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Ciberataques: o que são e quão vulnerável está o Brasil?

14/01/2026
Ciberataques: o que são e quão vulnerável está o Brasil?
Foto: © AP Photo / Jenny Kane

Estratégias digitais se tornaram tão importantes quanto controle áereo ou domínio das rotas marítimas em pleno século XXI.

Esforços militares e tecnologia sempre andaram lado a lado desde a Revolução Industrial, quando ferrovias e telegrafia transformaram a logística das guerras, até a era digital, em que drones, sensores e guerra eletrônica redefinem o campo de batalha.

No último sábado (3), essa conjunção pode ter se manifestado de forma ainda mais nítida: um recurso pouco valorizado nas discussões públicas sobre defesa — o ciberataque — pode ter sido essencial para o sucesso no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Autoridades norte-americanas, incluindo o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, admitiram que o Comando Cibernético dos EUA foi um dos elementos que "camuflaram" a operação aérea e terrestre, trabalhando em conjunto com o Comando Espacial e outras unidades para facilitar o avanço das forças especiais — um reconhecimento raro de que técnicas cibernéticas foram utilizadas em um ataque real e em grande escala.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a afirmar que as luzes de Caracas foram desligadas por "certa expertise" americana, insinuando que capacidades técnicas — possivelmente incluindo penetração em redes críticas ou infraestrutura elétrica — contribuíram para a surpresa e a segurança da missão.

O que é um Ciberataque?

Ciberataques são operações que exploram vulnerabilidades em sistemas digitais para interromper, controlar ou danificar redes, dispositivos ou dados de um adversário. Eles não se limitam a derrubar sites, redes sociais ou tirar do ar um portal de notícias — podem atingir sistemas industriais, redes elétricas, comunicações militares, logística e bancos de dados governamentais, produzindo efeitos físicos e estratégicos sem um único disparo tradicional.

No campo da defesa, essas operações têm um papel ainda mais sensível. Ao potencialmente interferir em comunicações militares, ataques cibernéticos podem atrasar ordens, apagar registros logísticos, desativar sensores ou comprometer sistemas de comando e controle — elementos essenciais para qualquer operação armada moderna.

Esse tipo de guerra "silenciosa" é parte de uma transformação mais ampla das FAs modernas, que hoje combinam inteligências humanas e eletrônicas nos mais diferentes equipamentos. Nesse sentido, dominar o espaço digital tornou-se tão estratégico quanto controlar o céu ou as rotas marítimas em guerras do século XXI.

Desafios digitais

Os ataques na Venezuela colocaram uma preocupação maior nos países latino-americanos. Seríamos capazes de repelir ciberataques de grandes potências? O cenário, certamente, representa uma assimetria profunda nesse campo.

No caso do Brasil, o país possui o Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber), do Exército, que compõem centros de monitoramento e doutrina própria. Isso permite que o país possa detectar e mitigar ataques ao sistema brasileiro, mas, frente a uma grande potência, suas capacidades se limitariam a resistir um ciberataque, não impedir completamente.

Como explica Luisa Lobato, professora Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), à reportagem, as capacidades brasileiras de repelir um ataque cibernético são maiores que o sistema de defesa venezuelano.

"É muito importante lembrar que a infraestrutura de comunicações e de defesa da Venezuela já se encontravam em uma situação vulnerável – desatualizadas, com manutenção precária, e apresentando falhas recorrentes ao longo dos últimos anos", ressalta Lobato. "Esse ponto é muito importante, pois diante de uma infraestrutura precária, torna-se difícil distinguir o que é um ataque deliberado daquilo que é uma falha de infraestrutura."

A professora frisa que a tarefa de identificar a origem de um ataque cibernético, embora não impossível, é técnica e politicamente complexa. Por um lado, pode levar a um conflito diplomático, por outro, grupos privados podem atuar em em nome de Estados.

À Sputnik Brasil, a professora de direito internacional da Universidade Federal do Amapá (Unifap) Camila Soares Lippi, complementa a fala de Lobato. O uso frequente de VPNs, que mascaram a localizam dos agressores, dificulta a sua identificação.

Em 2025, um ataque de ramsomware – sequestro de dados e sistemas - à plataforma de operações aeroportuárias vMUSE da Collins Aerospace em aeroportos como Heathrow, Bruxelas e Berlim interrompeu sistemas de check-in, forçando operações manuais e atrasando centenas de voos. Até hoje não se sabe a identidade dos hackers ou suas filiações.

Lippi acrescenta que ciberataques, apesar de deixar vitimas indiretas – sistemas de energia e saúde estão ligados a internet – estão em uma zona cinzenta no direito internacional.

"A carta da ONU proíbe o uso da força armada, mas silencia sobre os ciberataques", diz a professora. "Isso se explica pelo fato de que esse tratado, que regulamenta o uso da força no direito internacional, foi aprovado em 1945, quando guerras cibernéticas não eram uma preocupação."

Vendo como as grandes potências olham para o campo cibernético como um campo de batalha, com divisões e comandos treinados para operações militares, há como países com menor capacidade tecnológica se defenderem e, se não, estão eles mais vulneráveis nesse novo tipo de guerra?

Para Lobato, depende mais da coordenação e capacidade de reposta política do país, não necessariamente do seu nível tecnológico. A professora cita o caso do ataque do Hamas a Israel, em 2023, que aconteceu mesmo a despeito das capacidades cibernéticas israelenses.

"Um país com menor capacidade tecnológica invariavelmente vai estar em uma situação onde as vulnerabilidade são maiores, por dispor de recursos mais limitados para responder a ataques complexos. Mas isso não significa que haja ausência de meios de resposta ou de estratégias de defesa diante desses casos."


Por Sputinik Brasil