Geral

Entre a abundância e a desigualdade: o paradoxo da alimentação na América Latina

12/01/2026
Entre a abundância e a desigualdade: o paradoxo da alimentação na América Latina
Foto: © Foto / Divulgação / Ricardo Stuckert

A diversidade e a abundância de alimentos nas cidades da América Latina contrastam com a desigualdade no acesso a eles e com o avanço de processos como a gentrificação, que tem provocado uma homogeneização dos pratos na região.

Na região latino-americana, comer é um ato cultural repleto de contrastes: com uma das gastronomias mais ricas e diversas do mundo, que abrangem pratos como tacos, arepas, ceviches, legumes e grãos, seus sistemas alimentares enfrentam o paradoxo da abundância com a falta de acesso, a precarização do trabalho, o avanço dos produtos ultraprocessados e a homogeneização cultural.

Com 80% de sua população concentrada em áreas metropolitanas, o acesso à alimentação em cidades como Buenos Aires, Cidade do México, Lima, São Paulo e Santiago reflete uma realidade que atravessa as sociedades da Argentina, México, Peru, Brasil e Chile, onde a urbanização impõe desafios comuns em torno da segurança alimentar.

"Algo que caracteriza a América Latina como um todo [em termos de alimentação] é a desigualdade e a massividade das cidades. Não apenas o grande percentual de habitantes que vivem nas cidades, mas o fato de serem muito grandes", explica, em entrevista à Sputnik, o especialista em abastecimento urbano de alimentos e sistemas agroalimentares, Joaquín Pérez Martín.

O acesso aos alimentos na região é limitado pela renda e pelo preço desses produtos, adverte o especialista.De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a América Latina alcançou o custo mais alto de uma dieta saudável em nível mundial, com 4,56 dólares (R$ 24) por pessoa ao dia, enquanto o preço médio em outras regiões do mundo foi de 3,96 dólares (R$ 21,27).

A pesquisadora da UNAM especializada em temas de cidade, gestão, território e meio ambiente, Ayari Pasquier, explica a Sputnik que na atualidade a "precarização da vida, da democracia e dos direitos sociais, em muitos contextos" tem tido impactos diretos na alimentação, gerando aumento nas taxas de obesidade e de uma série de doenças.

Estudo da FAO de 2023 concluiu que a urbanização contribui para a transformação dos sistemas agroalimentares, colocando ao alcance da população uma maior quantidade de alimentos processados ou com altos níveis calóricos e influenciando as preferências dos consumidores.

A rota dos alimentos

Embora nos últimos anos o foco tenha sido direcionado a novos métodos de produção de alimentos mais amigáveis ao meio ambiente, Pasquier destaca que também é necessário fazer uma revisão dos aspectos relacionados à sua distribuição: como os alimentos chegam a cada mesa e quem está em desvantagem nesse processo.

"Parece que ninguém se questionou sobre como os alimentos vão de um lugar a outro. O que isso nos mostra é que esse é outro dos espaços em que, apesar de toda a boa intenção, muitos dos custos continuam sendo repassados aos pequenos produtores", reitera a pesquisadora da UNAM.

Esses agricultores tem produções em pequena escala, que pode variar de uma a cinco hectares. De acordo com a FAO, cerca de 70% das 600 milhões de propriedades destinadas à produção de alimentos no mundo têm um hectare.

No caso do México, esse setor é responsável por 40% da produção agropecuária. Apesar de sua importância, trata-se de setores historicamente marginalizados, cuja maioria de seus integrantes vive em condições de pobreza.

"Essa desigualdade estrutural se reproduz não por má-fé, mas pelas condições em que [a produção de alimentos] ocorre. Um caso muito específico é o transporte desses [bens]", afirma a pesquisadora.

De acordo com Pasquier, em muitos casos as pessoas desconhecem como os alimentos chegam até seus pratos. Isso ocorre especialmente quando se trata de alimentos prontos para o consumo, sejam eles preparados ou ultraprocessados, que estão disponíveis em todo tipo de estabelecimento.

Onde compramos a comida?

Martín explicou que nos estudos que coordenou sobre o tema, a produção alimentar na América Latina aparece "concentrada em poucas mãos":

"Encontramos muitas semelhanças no papel do supermercadismo em preencher as cidades com pequenos comércios. Esse formato, no fim das contas, concentra a operação em pouquíssimas mãos e desloca os pequenos comerciantes", explica Martín.

Sobre alimentos prontos para o consumo, levantamento do setor apontam que três são as empresas processadoras que obtiveram os maiores lucros em 2023: a panificadora Bimbo; a Maggi, filial da Nestlé dedicada à produção de sopas e temperos e a Sadia, empresa brasileira dedicada ao processamento de alimentos cárneos.

Em contraste com as grandes empresas, ainda existem modelos que sobrevivem na região, como as feiras e os mercados públicos, que, enquanto em cidades como Buenos Aires têm hoje apenas um papel simbólico, no México continuam desempenhando um papel central, sendo um modelo mais consolidado, embora com desafios para garantir sua sustentabilidade ao longo do tempo.

O efeito da migração na alimentação

Os movimentos migratórios na América Latina também impactam a produção e a comercialização de alimentos.

"Em termos de mobilidade, a incidência das migrações em diferentes circuitos de comercialização de alimentos [tem como efeito] o cruzamento cultural das distintas formas de alimentação que temos em cada um dos países e das regiões", comenta Martín.

Por um lado, há a incorporação de novos ingredientes, o que amplia a oferta de alimentos disponível nas cidades.

Um caso recente é o "boom" de alimentos provenientes da Coreia do Sul, registrado em diversas regiões da América Latina devido à chamada onda coreana. De acordo com dados do portal especializado no setor agroalimentar Food Navigator, as exportações do país asiático para a região alcançaram US$ 109 milhões (R$ 586).

Outro lado desse fenômeno é a globalização de certos produtos. Estudo recente da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) sobre esse assunto, revela as consequências negativas do desenvolvimento de novos mercados em torno de certos produtos, com fenômenos como exclusão, sobreexploração do solo e deslocamento territorial.

Mesmo com todos esses contrastes, a possibilidade de alcançar um sistema agroalimentar mais sustentável e justo para a população da América Latina permanece viva nas redes de troca entre produtores e consumidores, que começaram a ocupar espaços dentro das próprias cidades e cujas iniciativas são lideradas por gerações mais jovens, afirma Pasquier.

"Muitas pessoas estão se reunindo em coletivos buscando repensar [o sistema alimentar]. De certa forma, a esperança está nessas diferentes formas de troca social, onde as pessoas se reconhecem novamente tentando pensar e imaginar [um cenário diferente]", conclui a especialista.

Por Sputinik Brasil