Finanças

Inteligência Artificial é 'tsunami lento' que ameaça empregos em economias avançadas

Kristalina Georgieva defendeu regulação e ética no desenvolvimento desta tecnologia, além de salvaguardas para evitar assimetrias

Agência O Globo - 03/11/2026
Inteligência Artificial é 'tsunami lento' que ameaça empregos em economias avançadas
Kristalina Georgieva - Foto: AP Photo/Jose Luis Magana

MADRI* — A inteligência artificial (IA) tem o potencial de se tornar uma tecnologia democrática e acessível a todos, mas seu desenvolvimento e os riscos associados ao setor financeiro e ao mercado de trabalho exigem a criação urgente de salvaguardas globais. Sem isso, haverá um "tsunami" sobre o mercado de trabalho, que pode afetar 60% dos empregos em economias desenvolvidas. O alerta foi feito pela diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, durante a Conferência Internacional de Bancos, realizada pelo Santander, em Madri, nesta terça-feira.

— Costumo usar a seguinte analogia: a IA é como um tsunami que se aproxima lentamente — é lento, mas ainda assim um tsunami. Estima-se que, globalmente, 40% dos empregos serão afetados pela IA em um período relativamente curto, de três a cinco anos. Em economias avançadas, esse número percentual chega a 60% — alertou a executiva.

Segundo Georgieva, embora a tecnologia atue hoje como um vetor de dinamismo na economia global, o cenário atual traz uma profunda assimetria: o mundo caminha para uma desigualdade crescente nas perspectivas econômicas decorrentes da IA.

— A cadeia de valor de ponta está concentrada em um grupo extremamente restrito de países produtores — como Estados Unidos, China e Índia —, enquanto a maior parte das nações enfrenta dificuldades para integrar-se ao ecossistema — alertou a diretora do FMI, revelando que o Fundo está concentrado em monitorar três grandes riscos decorrentes da corrida pela IA.

Entre eles, está a ameaça à estabilidade financeira. Ela disse que o entusiasmo exagerado transformou a IA no principal pilar de sustentação do crescimento global. Como tecnologias disruptivas costumam ser superestimadas no curto prazo, qualquer frustração nas expectativas de retorno pode deflagrar uma corrida de desinvestimento com sérios impactos sistêmicos.

Georgieva destacou que parte expressiva dos aportes de recursos em IA tem sido financiada por endividamento de longo prazo para projetos com horizonte de exploração curto (de cerca de cinco anos). Soma-se a isso a proliferação de investimentos 'circulares' entre empresas do setor ("eu invisto em você, você investe em mim"), criando uma vulnerabilidade caso algum elo da cadeia falhe.

Georgieva disse que haverá valorização de funções técnicas de alta qualificação e serviços que demandem competências específicas. Ela enfatizou que o objetivo do desenvolvimento econômico e educacional não deve ser empurrar jovens para subempregos ou funções puramente manuais, mas sim capacitá-los para um novo mercado.

— Tenho uma neta de 16 anos e duvido que o sonho dela seja trabalhar como barista em uma cafeteria. O verdadeiro desafio é preparar pessoas e empresas para serem mais ágeis e empreendedoras, tornando o aprendizado contínuo e a capacitação em tecnologia elementos obrigatórios — defendeu.

Para conter o aumento das disparidades e garantir que a IA não amplifique as vulnerabilidades globais, Georgieva defendeu que governos e empresas estabeleçam rapidamente mecanismos de salvaguarda e regulação. O FMI estruturou uma matriz de preparação para a era da inteligência artificial apoiada em quatro pilares estratégicos.

— Entre eles está infraestrutura digital, com garantia de conectividade e capacidade computacional; força de trabalho, com programas focados em mobilidade, requalificação e aprendizado contínuo e obrigatório ao longo da vida; estímulo à adoção da IA por pequenas e médias empresas nos diversos setores e normas claras (de regulação e ética) que mitiguem riscos sem sufocar a inovação — explicou.

Ao citar o exemplo de Cingapura — líder no índice do FMI —, Georgieva enfatizou que mesmo os países mais avançados demonstram apreensão com os dilemas éticos da tecnologia.

— Quanto mais se sabe, maior é a preocupação — disse a diretora do FMI, apontando que o desenvolvimento de uma mentalidade empreendedora e ágil será o fator determinante para o sucesso das nações nesse novo cenário.

*O repórter viajou a convite do Santander