Finanças

Recuo da inflação reforça avaliação de que o BC pode voltar a cortar os juros na próxima reunião do Copom

IPCA de junho surpreendeu analistas ao ficar abaixo das estimativas. No entanto, Serviços seguem pressionados e risco de El Niño preocupa para o segundo semestre

Agência O Globo - 11/07/2026
Recuo da inflação reforça avaliação de que o BC pode voltar a cortar os juros na próxima reunião do Copom
Copom - Foto: Reprodução

Com um alívio nos preços de alimentos e combustíveis, a inflação surpreendeu o mercado ao ficar em 0,16% no mês passado, ante expectativa de 0,31% e de alta de 0,58% em maio. Foi a menor taxa para junho em três anos, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para economistas, o resultado indica uma desaceleração dos preços e reforça a avaliação de que o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), poderá cortar a Taxa Selic — hoje em 14,25% ao ano — em 0,25 ponto percentual na próxima reunião, nos dias 4 e 5 de agosto.

— Pode oferecer mais segurança ao BC para a decisão da próxima reunião, haja vista que, além do bom comportamento dos núcleos de despesas (que captam a tendência dos preços, excluindo itens mais voláteis), o número geral foi inferior à projeção da própria instituição — resume Matheus Pizzani, economista do PicPay.

A inflação perdeu força, principalmente, pela queda nos preços de alimentos. O recuo de 0,25% no grupo Alimentação e bebidas, que responde por mais de 20% do orçamento das famílias, ajudou a compensar a pressão do grupo Habitação, que subiu 0,63%, puxado pelo aumento na conta de luz.

Foi a primeira deflação em Alimentação e bebidas desde novembro do ano passado. Soma-se a isso a retração de 0,48% nos combustíveis.

O diesel e a gasolina haviam disparado em março e abril, quando os preços do petróleo escalaram no mercado internacional por causa do conflito no Oriente Médio. Além disso, a produção de alguns alimentos vinha sofrendo com o clima.

O IBGE atribuiu as quedas nos preços em junho às altas nos meses anteriores. No primeiro semestre, a gasolina foi o item que mais pressionou a inflação, com avanço acumulado de 6,37%. Tomate, carnes e refeição fora de casa também estão entre os que mais subiram.

— A oferta de alguns alimentos estava reduzida, e também percebemos um impacto do preço dos combustíveis no frete. Agora, a maior oferta de alguns itens e a tendência de redução dos combustíveis contribuíram para aliviar o bolso — explicou Fernando Gonçalves, gerente do IPCA.

A redução nos alimentos também ajudou a conter os preços dos serviços, que tiveram variação de 0,4% em maio e de 0,34% em junho, com o custo da refeição fora — seja lanche ou almoço em bares, ou restaurantes — recuando de 0,49% para 0,15%. Só o ramo da refeição responde por 16% da inflação de serviços.

A perda de fôlego no preço da refeição amorteceu altas mais intensas de outros serviços, como os de passagem aérea, que passou de uma alta de 3,2% para 7%; de aluguel residencial (de 0,23% em maio para 0,45% em junho); e de transporte por aplicativo, que subiu de 0,56% para 1,8% no mesmo período.

Para Basiliki Litvac, economista especialista em finanças da XP, a surpresa com o resultado do IPCA veio por fatores que não estavam totalmente incorporados às projeções. Entre eles, os recuos inesperados nos preços de alimentos in natura e de carnes, além de uma leitura mais favorável dos serviços.

Luciana Rabelo, economista do Itaú Unibanco, também percebeu uma composição melhor da inflação, principalmente dos serviços mais ligados à demanda, como alimentação fora do domicílio, aluguel, condomínio e diversos serviços pessoais. Esse grupo costuma ser acompanhado de perto pelo BC por refletir melhor a tendência da inflação.

— As próximas divulgações devem seguir mostrando melhora dos núcleos (índice que exclui os itens mais voláteis), apoiados pela desaceleração dos preços de bens industriais e alimentos, em função da estabilização dos preços de petróleo. Esse conjunto reforça o cenário de mais um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom, ainda que parte da surpresa venha de componentes mais voláteis — disse Luciana.

A alimentação no domicílio, que reúne os produtos consumidos dentro de casa, recuou 0,39%, revertendo a alta de 1,65% de maio.

A conta de luz, que está com bandeira amarela, continuou pressionando a inflação em junho, mas com menos força do que no mês anterior. A energia elétrica residencial desacelerou de uma alta de 3,67% em maio para 1,53% em junho. Foram aplicados reajustes por distribuidoras em Porto Alegre, Curitiba e Belo Horizonte e retomado um aumento nas tarifas de uma concessionária do Rio.

Em agosto, a entrada do bônus de Itaipu nas contas de luz deve segurar os preços de energia.

Já os alimentos podem voltar a pressionar o índice diante das chances de formação do El Niño no segundo semestre, que pode ser o mais intenso em 75 anos, segundo o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês).

No ano, o IPCA acumula alta de 3,36%, o maior índice desde 2022. Nos últimos 12 meses, está em 4,64%, acima do teto da meta de inflação do BC, de 4,5%. Pizzani manteve a projeção de 4,7% para o IPCA em 2026. Ele diz que ainda não incorporou possíveis efeitos do El Niño à estimativa, mas monitora o evento.

Os economistas também acompanham uma possível aceleração dos preços dos bens industriais, que podem ficar mais caros caso o cenário externo pressione mais os custos de produção e importação. Outro ponto de atenção é a inflação de serviços como restaurantes, salões de beleza e outros intensivos em mão de obra. Se continuarem a subir, podem contaminar o restante do grupo e dificultar a convergência da inflação para a meta, diz Pizzani.

Basiliki, da XP, avalia que, embora o IPCA de junho fortaleça a expectativa de um corte da Selic em agosto e os próximos dados ainda devam refletir alívio nos preços de alimentos e combustíveis, é cedo para concluir que a desaceleração dos preços está consolidada:

— Temos alguns riscos de pressão de custos que podem ser repassados por produtos e distribuídos ao longo da cadeia. Há ainda um mercado de trabalho aquecido, com serviços intensivos em mão de obra subindo acima do centro da meta de inflação.