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Zé do Burro, Nikolas Ferreira e a pedagogia involuntária de Iansã

À esquerda, um homem que se recusa a ser santo e paga com a vida por não entender o espetáculo. À direita, o espetáculo que aprendeu a posar como milagre. Entre a tragédia e a farsa, o Brasil segue confundindo fé com encenação – e a dor real com conteúdo.

Cosme Rogério Ferreira 26/01/2026
Zé do Burro, Nikolas Ferreira e a pedagogia involuntária de Iansã

No filme O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, baseado na peça homônima de Dias Gomes, o protagonista Zé do Burro começa sua via-crúcis por um motivo doméstico, quase infantil: seu burro de estimação é atingido por um raio. Desesperado, ele recorre ao único local de culto possível por perto – um terreiro de candomblé – e faz promessa a Iansã/Santa Bárbara (“a mesma coisa”, como ele entende) de carregar uma cruz “tão grande como a de Cristo” até a igreja da santa, em Salvador, se o animal sobreviver. O burro melhora, e a promessa vira destino.

Em Brasília, janeiro de 2026, outra caminhada termina em ato público e discurso: a “caminhada pela liberdade” convocada por Nikolas Ferreira, encerrada na Praça do Cruzeiro. Só que, no desfecho, um raio atinge as proximidades do ato e deixa dezenas de feridos, com atendimentos do Corpo de Bombeiros e pessoas levadas ao hospital. E aí, inevitavelmente, a cultura brasileira – que é também uma máquina de ler sinais – faz a pergunta que não se cala: seria castigo? seria aviso? seria “sinal” de Iansã/Santa Bárbara?

A nossa resposta, por profissão, precisa ser científica: não há como atribuir intenção divina a um fenômeno meteorológico. Mas nós também pensamos com símbolos – e essa coincidência é simbólica demais para não produzir ironia.

A tragédia: Zé do Burro e o martírio da inocência

No premiado filme de Anselmo Duarte – única obra cinematográfica brasileira laureada com a Palma de Ouro no Festival de Cannes – Zé do Burro é um personagem trágico que não quer disputar poder, mas apenas cumprir uma promessa. Não quer liderar ninguém: quer apenas entrar na igreja com sua cruz. E é justamente por ser tão puro, tão teimosamente bem-intencionado, que ele vira presa fácil de aproveitadores.

A instituição religiosa, representada pelo intolerante Padre Olavo, o barra na escadaria da igreja: a promessa “misturada” com terreiro vira pecado. A cidade o cerca: devotos, curiosos, malandros, oportunistas – cada um projetando em Zé a própria agenda. E a imprensa sensacionalista faz o que costuma fazer: pega uma frase simples, tira do contexto, e devolve como perigo público.

Na história, a promessa inclui doar metade do sítio; o repórter empurra isso para um vocabulário explosivo (“reforma agrária”, “exploração do homem pelo homem”, “partido”), como se a bondade espontânea do homem do campo fosse, por definição, uma conspiração. É o pobre sendo interrogado como se fosse culpado por existir.

Em termos marxistas (e aqui ecoo o 18 Brumário), Zé é a tragédia: o indivíduo esmagado por estruturas que não controla, transformado em ameaça exatamente quando tenta ser justo.

E, no início de tudo, há o raio: não como espetáculo, mas como ferida íntima que abre a história. Porque, para Zé, que representa o povo brasileiro enganado e explorado, o raio não é metáfora. É sofrimento.

A farsa: a caminhada coreografada e a política como liturgia

Corta para Brasília, 2026. Uma marcha política se encerra num ato que pede “liberdade” – e, mais concretamente, anistia (ou tratamento benevolente) para o ex-presidente Jair Bolsonaro e para pessoas envolvidas/condenadas por atos golpistas ligados ao 8 de Janeiro, segundo a cobertura.

Aqui, não há ingenuidade, não há inocência. Há estratégia, enquadramento, discurso. Há uma estética de peregrinação cívica, com público e imagens pensadas para circular. E há o detalhe que abre uma janela para o paralelo com Zé do Burro: durante o trajeto, viraliza a cena do bebê doente levado para receber oração do deputado – a dor real atravessando o palco político.

Zé do Burro, quando é “ungido” pela multidão, resiste a esse lugar: ele insiste que não tem poder nenhum, que é apenas um homem que quer cumprir sua promessa e voltar para sua roça com a consciência tranquila. A farsa contemporânea caminha no sentido inverso: o gesto de fé não desaparece – ele vira conteúdo para as redes digitais, vira signo, vira capital simbólico.

E então vem o raio. De novo. Só que, agora, ele cai sobre o ato que encerra a caminhada: a praça, a chuva, o clarão, o pânico, as pessoas feridas, o socorro. O Brasil real atravessa a mise-en-scène.

Iansã, Santa Bárbara e o país que não consegue evitar a pergunta

É aqui que a ironia se acende – não como deboche das vítimas (isso seria indigno), mas como comentário sobre a dramaturgia involuntária do país.

Porque Iansã/Santa Bárbara não é uma entidade qualquer no imaginário popular e afro-brasileiro: ela é associada aos ventos, às tempestades, aos trovões – ao domínio simbólico do raio. E o motor do filme nasce exatamente dessa associação: o burro atingido por um raio e a promessa feita no terreiro à santa/orixá.

Quando, no encerramento da caminhada “pela liberdade”, um raio deixa dezenas de feridos, a pergunta religiosa – “foi sinal?” – surge quase automaticamente, porque ela é parte do nosso modo de narrar o mundo.

Mas a ironia mais cortante não está na meteorologia. Está na forma como o Brasil fabrica mártires e inimigos.

No filme, a imprensa e os poderes locais transformam a simplicidade de Zé em “ameaça comunista”. Em 2026, parte da política transforma sua própria encenação em “marcha da liberdade” e “contra o comunismo” – enquanto pede indulgência para figuras poderosas e acusa instituições de perseguição, numa guerra permanente de símbolos.

Se a tragédia era um homem puro sendo moído por instituições e oportunistas, a farsa é a política que aprende a usar esse mecanismo – e a operar como liturgia: com cortejo, palavra de ordem, inimigo fixo e a promessa de redenção.

(*) Doutor em Letras e Linguística, Mestre em Sociologia, Especialista em História de Alagoas, Graduado em Filosofia, Professor do Instituto Federal de Alagoas – Ifal.