Geral
Projeto de Extensão da PUC-Campinas une cinema e educação no Campo Belo
Projeto “Cartas de um Campo Belo” é uma parceria entre a Universidade e a segunda maior escola pública de São Paulo
No território do Campo Belo, em Campinas, a realidade costuma ser narrada por vozes externas, muitas vezes pautadas por vulnerabilidades. No entanto, um projeto de Extensão da PUC-Campinas promoveu uma inversão de papéis, em que o jovem da periferia deixa de ser objeto do olhar alheio para se tornar o autor da própria imagem, por meio do cinema. A iniciativa “Cartas de um Campo Belo”, materializou o conceito de uma Universidade que extrapola os seus muros, buscando promover o protagonismo de jovens da Escola Estadual Celeste Palandi de Mello, em Campinas.
O projeto, coordenado pelo Prof. Dr. Caio Lazaneo, Coordenador do Curso de Cinema da Universidade, nasceu no âmbito do Programa de Desenvolvimento Humano Integral: Levanta-te e Anda (PDHI:LA) da Instituição e começou com a escuta atenta às lideranças femininas locais. “A princípio fizemos mapeamentos, entrevistas e descobrimos uma preocupação em comum: o olhar para o jovem, para a esperança, para que fosse garantido o direito de sonhar com uma carreira, com oportunidades”, contou o Professor. A partir da identificação da necessidade, a parceria com a escola foi concretizada para o desenvolvimento do projeto, um “filme-carta”, gênero que alia o cinema documental com a escrita íntima.
Treze adolescente da Comunidade Campo Belo e treze estudantes de Cinema da PUC-Campinas se uniram para a produção que buscou transformar o cotidiano em poesia visual. “Em um filme-carta nós, geralmente, compartilhamos nossas visões de mundo, desejos, afetos, preocupações, cotidiano, nosso diário íntimo, no sentido de um pequeno cinema que se articula a uma dimensão muito grande de vida, porque, ao falar de nós mesmos, falamos, a partir deste lugar, com muitas pessoas. Afinal, nossas questões, que importam a princípio a nós mesmos, são questões que dizem respeito a muitas pessoas”, explicou.
Desmistificando a Sétima Arte
Um dos grandes desafios foi romper com a ideia de que o cinema é um ofício inacessível, restrito a grandes orçamentos. Ao apresentar referências que fogem do padrão Hollywood, o projeto abriu novas janelas de percepção.
O professor destacou que, enquanto os jovens traziam referências de superproduções norte-americanas, o projeto os apresentou ao cinema. “Nós estávamos assistindo a filmes feitos por crianças do território indígena do Xingu, que, com uma câmera muito simples, conseguiam fazer um filme muito potente, poético, mostrando para o mundo o seu contexto, a sua forma de entender, de compreender a vida, a sua cosmovisão. E isso é muito tocante, muito acolhedor porque esse jovem deixa uma referência, de certo modo, até colonizadora daquilo que seria o cinema, a grande produção estrangeira, robusta, inacessível, distante, para algo muito mais próximo, afetivo, e consegue compreender também que há muito cinema nisso, por sua potência de verdade”, disse o Prof. Dr. Caio Lazaneo.
A produção das cartas revelou um Campo Belo pulsante, que recusa o papel de vítima. Um dos momentos mais impactantes foi carta de uma jovem adolescente, que sintetizou o espírito do projeto. O Prof. Dr. Caio Lazaneo citou a estudante para ilustrar a força do território. “A certa altura da carta, ela diz que essas crianças aprendem a florescer no concreto, a sorrir onde disseram que só cabia dor. Então, falar sobre o seu lugar, sobre a sua perspectiva, e não como uma forma de florear, de romancear um contexto que evidentemente tem muitas questões, muito descaso do poder público. Mas sim transformar essas questões em um ato de resistência. Não só de resistir, confrontar, mas de existir novamente, então, reexistir”, disse.
Impacto da Extensão
Para os alunos de graduação da PUC-Campinas, a vivência no Campo Belo ofereceu lições únicas a partir de uma troca genuína que transcendeu o conteúdo programático, gerando amizades e gestos de solidariedade, como o de um universitário que presenteou um aluno da escola com um livro. Para o Prof. Dr. Caio Lazaneo, “A Universidade não pode afirmar-se num lugar de hierarquização do conhecimento, pelo contrário. O conhecimento que é de fato transformador, só nasce na dinâmica com a vida enquanto tal, na inserção da Universidade em seu contexto local, em suas relações sociais, culturais mais amplas. O grande processo transformador só vai se dar nesta realidade mais sensível, para além dos muros. E isso é algo que a Extensão da PUC-Campinas faz com grande verdade”, enfatizou.
O contato com a Universidade também promoveu a possibilidade do Ensino Superior para os jovens do Campo Belo envolvidos no projeto. O Professor citou uma adolescente que compartilhou o sonho de cursar Direito. “Quando ela esteve aqui no Campus, quis muito e foi conhecer os prédios da Faculdade de Direito, e isso aumentou a potência desse sonho nela de ingressar e quem sabe, e vamos torcer muito pra isso, para que um dia seja uma juíza (como deseja)”.
Para o Coordenador a experiência estética é fundamental para a formação humana e o cinema não deve ter uma função mecânica, mas a capacidade de gerar inquietações. “A arte tem um desejo, um devir muito importante, da minha perspectiva, que não é oferecer respostas prontas, mas, sobretudo, aprender ou ter o desejo de construir boas perguntas. E essas perguntas geram novas perguntas, inquietações, provocações. A arte acaba sendo um estado permanente, constante, dinâmico, não resoluto, afinal de contas a vida não é linear, estanque. Esta característica do sentir que está na estética, é capaz de nos motivar para novos passos, novos movimentos, questionamentos e, encontrar na arte uma casa, um caminho, um campo amplo que a gente possa a partir dela pensar sobre o mundo e, pensando sobre o mundo, a gente inevitavelmente age sobre ele”.
Sonho a longo prazo
O projeto “Cartas de um Campo Belo” não pretende ser uma ação isolada. O intuito é transformar essa iniciativa em uma série constante. “O sonho a médio e longo prazo é que o projeto permaneça constante, que possamos criar uma verdadeira série de cartas do Campo Belo, que consista numa cartografia afetiva, em um diário a partir de um certo recorte sobre o território. Meu sonho em relação aos jovens adolescentes é que em cinco anos estejam ingressando no Ensino Superior. Isso vai, com toda a certeza, trazer uma alegria imensa. Seguimos acompanhando esses jovens e o projeto não se encerra, nós acabamos construindo pontes, afetos e relações”.
Com o encerramento da primeira etapa, as cartas foram exibidas em uma Mostra que reuniu as duas comunidades, a acadêmica e a territorial, provando que, quando a Universidade se propõe a ser “ponte”, o cinema se torna o espelho de um futuro que já começou a ser filmado.
Mais lidas
-
1TRAGÉDIA
Vídeos de detetive flagrando traição foram o estopim para secretário matar os próprios filhos em Itumbiara
-
2FENÔMENO NAS REDES
Procuradas 'vivas e fofas': zoológicos russos enfrentam filas para adquirir capivaras em meio à popularidade
-
3IDEIA BARRADA
Leis municipais em vigor em Maceió restringem mudança de nomes de ruas e podem barrar troca da Avenida Fernandes Lima
-
4TECNOLOGIA AERONÁUTICA
Empresa russa Rostec apresenta novo motor a pistão para aviação leve
-
5INFRAESTRUTURA
Governo de Alagoas investe na restauração da rodovia AL-115