caroline Corrêa da Silva, que analisou a institucionalização do skate como esporte e sua dimensão sociocultural na capital paranaense. A pesquisadora partiu da análise de reportagens publicadas em jornais locais entre 1975 e 1999.

Segundo ela, as primeiras pistas e espaços dedicados à modalidade no Brasil surgiram nos anos 1970, primeiramente em São Paulo e no Rio de Janeiro, e depois em outras capitais. Em Curitiba, o esporte veio ao encontro com o projeto de cidade modelo que o município pretendia consolidar à época por meio da construção de pistas e uma estética moderna.

As primeiras pistas públicas, como a do Jardim Ambiental e a da Praça do Redentor (Pista do Gaúcho), inauguradas entre 1977 e 1978, foram celebradas como marcos de inovação. Os projetos mimetizavam elementos de cidades internacionais de referência. O desenho da Pista do Gaúcho, por exemplo, foi baseado em fotos da revista estadunidense Skateboarder, reproduzindo a arquitetura das piscinas californianas de fundo arredondado.

A construção dessas pistas, que estavam entre as primeiras do país, materializava a intenção do município de se apresentar como um centro urbano de vanguarda. “A capital paranaense se tornou um polo do skate”, diz o professor André Mendes Capraro, que orientou o estudo.

Democratização do skate gerou tensões urbanas

A pesquisa lembra, entretanto, que, no início, o skate era acessível a uma pequena elite, já que itens importados eram caros e a produção nacional era pequena. Em uma notícia de 1977, um skatista relata que os melhores skates variavam de Cr$ 1.000,00 à Cr$ 2.500,0041 (a moeda da época no Brasil era o Cruzeiro). A título de comparação, um ano antes uma TV “Semp” de 24 polegadas foi anunciada por Cr$ 1.999,00 e um fogão “Semer” com tampa por Cr$ 499,9042.

Mas a criação de skates artesanais pelos jovens e o desenvolvimento da indústria nacional entre os anos 1980 e 1990, somados à própria construção de pistas gratuitas no centro e em bairros periféricos democratizaram a prática. Com isso, a cultura do skate passou a se associar a movimentos de contracultura. E foi aí que brotaram tensões com o projeto de ordem urbana da cidade modelo.

A visão dos skatistas pela sociedade curitibana provocou atritos em 1999, quando a instalação de uma pista de skate na Praça Afonso Botelho, no Água Verde, bairro de classe média alta, era uma possibilidade. Segundo a Gazeta do Povo, moradores da região protestaram contra a novidade, postergando a inauguração.

Diante desses conflitos, o poder público adotou uma estratégia de afastar o skate das áreas centrais, pontos turísticos e regiões enobrecidas, movimentando a construção de novas pistas para a periferia. Onde a tensão era maior, a ação muitas vezes foi a eliminação dos espaços. Um exemplo emblemático foi o soterramento de uma pista improvisada na Praça da Ucrânia em 1999, em uma região nobre, realizado pela prefeitura após queixas de moradores sobre a poluição sonora gerada pelos skatistas.

Em paralelo, Curitiba seguiu como referência nacional na modalidade. A importância da cidade na história do esporte era tanta que a Confederação Brasileira de Skate foi fundada no município. A entidade nasceu em 1999, com a união da Federação de Skate do Paraná, Associação Porto-Alegrense de Skate, Associação de Skate Londrinense, Associação de Skate da Zona Sul de São Paulo, Associação Brasiliense de Skate e Associação Baiana de Skate. A sede foi por um ano em Curitiba, para então se transferir para São Paulo.

Mulheres enfrentavam machismo nas pistas

Outro ponto investigado pelo estudo foi a presença de mulheres praticando o esporte no município. Silva encontrou relatos e documentos que colocam atletas como pioneiras nas primeiras competições da história do município. Foi o caso de Maria Elaigne Ferreira, que levou o segundo lugar no primeiro campeonato nacional em 1976.

Mas, mesmo o skate sendo vinculado a um cenário progressista, havia rejeição dos homens frente a mulheres no esporte e situações de misoginia, diz a pesquisadora. Relatos de jornais da época mostram que os homens as preferiam como espectadoras em vez de praticantes.

“As mulheres eram aceitas, mais até do que em outros esportes. Ao mesmo tempo, havia uma preocupação em dizer: `olha, isso não é para mulher pois pode machucar`. Sempre existiu esse cerceamento”, diz Silva.

A pesquisadora acredita que o acesso e a prática do skate em Curitiba contribuíram para que a cidade se tornasse referência no esporte, mas destaca a importância de elementos culturais construídos a partir da modalidade.

“Em torno das pistas de skate, há apresentações, batalhas de rima, então, as pessoas querem estar naquele momento, participar. Gente que não necessariamente tem o intuito de alçar grandes perspectivas nacionais e internacionais de competição vai estar ali porque elas querem participar do momento e tudo isso vai aumentando o potencial de possíveis atletas”, completa.

Capraro reforça o papel das universidades na promoção do skate por meio da pesquisa acadêmica. “Existem outras modalidades além daquelas com bolas, e a academia tem que se abrir a isso”, diz.