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Protestos indígenas se espalham e expõem cobrança direta a Lula: de Maceió ao Tapajós, promessa vira dívida e “espera” é chamada de violência institucional

Após cobrança dos Xukuru-Kariri em Maceió por homologação territorial e pressão do povo Tapajós contra decreto da hidrovia, mobilizações expõem contradições do governo Lula entre discurso de inclusão, compromissos ambientais e entrega efetiva de direitos

07/02/2026
Protestos indígenas se espalham e expõem cobrança direta a Lula: de Maceió ao Tapajós, promessa vira dívida e “espera” é chamada de violência institucional
Indígenas protestam contra demora do presidente Lula

A sequência de mobilizações indígenas contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou corpo nas últimas semanas e passou a desenhar um padrão incômodo para o Planalto: povos originários que ajudaram a compor a base simbólica da “política social e de inclusão” cobram, agora, o cumprimento literal da Constituição — e acusam o governo de protelar, contornar ou relativizar compromissos centrais.
Em Alagoas, a cobrança ganhou rosto e endereço no dia 26 de janeiro de 2026, quando o povo Xukuru-Kariri, de Palmeira dos Índios, se deslocou até Maceió durante a passagem de Lula e entregou uma carta exigindo a homologação do Território Tradicional. A mobilização foi descrita pelas lideranças como ato de urgência: não foi “passeio”, foi reivindicação — “corpo presente, voz erguida”, contra um processo que, para o povo, já ultrapassou o limite do aceitável.

Maceió: a carta Xukuru-Kariri e a denúncia de “violência institucional


No documento entregue ao presidente, o povo Xukuru-Kariri sustenta que a falta de conclusão da demarcação e homologação não é neutralidade do Estado, mas uma escolha política que alimenta conflitos, intensifica tensões em Palmeira dos Índios e expõe famílias a ameaças cotidianas. Em linguagem dura, a comunidade trata a demora como “violência institucional” — a espera como forma de agressão.
Bases independentes que acompanham o tema apontam que a Terra Indígena Xukuru-Kariri segue com pendências no reconhecimento formal, o que ajuda a explicar por que a demanda aparece de forma recorrente, ano após ano.

Tapajós: ocupações, decreto e choque ambiental


Enquanto isso, na Amazônia, indígenas do Baixo e Médio Tapajós ampliaram protestos exigindo a revogação do Decreto nº 12.600/2025, relacionado a estudos de concessão de hidrovias e que virou, no discurso do movimento, símbolo de “rio transformado em mercadoria”. Ocupações e bloqueios em Santarém e entorno vinham pressionando o governo desde janeiro e se tornaram uma crise nacional para a área socioambiental.
Diante da escalada, o governo federal anunciou a suspensão do processo de contratação de dragagem no Rio Tapajós (em 6 de fevereiro de 2026), mas fez questão de afirmar, em nota oficial, que dragagens seriam “rotina” e não teriam relação direta com os estudos de concessão previstos no decreto, tentando separar as duas discussões. Para os indígenas mobilizados, porém, a suspensão é vista como insuficiente enquanto o decreto permanecer em pé.

O ponto em comum: Lula cobrado por promessas e por coerência


O elo entre Maceió e o Tapajós é a mensagem política: Lula é cobrado por promessas de campanha e por coerência ambiental. No caso Xukuru-Kariri, a cobrança é constitucional e histórica: terra tradicional não é favor, é direito originário. No Tapajós, a cobrança se conecta ao “colapso ambiental” e à crítica de que projetos de infraestrutura e expansão econômica podem atropelar consulta prévia e direitos territoriais.
O resultado é um desgaste que mexe justamente com um ativo narrativo do governo: a ideia de inclusão social com respeito a grupos historicamente vulnerabilizados. Quando indígenas dizem que a espera virou violência e que o Estado insiste em negar o que já está escrito na Constituição de 1988, o conflito deixa de ser apenas administrativo e vira fratura moral na imagem de um governo que se vende como “reparador”.

O que está em jogo agora


1. Em Alagoas, cresce a pressão para que a Presidência destrave a etapa final da homologação Xukuru-Kariri, sob risco de ampliar tensões locais.
2. No Pará, a suspensão da dragagem não encerra o conflito enquanto a principal demanda — revogação do Decreto 12.600/2025 — continuar sem resposta objetiva.
Entre cartas, ocupações e cobranças diretas, uma frase resume o momento: os povos indígenas não estão pedindo palco; estão exigindo cumprimento de direito. E quanto mais o governo tenta “administrar” o tema com notas e gestos parciais, mais o protesto ganha dimensão de “onda” — porque a pauta não é episódica: é estrutural.